Hugo Araújo1
Em meio a mais uma decepcionante eliminação diante de uma seleção europeia que sequer figurava entre as favoritas ao título mundial – depois de Bélgica e Croácia em 2018 e 2022, agora foi a vez da Noruega -, as redes sociais brasileiras foram inundadas por análises que atribuem os sucessivos fracassos da seleção brasileira em Copas do Mundo à crescente adesão dos jogadores ao neopentecostalismo e à teologia da prosperidade. De acordo com essa visão, o “futebol-arte”, o jogo alegre e intuitivo baseado na autonomia criativa do jogador brasileiro, estaria dando lugar à disciplina ascética da repetição, forjando uma geração de atletas cada vez mais previsíveis e desconectados de uma suposta “essência” disruptiva inerente ao estilo de jogo brasileiro.
Longe de menosprezar os impactos da religiosidade sobre a forma como os jogadores lidam com as exigências do ambiente extremamente competitivo do esporte de alto rendimento, a tentação weberiana não parece oferecer o melhor caminho para compreender o inegável declínio do nível técnico da seleção nos últimos anos. Esse declínio não é uma narrativa meramente subjetiva, a velha maneira autodepreciativa com que a crônica esportiva e a sociedade brasileira como um todo costumam lidar com a frustração da derrota. Ele é um fato objetivo: a escassez de grandes jogadores para setores como o meio-campo e as laterais é uma realidade que se constata pela própria aposta de Carlo Ancelotti em veteranos como Casemiro e Danilo, atletas que já estiveram entre os melhores do mundo em suas posições, mas que hoje se mostram muito aquém do nível desejado para uma Copa do Mundo.
Antes de buscar as razões do fracasso nas motivações subjetivas dos jogadores, é preciso olhar para o campo futebolístico brasileiro em seu conjunto – e, mais especialmente, para o modo como as práticas discursivas que o animam moldaram as políticas de formação em vigor nas categorias de base dos grandes clubes. É aí, e não na espiritualidade dos atletas, que se encontram os fatores determinantes do fracasso.
Um diagnóstico recorrente aponta na direção certa, ainda que pare no meio do caminho. Em declaração recente, o jornalista Marcelo Bechler, da TNT Sports, resumiu uma percepção que se tornou quase consensual: o futebol brasileiro “não tem uma identidade de como formar jogadores”, não tem uma escola, porque sempre foi “muito intuitivo”. Enquanto isso, as demais seleções “aprenderam a jogar coletivamente” e evoluíram, ao passo que o Brasil “não consegue mais formar como antes”. O sintoma mais visível seria a ausência de meio-campistas: de todos os convocados da seleção brasileira para a Copa de 2026, argumenta Bechler, não há um só jogador comparável a um Pedri ou a um Vitinha, porque “o Brasil não produz mais esse tipo de meia, não sabe produzir”.
O diagnóstico tem o mérito de deslocar a discussão das motivações subjetivas de quem entra em campo para o ecossistema formativo que os produz. Mas há aí um curto-circuito. O problema do futebol brasileiro não é a ausência de uma política de formação; é a presença de uma política muito específica, orientada pelos ditames do mercado global. Não se trata de um vazio a ser preenchido, mas de uma linha de trabalho que existe e funciona – só que a serviço de outrem. Nossas categorias de base produzem com notável eficiência exatamente aquilo que o mercado europeu compra mais caro: pontas velozes, dribladores de beira de linha, atacantes de característica muito definida. Paramos de formar meias e laterais de repertório amplo não porque sejamos muito intuitivos e pouco científicos – seria até mesmo insensato acreditar que a estrutura científica das categorias de base dos clubes formadores tenha regredido a tal ponto – mas porque a própria metodologia científica hoje em vigor parece restringir progressivamente o repertório do jogador brasileiro a uma função rentável, ajustada à demanda de empresários e clubes europeus. A pergunta decisiva, portanto, não é “por que não temos uma escola?”, mas sim “como é decidido o que a nossa escola forma?”.
Para responder a isso, é preciso recuar algumas décadas. A subordinação da formação brasileira à lógica do mercado não é um acidente recente, mas o desdobramento de um projeto que se tornou hegemônico no campo futebolístico nacional a partir dos anos 1990. Foi então que se consolidou aquilo que se pode chamar de discurso gerencial-empresarial: um vocabulário que prometia modernizar, moralizar e profissionalizar o futebol brasileiro tomando por modelo a empresa privada e, invariavelmente, o estrangeiro como parâmetro de normalidade a ser alcançado.
Seu marco legislativo mais duradouro foi a Lei Pelé (1998) e, dentro dela, o fim do passe – o dispositivo que atava o atleta ao clube mesmo após o término do contrato. Em nome da liberdade do jogador e da racionalização da gestão, a reforma alinhou o Brasil a uma tendência mundial cujo emblema fora, três anos antes, a decisão do caso Bosman na Europa. O problema é que processos formalmente semelhantes produziram efeitos radicalmente assimétricos. Como observa Irlan Simões2, na Europa a liberalização operava no interior dos mercados centrais, reforçando a capacidade dos grandes clubes de concentrar os melhores jogadores do mundo; na América do Sul, ela consolidava a posição dos clubes locais como fornecedores de matéria-prima para esses mesmos mercados, acelerando a exportação de atletas cada vez mais jovens. O que numa ponta da cadeia se traduzia em concentração de talento e capital, na outra se traduzia em esvaziamento contínuo e dependência estrutural.
