A INVISIBILIDADE DENTRO DO ATLETISMO: POR QUE ALGUMAS PROVAS RECEBEM DESTAQUE E OUTRAS PERMANECEM INVISÍVEIS?

Entre a lógica da mídia e o espetáculo esportivo, o atletismo é reduzido a poucas provas, enquanto outras seguem à margem.

O atletismo é frequentemente chamado de “esporte base” (Gomes, 2019). E não é por acaso, que a modalidade esportiva olímpica reúne um conjunto de provas envolvendo habilidades humanas fundamentais, tais como correr, saltar, arremessar e lançar. O atletismo está na origem de praticamente todos os esportes modernos e ocupa um lugar central em eventos como os Jogos Olímpicos. Mas, apesar de toda a sua relevância histórica e simbólica, vive uma contradição evidente, onde nem todas provas dentro dele são visíveis e, muitas vezes, o próprio esporte como um todo, ocupa um lugar “rebaixado” nas mídias.

 Invisível ou só é mal comunicado? 

Assim como o futebol, o atletismo também tem histórias contínuas, rivalidades esportivas e um formato de espetáculo, que concentra disputas acirradas e emoções. Então, obviamente é mal comunicado.

Quando o atletismo aparece na mídia, algumas imagens surgem quase automaticamente, como provas de 100 metros rasos, finais olímpicas ou nomes icônicos como Usain Bolt, enquanto outras provas não ocupam tal lugar de destaque. O que também se reflete no cotidiano quando alguém diz que pratica atletismo, muitas vezes a primeira pergunta que escuta é: “- Quantos quilômetros você corre?”. Essa não é apenas uma dúvida inocente, mas o reflexo de um imaginário limitado, construído pela repetição do que é mais mostrado. Ou seja, acabamos reproduzindo aquilo que a mídia mais visibiliza. 

Ao mesmo tempo, modalidades como salto triplo, em altura e em distância, marcha atlética, corridas de velocidade, com barreiras, obstáculos, meio fundo e fundo, lançamento de martelo, disco e dardo, arremesso de peso, salto com vara ou provas combinadas raramente ocupam o mesmo espaço de destaque. Dessa forma, o atletismo acaba sendo reduzido, mesmo sendo um esporte extremamente diverso. Algumas provas são constantemente exibidas, enquanto outras permanecem à margem, quase invisíveis, não por falta de importância, mas por uma lógica de visibilidade que seleciona, simplifica e apaga parte da sua complexidade.

Por que isso acontece?

Para entender essa desigualdade em destaque, é preciso olhar para a forma como a mídia esportiva funciona. Um dos conceitos mais importantes aqui é o de agenda-setting, da teoria da comunicação (McCombs 2018). Em termos simples, a mídia não diz exatamente o que pensar, mas diz sobre o que pensar. Ou seja, ao escolher quais provas mostrar e quais narrativas contar, ela define o que será visto como “importante”.

Dentro dessa lógica, a sociedade contemporânea, marcada por ser  imediatista, favorece conteúdos mais diretos e fáceis de compreender. Provas rápidas, diretas e facilmente compreensíveis ganham vantagem midiaticamente. Os 100 metros rasos, por exemplo, têm uma narrativa imediata, que começa e termina em poucos segundos. É um produto para a lógica da atenção rápida, especialmente nas redes sociais e na televisão, tudo para gerar maior engajamento.

Já provas como o lançamento de martelo ou o decatlo exigem contexto. Regras, técnicas, pontos acumulados, diferentes tentativas. São modalidades ricas, mas menos “instantâneas” para quem assiste casualmente. Na economia da atenção, aquilo que não é imediatamente compreendido tende a ser menos consumido.

Outro conceito importante para entender esse fenômeno vem de Guy Debord e a ideia de “sociedade do espetáculo”. Nós vivemos em um sistema em que tudo se transforma em imagem, em performance e em evento consumível (Debord,1997), a emoção rende marketing. O esporte, nesse contexto, deixa de ser apenas prática e passa a ser espetáculo. 

Nesse contexto, o esporte também pode ser entendido dentro da lógica da indústria cultural, conceito discutido por Theodor Adorno, em que os produtos culturais são padronizados e consumidos de forma massiva, priorizando aquilo que gera maior engajamento e repetição. Nesse sentido, a mídia esportiva tende a reforçar determinados formatos de provas e narrativas que são mais facilmente consumidos pelo público, contribuindo para a visibilidade desigual dentro do atletismo (Adorno, 1971).

A lógica da mídia ajuda a explicar por que algumas provas ganham destaque enquanto outras permanecem invisíveis. O esporte se torna atrativo para a indústria midiática por meio da popularidade dos atletas, ou seja, por meio da construção de “rostos” capazes de criar vínculos afetivos com o público, além da circulação constante de imagens e da associação entre desempenho esportivo e produtos (Weis, 1986 apud Betti, 1997). Assim, o atleta deixa de ser apenas um competidor e passa a ser também um símbolo. Essa conexão emocional faz com que o público se interesse mais por acompanhar determinadas provas e personagens. Ao mesmo tempo, a mídia reforça essa visibilidade ao repetir constantemente imagens desses mesmos atletas e provas. 

