A União Conquistada Por Meio da Criação de Uma Torcida Organizada: O Caso União Jovem Paracambi

As torcidas organizadas rotineiramente são ligadas a conflitos violentos e confusões, muito por conta da mídia tradicional que lucra com suas páginas repletas de sangue e violência; o pânico moral difundido pela mídia tradicional com relação às torcidas organizadas ofusca qualquer outro tipo de sociabilidade que exista dentro desse grupo social.

O termo “torcida organizada” é utilizado para se referir a todo tipo de torcida organizada que existe (e.g. torcidas barras, chopp, de pista) e é sempre associado à violência. Porém, entre os diversos tipos de torcidas organizadas que existem, o modelo de organização característico onde a violência faz parte de sua sociabilidade é o de pista.

Não tenho como intenção falar sobre todos os tipos de torcidas organizadas, mas creio ser importante uma contextualização rápida: 

  1.  As torcidas chopps são torcidas organizadas voltadas para a prática de se embriagar com o consumo de cerveja enquanto apoiam o seu time, essas torcidas negam a violência e pregam a paz nos estádios. Seu ideal é parecido com as das primeiras torcidas organizadas criadas na década de 40 (carnavalizadas); a torcida chopp está ali para apoiar o time e fazer a festa, seja no estádio ou na sede onde realizam churrasco e tomam cerveja. A violência contra outras torcidas é um ato proibido, sendo causa legítima para a expulsão do torcedor do grupo. 
  2.  Já as torcidas organizadas barras bravas, ou só barras, são inspiradas na sonoridade, estética e práticas corporais de torcer das torcidas barras bravas da Argentina. A inspiração na ideologia não é completa, pois, ainda que as barras brasileiras adotem o ideal de apoio incondicional, não são torcidas violentas; ou seja, não entram em confronto físico com as torcidas de outros clubes, como as barras bravas argentinas. As barras brasileiras se destacam das demais torcidas organizadas daqui em especial na sonoridade; os instrumentos utilizados pelas barras são: prato, trompetes, murga e surdo.  O destaque maior fica com a murga e com o som de prato que ela produz, diferente das demais torcidas brasileiras nas quais o surdo é o instrumento de destaque. Os ritmos das canções também são diferentes, pois deixam os ritmos de samba e funk de lado e optam por canções inspiradas na cúmbia, estilo musical muito popular na Argentina.
  3. As torcidas de pista, ou ‘torcidas jovens’, surgiram na década de 1970 inspiradas nos movimentos estudantis e em sua busca por direitos sociais, tais como o direito ao protesto. Essas torcidas são marcadas pelo rompimento com a ideia de “apoio incondicional” e trazem os protestos e as críticas para as arquibancadas. Em sua origem, não possuíam vínculo com dirigentes nem jogadores — atualmente possuem vínculo com os primeiros — o que possibilitava seus protestos. São as torcidas de pistas o movimento mais famigerado de torcidas nas arquibancadas brasileiras e as que aparecem no imaginário popular quando pensam o que é uma torcida organizada. Fundadas em uma época onde a organização da sociedade brasileira estava nas mãos de ditadores que dominavam através do pânico, violência e extermínio do próximo, as torcidas organizadas, ainda que se espelhando nos movimentos jovens estudantis que lutavam contra a ditadura militar, acabam por refletir muito dessa violência que imperava na sociedade, fazendo disso parte de sua ideologia (Hollanda et al., 2011). O “ritmo” — termo usado por torcedores de pista para se referir ao ethos da torcida — é o de confronto com o rival. Porém, não se trata de um confronto de extermínio — embora aconteçam homicídios — mas sim de confrontos corporais onde o “mais homem”, “com mais disposição”, vence. O ideal das torcidas jovens é lutar e dominar o rival, nas palavras de um interlocutor: “deixar fudido”. Não matar.

A violência, inegavelmente, faz parte da sociabilidade das torcidas de pista, porém não é o único, tampouco o mais importante fator de sua existência. Para sustentar essa minha afirmação, a pesquisa em curso que estou fazendo na União Jovem Paracambi (UJP) é muito útil. 

A União Jovem Paracambi é uma torcida organizada fundada no ano de 2010 por torcedores organizados dos três times de maior investimento do Rio de Janeiro (Vasco, Flamengo e Botafogo) que residiam/residem em Paracambi, com a finalidade de compor o conflito entre eles, uma vez que, na época da fundação da torcida, era comum esses torcedores estarem em confrontos físicos representando as torcidas organizadas das quais eles fazem parte referentes aos times de maiores investimentos. 

A União, como também é conhecida a torcida, simboliza a união do poder jovem que reside na cidade e que se manifesta e exprime sua excitação em competições esportivas. Sendo assim, a União Jovem Paracambi é o totem de união de poderes individuais conflitantes; a UJP é um mecanismo social de administração e composição de conflitos que utiliza do esporte para poder realizar sua função social.

A torcida apoia o time oficial da cidade. Atualmente, Paracambi só conta com time de futsal. Ainda que os fundadores da UJP fazem/faziam parte de torcidas organizadas que no geral acompanham seus clubes primários no futebol, em Paracambi, essa experiência é levada para os ginásios e suas arquibancadas. 