O discurso modernizador, contudo, insistia em ler essa posição periférica como um problema de “má administração” a ser corrigido. Bastaria gerir os clubes “como uma fábrica, ou um comércio qualquer” – nas palavras do próprio Pelé, então ministro extraordinário dos esportes – para que o Brasil recuperasse a hegemonia perdida. Aí residia seu ponto cego: ao enquadrar todo problema como questão de gestão, o discurso se tornava incapaz de enxergar a condição periférica do futebol brasileiro como um dado estrutural da economia global, e não como mera incompetência doméstica a ser superada pela boa administração. A promessa de “alcançar a Europa” copiando a Europa padecia de uma dificuldade de princípio: tomava por causa interna aquilo que era, em larga medida, posição na divisão internacional do trabalho no mercado global do futebol.
Diante desse quadro, sugiro que a razão do declínio técnico da seleção brasileira remete à hegemonia, no futebol brasileiro, de um tipo de racionalidade que podemos chamar de neoliberal. Trata-se de uma gramática que reduz o futebol à sua dimensão de negócio, que naturaliza a exportação como destino e que converte cada dilema esportivo em problema de eficiência e competitividade financeira. Mais do que um fator pontual a explicar o declínio da seleção em certa medida, essa razão é o que o produz – pois foi ela que reorganizou a formação de base em torno daquilo que o mercado quer comprar, e não daquilo que um projeto de jogo brasileiro poderia querer construir.
Reconhecido o diagnóstico, resta o mais difícil: o que fazer com ele? Duas respostas se apresentam de imediato, ambas tentadoras e ambas equivocadas. A primeira é a romântica: lamentar a perda de uma “essência”, de um “futebol-arte” intuitivo e criativo, e tratar a globalização como contaminação estrangeira a ser rejeitada em bloco. É a chave que anima boa parte dos perfis de rede que hoje opõem um “jogo relacional” sul-americano – intuitivo, socioafetivo, avesso a métricas de ocupação de espaço – a um “jogo posicional” europeu, “científico” e uniformizador, elegendo o técnico Fernando Diniz como figura totêmica dessa resistência. A segunda resposta é a tecnicista, bem resumida por Bechler: não temos escola, somos intuitivos demais, e por isso precisaríamos importar a racionalidade coletiva que nos falta. As conclusões são opostas, mas partilham uma mesma premissa oculta: a de que intuição e método de formação seriam coisas contrárias – como se o intuitivo quisesse dizer não-formado.
É justamente essa premissa que convém recusar. A intuição do jogador brasileiro nunca foi espontaneidade pura: ela sempre foi formada. O que por décadas sustentou a imagem do Brasil como “celeiro de craques” foi precisamente a relação orgânica entre uma pedagogia popular difusa – a várzea, a pelada, o futsal, o jogo de rua em que a tão celebrada relação “socioafetiva” é construída por jogar mil vezes com os mesmos corpos – e a formação institucional dos clubes, que recolhia, lapidava e projetava aquilo que essa infraestrutura popular havia gestado. Chamar o resultado de “dom” ou “essência” foi o gesto que apagou toda essa relação orgânica do popular com a institucionalidade clubística. Assim, o declínio que se lamenta não é a perda de uma essência, mas a implosão dessa articulação que gerava aquele repertório tão celebrado do jogador brasileiro – articulação rompida pela nova racionalidade que, ao subordinar as políticas de formação aos ditames do mercado, vem gerando uma expectativa cada vez mais precoce pela profissionalização dos jovens jogadores.
O que se coloca, então, não é a tarefa nostálgica de reencontrar o que fomos, mas a tarefa política de decidir o que queremos formar — decisão que, hoje, está sendo orientada pelas demandas do mercado exportador, e não por um projeto nacional. E o cerne de um tal projeto seria justamente reconstruir aquela relação orgânica entre a pedagogia popular e a formação dos clubes: não restaurar a infraestrutura popular de outrora, o que seria pura nostalgia, mas resgatar a forma do vínculo, atento às novas condições materiais sob as quais essa pedagogia popular se constitui nos dias de hoje. É nesse sentido que a seleção argentina atual, tão celebrada por cronistas como Carlos Eduardo Mansur3 por “rejeitar os dogmas do futebol moderno”, pode ser mal compreendida. Seu interesse não está em resistir à globalização a partir de um suposto exterior puro e incontaminado, mas em demonstrar que, dentro dela, ainda há espaço para autoria – para um jeito de jogar que não se reduza ao cardápio hegemônico. Preservar a autonomia de pensamento de um projeto nacional de futebol não significa, portanto, rejeitar a globalização em nome de uma essência perdida; significa disputar os seus sentidos a partir de uma cultura de futebol própria que nos permita pensar estrategicamente a partir de nossas próprias necessidades, e não apenas reagir, sempre em atraso, às demandas de um mercado que se apresenta como destino inescapável. Ao fim e ao cabo, trata-se do embate entre duas razões: de um lado, a razão instrumental do mercado, que só sabe calcular meios, medir eficiência e converter o jogo em produto rentável; de outro, a razão estratégica de um projeto nacional, capaz de definir os próprios fins a partir daquilo de que necessitamos. Recuperar a autonomia de pensamento do futebol brasileiro é, afinal, fazer a segunda triunfar sobre a primeira.
- Doutorando em Ciências Sociais pela UERJ.
↩︎ - SIMÕES, Irlan, A produção do clube: poder, negócio e comunidade no futebol, Rio de Janeiro: Mórula, 2023.
↩︎ - MANSUR, Carlos Eduardo. O encanto da Argentina é transmitir a rara sensação de que estamos vendo algo único. Blog do Mansur, 17 jun. 2026. Disponível em: https://ge.globo.com/blogs/blog-do-mansur/post/2026/06/17/o-encanto-da-argentina-e-permitir-a-rara-sensacao-de-que-estamos-vendo-algo-unico.ghtml. Acesso em: 28 jul. 2026
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