As Fronteiras da Paixão: Globalização, Identidade e o Amor pelo Futebol Europeu

O futebol, na contemporaneidade, transcende nossas tentativas de defini-lo, exemplificá-lo ou mesmo de esgotar o significado íntimo que ele exerce sobre cada um de nós. Mais do que um esporte ou um produto submetido a uma constante e renovada espetacularização, ele manifesta-se quase como uma entidade autônoma — uma força social que exige ser celebrada por meio da ritualística e do drama inerentes às suas partidas.

É provável que todo amante do ludopédio compreenda, em certa medida, as raízes de sua própria paixão. Para alguns, o pertencimento clubístico é uma herança familiar: um legado repassado pelos pais desde a primeira infância, materializado em camisas, festas de aniversário temáticas, peregrinações dominicais aos estádios e, não raro, no próprio nome de batismo em homenagem a ídolos do passado. Para outros, no entanto, o amor forja-se nas contingências e no acaso. Ele desperta subitamente no controle de um videogame, no fascínio por uma partida transmitida aleatoriamente na televisão ou em conexões fortuitas mediadas pelas telas.

Figura 1 – O amor clubístico de pai para filha/o

Fonte: Fernando/Meu timão

Ao concebermos o futebol sob essa faceta quase divina, constatamos que sua influência sobre seus devotos é de tal magnitude que, não raro, nos questionamos a razão pela qual nos permitimos padecer por um jogo. Contudo, a resposta reside no fato de que essa mesma entidade nos recompensa com seus milagres terrenos: o êxtase de um gol no apagar das luzes, a plasticidade de uma jogada improvável ou a reverência a ídolos que marcam gerações. A verdade é que a devoção a esse esporte nos proporciona uma experiência, em última instância, transcendental. 

No que tange ao pertencimento clubístico, a construção da identidade torcedora obedece, historicamente, a um traço muito específico e territorializado. Para compreendermos essa mecânica, Pierre Bourdieu (2007) nos apresenta o conceito de habitus: um sistema de disposições, comportamentos e valores que interiorizamos ao longo de nossas vidas, atuando como uma espécie de lente através da qual percebemos, julgamos e agimos no mundo. Esse arcabouço é forjado a partir de nossas classes sociais, arranjos familiares e trajetórias, transformando o que é, em essência, uma condição social externa em uma maneira ‘própria’ de pensar, sentir e agir. Sob essa ótica, o roteiro preestabelecido dita que o afeto deve orbitar, quase obrigatoriamente, em torno das agremiações locais, herdando-se a camisa da família e respirando a rivalidade do próprio território. 

Entretanto, o que temos observado ao longo dos últimos anos é uma narrativa que foge ao script outrora estabelecido. Se antes notávamos apenas entusiastas do futebol internacional — amantes do jogo europeu que o viam predominantemente como o palco de reunião dos melhores jogadores do planeta —, hoje há uma crescente legião daqueles que não apenas admiram a história de uma equipe ou a acompanham esporadicamente, mas a adotam como seu clube principal, ou, no mínimo, em pé de igualdade com seu time nacional.

Historicamente, já existia uma crítica latente à adoção de um segundo clube mesmo em território nacional, assim como um estigma sobre aqueles que, vivendo em uma localidade, devotam seu afeto a times de outros grandes centros futebolísticos brasileiros. Hoje, essa dinâmica atravessou o Atlântico. Como demonstra a pesquisa realizada pela CNN/Itatiaia/Quaest (CNN, 2023), 35% dos jovens brasileiros torcem para algum clube europeu, sendo os principais Real Madrid (13%), Barcelona (9%) e PSG (5%). É inegável que são instituições em voga há décadas, impulsionadas por hegemonias financeiras, empilhamento de taças e pela presença maciça de craques brasileiros que lá triunfaram. No entanto, a paixão transnacional pode ir muito além do mero consumo do sucesso.

Se a atração por megaprojetos esportivos e ‘clubes-estado’ muitas vezes se explica pela promessa garantida da vitória e pelo espetáculo do capital, há escolhas que desafiam essa lógica. Como explicar, por exemplo, eu que vos escrevo, tendo um coração brasileiro que decide pulsar pelo giallorosso da Associazione Sportiva Roma? Escolher a loba capitolina não é ancorar-se na certeza de títulos hegemônicos a cada temporada, mas sim abraçar uma identidade visceral, uma herança histórica imponente e uma passionalidade que, curiosamente, ecoa de maneira muito íntima a forma sul-americana de se viver o futebol. 

Quando comecei a torcer para a Roma, era uma criança/adolescente que amava estudar história, especialmente o período greco-romano e, de alguma forma, isso me levou a contemplar o “Il capitano” Francesco Totti, um dos maiores jogadores italianos, campeão do mundo e, especialmente, conhecido pela sua fidelidade eterna pelo o clube romanista. Escolher a Roma como um clube foi e é muito além de uma perspectiva de comemorar títulos, porque conquistas não são algo que faça parte do catálogo a ser esperado ao longo de uma época, mas se encantar com o canto da torcida romanista, em especial da curva sud do olímpico, onde os mais fanáticos se fazem presente. 

Figura 2 – Francesco Totti, o maior ídolo romanista

Fonte: Facebook/Uefa Champions League

Trouxe aqui um exemplo passional particular, para buscar ilustrar um pouco do que penso e observo sobre, mas existem inúmeros clubes que poderia listar e os quais conheço pessoas que são apaixonados por suas histórias ou questões que o levaram a ter uma simpatia ou grande torcida, a exemplo o Celtic FC (Escócia), fundado em 1887 por imigrantes católicos para arrecadar dinheiro para os pobres de Glasgow, o clube mantém uma identidade operária e antifascista, atraindo quem se identifica com pautas sociais e de esquerda. O S.t Pauli (Alemanha) onde a torcida apoia causas como os direitos de minorias, refugiados e habitação popular. O time é um ícone para quem enxerga o futebol como ferramenta de transformação social. O Liverpool, e sua relação entre a torcida e a política britânica, profunda e historicamente tensa, marcada por um forte sentimento de isolamento do restante do país. Os torcedores, conhecidos como Scousers (habitantes da região de Merseyside), frequentemente se identificam cultural e politicamente em oposição ao establishment inglês. 

Figura 3 – Torcida do Liverpool e o tensionamento político

Fonte: Goal

Conclui-se, portanto, que a nova geografia do futebol contemporâneo desafia as noções tradicionais de lealdade esportiva. A identificação com clubes estrangeiros, seja por puro entretenimento ou por profunda afinidade ideológica, revela um torcedor mais consciente de suas escolhas e menos refém da obrigatoriedade do território. O futebol, em sua essência, permanece uma força social poderosa, e a diversificação dos nossos amores clubísticos apenas atesta a vitalidade desse esporte como linguagem universal, capaz de conectar pessoas e causas muito além das fronteiras onde o jogo originalmente nasceu.

Referências

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Tradução de Daniela Kern e Guilherme J. F. Teixeira. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007. 

CNN BRASIL. CNN Esportes: Um em cada três brasileiros torce para times europeus. YouTube, 2023. 1 vídeo (2 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SKCkiI1tLmQ. Acesso em: 05 jun. 2026.

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