Seguindo essa identidade e experiências primárias dos torcedores, a União Jovem Paracambi segue o padrão de torcida de pista, ou seja, com identificação através de símbolos que estão presentes nas camisas, bandeiras, músicas, dominação territorial (toda a cidade de Paracambi, em especial o ginásio do Grêmio Recreativo e Esportivo de Paracambi) e violência contra os rivais. Ainda que seu axioma principal seja a união e composição de conflitos entre torcedores, após a construção da identidade secundária (torcedor da UJP), seguindo a noção de que um grupo político só existe em oposição a outros grupos do mesmo sistema (Evans-Pritchard, 1951), surgem os grupos (torcidas) os quais fazem oposição, e daí novas racionalidades de alianças e inimizades são criadas.

IDENTIDADE PRIMÁRIA E SECUNDÁRIA

No Estado do Rio de Janeiro é comum que torcedores tenham 2 clubes, o local e o da metrópole; normalmente, o time local disputa campeonatos menores e possuem menor investimento (muitas vezes considerados pequenos) ao passo que o da metrópole, com mais investimento, disputa os campeonatos nacionais e internacionais (considerados times grandes) (Guedes, 2023). Assim, em minha pesquisa, eu trato como identidade primária aquela construída em volta do time da metrópole que possui maior investimento, maior expressão no cenário nacional e até internacional, sendo capazes de proporcionar maiores excitações, estando presentes em cada local e tempo da vida do torcedor; e a secundária, a identidade formada localmente (bairro ou cidade) em torno da equipe local.

 A identidade primária dos torcedores da União Jovem é de torcedores dos times de maior investimento do Estado; essa identidade é formada através de cores, símbolos, cantos e práticas corporais que os colocam como torcedores (clã) de determinado clube (tribo), e os diferenciando através desses mesmos símbolos de outras torcidas, seja do mesmo clube ou não. Portanto, a identidade desses torcedores é formada através de uma fronteira (Barth, 1998) que identifica de que torcida eles são e qual a forma organizacional dessa torcida. Essa identidade primária acompanha o torcedor para onde quer que ele for e é a base de sua identidade enquanto torcedor. 

Já a identidade secundária é um ponto de controle da identidade primária em âmbito local comum de torcedores rivais. Ela surge a partir de uma segmentação da identidade de torcedor, influenciada pela identidade primária ao mesmo tempo que propõe sua suspensão. Por isso, os símbolos escolhidos para afirmar essa nova identidade deveriam ser totalmente diferentes dos símbolos utilizados pela identidade primária. Contudo, esses novos símbolos seguem a racionalidade padrão do “ser torcedor” para esses indivíduos. Sendo assim, uma vez que a forma de se identificar (primariamente) como torcedores organizados é sendo torcedores de pista, a identidade secundária seguiu a mesma lógica.

SEGMENTAÇÃO E UNIÃO

Os torcedores brasileiros se segmentam em várias seções, as quais criam identidade únicas; pude observar através da leitura sobre o tema, minha vivência enquanto torcedor e minha observação participante dentro de uma torcida organizada, que os torcedores brasileiros se segmentam da seguinte maneira:

Torcedores Brasileiros (Seleção)

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Clubes (e.g. Vasco, Flamengo, Palmeiras…)

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Torcidas Diferentes do Mesmo Clube (e.g. Torcidas do Vasco = Força Jovem, Guerreiros do Almirante, Ira Jovem…)

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Divisão Dentro da Mesma Torcida (Por Região)

Essa divisão segmentar se assemelha à descrita por Evans-Pritchard (1951) quando analisa os Nuer.

Para melhorar explicar, tomo como exemplo o clube Vasco da Gama que tem diversas torcidas: Força Jovem do Vasco (FJV), Ira Jovem, Guerreiros do Almirante (GDA), Mancha Negra, Torcida Organizada do Vasco (TOV) e diversas mais. Sendo, algumas vezes, uma torcida criada devido ao conflito interno de torcedores de uma outra torcida, que não podendo estar mais juntos, formam uma nova linhagem (torcida organizada) do mesmo clã (clube).

As torcidas por sua vez se segmentam por regiões, como por exemplo a torcida Força Jovem do Vasco que se segmenta em “famílias”, que é a denominação dada a segmentação por região, por exemplo: 8ª Família: que abrange as cidades de Nova Iguaçu, Morro Agudo, Nilópolis, Austin, Japeri, Posse, Engenheiro Pedreira, Tinguá, Vila de Cava, Mesquita e Paracambi. Embora sejam segmentações da mesma torcida, há registro de confrontos entre essas famílias; no momento desses conflitos eles não se veem como torcedores do Vasco, mas membros das famílias x e y em confronto, algo semelhante ao descrito por Evans-Pritchard (1951). Não é que exista conflitos entre as famílias a priori — sua segmentação é apenas uma organização por região — mas não é raro que esse conflito surja ao longo do tempo e seja a origem de uma nova torcida, que nasce unida pelo amor ao clube, mas rivais entre si.