Assim, o esporte deixa de ser apenas competição e passa a ser comunicação e consumo, em que atletas se tornam símbolos e, dentro dessa lógica, até “produtos” que vendem atenção. É nesse contexto que (Betti 1997) define o “esporte espetáculo” como uma forma de apresentação do esporte que privilegia aquilo que é mais vendável, envolvente e facilmente consumido, muitas vezes centrado em ídolos.

É uma invisibilidade construída, não natural. E não é ausência de importância, todas fazem parte da mesma base esportiva. O que existe, na verdade, é uma hierarquização construída pela mídia, onde certos formatos ganham mais espaço do que outros.

O resultado é um atletismo “recortado”, hierarquicamente midiático, no qual apenas algumas partes são constantemente visíveis, enquanto outras permanecem pouco exploradas ou praticamente desconhecidas pelo grande público.

E se o olhar mudasse?

Pensar na invisibilidade também é abrir espaço para uma mudança de perspectiva. E o que aconteceria se o público tivesse mais acesso às provas em geral? Talvez o atletismo deixasse de ser visto apenas como um esporte de “corrida” e passasse a ser reconhecido pelo que realmente é, um dos sistemas esportivos mais diversos, completos e exigentes tecnicamente. 

Por fim, reduzir a invisibilidade de algumas provas passa por mudar a forma como o atletismo é comunicado. Isso envolve diversificar narrativas, ou seja, ir além dos resultados e passar a contar trajetórias, dificuldades e curiosidades das diferentes modalidades, além de ampliar a cobertura para além das grandes competições. 

Plataformas de streaming esportivo, por exemplo, a GloboPlay, que já tem conteúdos específicos do futebol, poderia ser expandido para o atletismo. Como também o papel dos próprios atletas, cujo posicionamento e produção de conteúdo se tornam cada vez mais importantes nesse processo, o atleta contemporâneo não é apenas um competidor, ele é também uma plataforma simbólica, capaz de agregar valores, inspirar pessoas e representar identidades culturais diversas. 

Mas essas estratégias precisam caminhar juntas. Antes de tudo, a mídia deve reposicionar o atletismo como um esporte diverso e completo, e isso deve vir acompanhado do posicionamento dos próprios atletas, e assim, tirando a invisibilidade e falta de reconhecimento das provas. Isso porque, quando um atleta da marcha atlética, por exemplo, publica um treino ou uma rotina de preparação sem esse contexto midiático, ele pode acabar sendo mal interpretado, julgado ou até criticado por quem não conhece a prova, por isso o reposicionamento em geral.

No fundo, não se trata apenas de mostrar mais, mas, de mostrar melhor, com estratégia, contexto, intencionalidade e acessibilidade. Considerando o atletismo em sua totalidade, e não apenas em provas específicas.

Imagem 1O ‘momento perfeito’ do esporte: decisões rápidas e resultados imediatos que favorecem a lógica do espetáculo midiático.Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/outros-esportes/apos-quatro-anos-longe-das-pistas-usain-bolt-fala-sobre-a-vida-de-aposentado/

Imagem 2 A mídia não mostra tudo: ela seleciona o que ganha visibilidade e define o que o público passa a considerar importante. Fonte: https://www.google.com/search?q=atletismo

Imagem 3 Marcha atlética, uma das provas menos visibilizadas da mídia esportiva, apesar da alta complexidade técnica e exigência física. Fonte: https://www.gov.br/esporte/pt-br/noticias-e-conteudos/esporte/campeonato-mundial-de-marcha-atletica-por-equipes-2026-tera-investimento-de-quase-r-500-mil-do-mesp

Imagem 4 A marcha atlética é frequentemente mal compreendida, o que contribui para sua baixa visibilidade e até julgamentos do público. Fonte: rede social

Imagem 5 – O atletismo não é único, é múltiplo. Mas nem todas as suas provas recebem o mesmo espaço de visibilidade. Fonte: https://www.efdeportes.com/efd211/o-atletismo-na-escola-uma-perspectiva-pedagogica.htm

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W. Televisão, consciência e indústria cultural. In: COHN, G. (Org.). Comunicação e indústria cultural. São Paulo, Companhia Editora Nacional, Editora da USP, 1971. 

BETTI, Mauro. A janela de vidro: esporte, televisão e educação.Campinas, SP, 2007. Tese (Doutorado em Educação) Universidade Estadual de Campinas.

BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. p. 377  

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

GOMES, Leonires Barbosa. Atletismo como esporte base no desenvolvimento motor. Clube de Autores, 2019.

MCCOMBS, Maxwell E.; SHAW, Donald L.; WEAVER, David H. New directions in agenda-setting theory and research. In: Advances in foundational mass communication theories. Routledge, 2018. p. 131-152.SANTOS, Eduarda Souza. Relações públicas e atletismo: estratégias de performance para engajamento e imagem pública. 2025. p.24.

Deixe uma resposta