Quando ligamos a televisão para assistir ao noticiário esportivo, a pauta “torcida organizada” quase sempre vem acompanhada das mesmas palavras: violência, vandalismo, barbárie. No imaginário coletivo, forjado por décadas de uma cobertura midiática focada no conflito, a arquibancada é um território de selvageria. Mas o que acontece quando a realidade desafia essa narrativa? O que acontece quando torcidas rivais se encontram não para brigar, mas para fazer um churrasco?
Essa não é uma hipótese. É um fato que acontece nos territórios de (re)existência do futebol carioca, longe dos holofotes da Série A e dos grandes contratos de transmissão. Minha pesquisa mergulha nesse universo para entender as alianças entre torcidas de clubes de menor expressão no Rio de Janeiro, como a União Terrorista. O que descobri foi que, por trás da lógica das rivalidades, existe uma complexa rede de afetos coletivos e solidariedade.
O Churrasco que a mídia ignorou
O dia 30 de junho de 2018 é emblemático. No entorno do estádio da Rua Bariri, horas antes de um Olaria x Duque de Caxias decisivo pela Série B1, a Torcida Jovem do Olaria e a Infernizada Tricolor se reuniram. Rivais em campo, mas irmãos na aliança “União Terrorista”. Em vez de tensão, o que se viu foi um churrasco de confraternização. Bandeiras se misturaram, cantos foram compartilhados.
O evento foi tão singular que uma equipe de reportagem da Band Rio esteve presente, filmou a festa e organizou uma caminhada conjunta das duas torcidas até a entrada do estádio. A expectativa dos torcedores era imensa: finalmente, mostrariam um lado diferente da história.
A matéria nunca foi ao ar.

Esse episódio é a síntese perfeita do duplo apagamento a que o futebol periférico está submetido. Primeiro, a invisibilidade midiática crônica dos clubes “menores”. Segundo, o silenciamento seletivo: quando uma prática foge da narrativa dominante da violência, ela é simplesmente ignorada. Isso reforça o que pesquisadores como Cabrera Duran e Sousa (2024) chamam de “pânico moral” – um pânico que só se alimenta de conflito.
Para além da briga: A “Síndrome de Beduíno”
A academia há tempos estuda a lógica das alianças nacionais, como a “síndrome de beduíno” (DUNNING et al., 1995), para explicar as brigas. A lógica é clara: “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. No entanto, como aponta a pesquisa do Observatório Social do Futebol da UERJ, essa mesma lógica “também materializa vínculos de parceria, solidariedade ou ação social” (CABRERA DURAN; SOUSA, 2024, p. 193).
É exatamente nessa solidariedade que o futebol periférico (re)existe. No caso da União Terrorista, o bloco reúne torcidas de diferentes clubes da esfera suburbana e do interior do Rio de Janeiro. Entre elas estão a Super Bangu (Bangu Atlético Clube), a Torcida Jovem do Olaria (Olaria Atlético Clube), a Torcida Rubro Anil (Bonsucesso Futebol Clube), os Leões de Macaé (Macaé Esporte), o Império Americano (Americano Futebol Clube), a Mancha Azul (Barra Mansa Futebol Clube), a Ultras Facção Jovem Tricolor (Friburguense Atlético Clube), os Dragões de Caxias (Duque de Caxias Futebol Clube), a Torcida Organizada Império Maricá (Maricá Futebol Clube) e a Infernizada Tricolor (também do Duque de Caxias Futebol Clube).
Por outro lado, a União Punho Colado (UPL) reúne torcidas igualmente enraizadas no cenário suburbano e metropolitano, como a Inferno Rubro (América Football Club), o Esquadrão Niteroiense (Niteroiense Futebol Clube), a Torcida Jovem do Mesquita (Mesquita Futebol Clube), a Jovem Goyta (Goytacaz Futebol Clube), a Torcida Jovem do Madureira (Madureira Esporte Clube), os Guerreiros do MEC (também do Madureira), a Fúria Verde (Boavista Sport Club), a Jovem Iguaçuana (Nova Iguaçu Futebol Clube), a Torcida Jovem do Voltaço (Volta Redonda Futebol Clube), a Super Galo (Campo Grande Atlético Clube) e a Garra Jovem (Tigres do Brasil).

Elas praticam o que Ronaldo Helal (1990) definiu como o “caráter recreativo do conflito”. A rivalidade não é eliminada, ela é transformada em festa. O torcedor “harmoniza-se para conflituar” (HELAL, 1990, p. 72). A hostilidade dá lugar à celebração, transformando a rua, o entorno do estádio, em uma “territorialidade sônico-musical” (BELART, 2021).
A luta dessas torcidas se dá em múltiplos territórios. O principal é a rua. O churrasco é uma tática de ocupação, um exercício prático do “direito à cidade” (HARVEY, 2014) por coletivos marginalizados.
Victor Vianna, torcedor emblemático do Olaria, membro do conselho do clube e um dos fundadores da Torcida Jovem, resumiu o espírito daquela confraternização:
“Nós estamos ligados pelo mesmo ideal, que é representar e ser referência em torcida na nossa região. Seja a Infernizada ou a Torcida Jovem do Olaria, são referências como torcidas símbolo de apoio e entrega aos seus respectivos clubes. Seja na Zona Norte ou na Baixada Fluminense, estaremos sempre juntos” (VIANNA VICTOR, 2018)

Enquanto a mídia tradicional, em sua “ofensiva de criminalização” (CABRERA DURAN; SOUSA, 2024), constrói a imagem do “vilão”, essas torcidas usam suas próprias redes sociais e, principalmente, seus corpos no espaço físico, para construir narrativas alternativas. Elas são uma forma de fã-ativismo (VIMIEIRO; MAIA, 2017) que, em vez de lamentar um passado perdido, constrói ativamente, no presente, formas de sociabilidade que garantem sua sobrevivência simbólica.
Chamar o que acontece no subúrbio e na Baixada de “futebol periférico” é, portanto, reconhecer que a luta ali não é só pelo resultado em campo. É uma luta diária contra o estigma e pelo direito de existir, de narrar a si mesmo. É usar o afeto como trincheira.