Assim, a heterogeneidade das torcidas organizadas, ainda que do mesmo clube e no mesmo estádio, é uma falácia. Essas torcidas a todo tempo competem por espaço físico e pelo imaginário cultural. O conflito está sempre presente, mas manifestando-se através de rituais que mantêm o equilíbrio através da ritualização do conflito (Turner, 2005). No momento em que o equilíbrio dessa estrutura se rompe é quando os conflitos escalam para algo desorganizado, gerando o rompimento de membros de uma torcida com a instituição e fazendo com que surjam outras torcidas através da dissidência. Sendo, por fim, restaurado o equilíbrio estrutural e voltando o conflito apenas para o campo ritual — na maior parte do tempo.

Repassando a segmentação: os torcedores brasileiros (A) se segmentam em torcedores de clubes (B), que por sua vez se segmentam em torcidas (C) e que se segmentam por região (D). Criando a cada nível de segmentação, identificação individual. Cada segmento da mesma seção se une quando surge o conflito contra outras seções, por exemplo: as famílias da FJV se veem como FJV quando em conflito com a IRA, também torcida do Vasco; FJV e IRA se veem como torcedores do Vasco quando em conflito com um inimigo comum: Torcida Jovem do Flamengo (TJF), do Flamengo. E torcedores do Vasco e Flamengo se veem como torcedores brasileiros quando o conflito é entre nações.

Agora retorno à União Jovem Paracambi para falar sobre sua gênese a partir de uma segmentação não mais de torcida, mas a segmentação da identidade individual de torcedores.

Conforme demonstrado antes, o surgimento de uma torcida dentro do mesmo clube, muita das vezes, se origina através do conflito interno dentro de determinada torcida organizada, que não resolvido, acaba por criar a segmentação pela dissidência (Hollanda et al, 2011). Há também a segmentação circular descrita por Deleuze e Guattari (1980) — e utilizada por Goldman (2006) ao analisar a segmentação dos movimentos negros em Ilhéus, Bahia — que é quando o mesmo grupo se segmenta através de regiões, nos casos das torcidas organizadas, essas segmentam em: bairros, cidades, estados e regiões. Os processos de segmentações citados anteriormente são sempre realizados por grupos. Com relação à União Jovem Paracambi, a segmentação individual da identidade dos torcedores, que desemboca no mesmo local de convivência comum (a cidade de Paracambi), é que proporcionou a possibilidade de sua criação. Assim, onde antes existia uma rivalidade entre as identidades dos torcedores organizados que residem/residiam em Paracambi, após a segmentação de suas identidades de torcedores engendrando assim uma identidade secundária, agora existe uma união.

Portanto, no caso da União Jovem Paracambi a segmentação se dá de uma forma diferente da descrita e analisada por autores como Evans-Pritchard (1951), Deleuze e Guattari (1980) e Goldman (2006), pois não se trata de uma segmentação de um grupo, mas de indivíduos de diversos grupos diferentes que formam um novo grupo. Ainda que o conflito (dissidência) tenha influência e a localidade também (segmentação circular), a União Jovem Paracambi surge como forma de administração e composição de conflitos, permitindo assim que os torcedores que antes eram rivais enquanto no universo de torcidas organizadas, mas amigos ou ao menos conhecidos em suas relações pessoais de cidadãos de Paracambi, possam realizar o ritual de torcer juntos.

Conclusão

A segmentação apresentada por mim nesse texto, que é fruto de minha dissertação ainda em curso, só é possível na esfera local. Pois ela requer uma identidade primária (clube da metrópole) conflitante que se segmenta em uma nova identidade (secundária e local) que administre esse conflito.

Logo, essa segmentação pertence ao “futebol periférico”, ou seja, aquele disputado nas divisões inferiores, seja do campeonato estadual ou do campeonato brasileiro, e nos campeonatos amadores; aquele futebol sem glamour; sem repercussão; sem cobertura da mídia tradicional; o futebol ignorado pela mídia tradicional e em grande parte pelos observatórios e núcleos de pesquisa sobre o futebol.

A “várzea” como também é chamado esse “futebol periférico”, além de celeiro de muitos craques, também possui sua racionalidade própria com seus conjuntos de símbolos que criam uma nova sociabilidade entre os torcedores, sobrepondo sua identidade com uma outra identidade; ou melhor, administrando conflitos entre potências individualmente rivais sob um novo símbolo local capaz de promover sua união. 

Referências

BARTH, Fredrik. Ethnic groups and boundaries. The social organization of culture difference. Boston: Little, Brown and Company, 1969.

DELEUZE, Guilles e GUATTARI, Felix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia 2. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

EVANS-PRITCHARD, E. E. Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota. São Paulo: Perspectiva, 2003.

GUEDES, Guedes Lahud. O Futebol Brasileiro: Instituição Zero. 1 ed. São Paulo: Ludopédio, 2003.

GOLDMAN, Marcio. Como Funciona a Democracia: Uma Teoria Etnográfica da Política. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006. 

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de et al. A torcida brasileira. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.

TURNER, V. Floresta de símbolos: aspectos de ritual Ndembu. Niterói: EdUFF, 2005.

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