Este texto trata-se de um recorte de minha tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências do Exercício e do Esporte na UERJ em 2021, onde foi analisada a programação de uma semana de canal fechado de esportes de aventura (canal OFF), em que as categorias apresentadas a seguir emergiram em nossa análise à época, traçando um diálogo com Mauro Betti em seus estudos sobre mídia.
O período de análise foi a programação semanal do Canal Off de 00:00 (zero hora) do dia 23/05/20 (sábado) até as 23 horas e 59 min do dia 29/05/20 (sexta-feira). Período que passávamos pela pandemia do novo Coronavírus (covid-19), em que, conforme veremos nos resultados, influenciou na programação do Canal. Foram selecionados 300 programas televisivos, que passaram na programação durante os 7 dias. Totalizando 168 horas de programação, o acesso a programação semanal analisada se deu pelo sistema “on demand” (sob demanda), pois os conteúdos do canal podem ser acessados sob a demanda dos assinantes do canal.
Ao compararmos as categorias que emergiram em nossa análise com as direções de discursos apresentados por Betti (1997), temos o surgimento de várias possibilidades dentro dos esportes de aventura no momento atual. Entretanto, apresentaram-se semelhanças e diferenças, pois mesmo passado o tempo e em canais televisivos diferentes, a mídia mantém seu foco de fidelizar os telespectadores.
Embora em momentos distintos desde o surgimento da TV por assinatura e a segmentação de canais, alguns objetivos estratégicos não mudaram. O telespectador entra em um canal buscando informação específica, e cada vez mais essa especificidade se faz presente. Os documentários, séries, filmes que analisamos no Canal Off deixam claro que muito mais que espetacularizar o esporte, existe um diálogo direto com o telespectador.
Não queremos impor uma sistematização ou organização de linguagens e discursos que a mídia utiliza, e sim dialogar com as variedades de perspectivas, os critérios sempre são discutíveis para além da categorização, pois como adverte Hernandes (2017, p.13): “na análise específica não há fórmulas prontas… é mostrado um caminho contrário, um caminho concreto de estudo – que tem a investigação do fenômeno da atenção como ponto central e irradiador das investigações – e seus resultados”.
Esquema comparativo do contexto dos esportes de aventura no Canal Off e os estudos realizados por Betti (1997, 1999). (Figura 14):
Fonte: O autor, 2021.
Embora não tenha aparecido nesta análise, pois se trata de uma semana específica, a preocupação com a inclusão das pessoas com deficiência nos esportes de aventura também pode figurar como uma das categorias de discurso do Canal Off.
A extensão de programas, filmes e séries muitas vezes é documentar uma aventura, se configurando em uma nova dinâmica social. O corpo que está presente nas ações mexe com o imaginário, com os sentidos e significados, qualificando-o ao desejar sair da tele-virtualização. Nesse sentido, programado para criação de uma realidade, instaurando-se uma dinâmica de acesso aos esportes de aventura, em que, os mesmos deixam de ser tão perigosos, de terem tantos riscos, passam a fazer parte das aulas de educação física escolar.
De uma forma ampla, como observado em discursos de protagonistas da programação e nos estudos de alguns autores aqui citados, a mídia pode ter influído diretamente na chegada das Práticas Corporais de Aventura na BNCC, pois os esportes de aventura tiveram sua propagação, não somente pelas mídias televisivas, mas também pelas redes sociais. Nesse aspecto os praticantes de esportes de aventura veem o contato com a natureza de forma difusa, buscando o contato sim, mas não somente para lazer, saúde, conhecimento, diversão, buscam preencher suas redes sociais.
As meninas também têm seu espaço, e esses desbloqueios de ações legitimam a entrada dos esportes de aventura no cotidiano corrido do ser humano. Que, por sua vez, tenta resolver seus problemas, organiza o seu tempo, supera-se a cada conquista, não é mais uma afronta, é uma necessidade de melhorar os seus limites de forma a reproduzi-lo em seu dia a dia.
Entendemos não ser uma simples questão de imagem e de mídia, são ações estratégicas que procuram o agir comunicativo como forma de inserção na gestão do tempo de maneira concreta. As categorias que mudaram desde o estudo de Betti (1997), buscam preencher o tempo de forma concreta, com uma programação específica, seguindo na direção de diálogos com a sociedade, em que, estrategicamente, foi evoluindo com a tecnologia e o conhecimento. O desenvolvimento de plataformas de entretenimento são simplesmente a evolução da mídia em busca do telespectador, de atraí-lo como cliente, como consumidor, como ser dependente da informação que só ela pode passar.
Respondendo aos nossos questionamentos iniciais é possível afirmar após a análise e discussão dos dados extraídos de uma programação semanal do Canal Off, que surgiram sim novas categorias de discursos midiáticos, se ampliando na direção dos esportes de aventura. Entretanto, como apontado durante este capítulo as características de uma programação específica de esportes de aventura seguiram um caminho de segmentação, ora pautados em alcançar maior profundidade em determinados temas (como: inclusão feminina ou questões socioambientais), ora pautados nas especificidades de cada modalidade abordada (como: séries específicas de skate, surfe, viagens).
Como características específicas da programação de um canal de esportes de aventura podemos citar sua ligação direta com risco, com o imaginário, pautados na superação, no vencer um desafio, no conhecer novas realidades, na emoção. O próprio slogan do canal analisado propõe aos telespectadores sonhar, explorar e descobrir através dos esportes de aventura e de viagens.
Com chamadas para se quebrar a rotina, aventurar-se pelo desconhecido, saltar de parapente, surfar ondas paradisíacas, conhecer os locais mais inóspitos do planeta, apreciar a natureza, maravilhar-se com paisagens deslumbrantes, ouvir trilhas sonoras incríveis associadas a experiências de tirar o fôlego, se resume muito bem as características da programação do canal. Tudo aparece como grande curtição, a natureza como plano de fundo abrilhanta o cenário, que contrasta com equipamentos e materiais sofisticados na execução das ações de aventura.
Os percursos que os esportes de aventura percorreram desde os estudos de Betti (1997, 1999) até os dias atuais seguiram caminhos que envolveram a evolução tecnológica, sem dúvidas vivemos um momento em que a tecnologia amplia o universo de conhecimento da humanidade. Foram criados dispositivos que auxiliam na preparação e realização dos esportes de aventura, como um exemplo, citamos o aparelho celular, através dele se navega por aplicativos para aquisição de conhecimentos de trilhas e percursos, registra-se com fotos e vídeos, mas, por outro lado, pode se estimular o consumo destes atrativos através do imaginário, podendo a natureza passar “despercebida”, sendo ameaçada pelas ações de impacto causa por visitantes e praticantes de esportes de aventura.
Assim, alertamos para uma procura dos praticantes de esportes de aventura que podem ter recebido influência direta das mídias, e iremos verificar no próximo capítulo. A realização da prática dos esportes de aventura deve ser realizada de forma consciente, não agredindo o meio ambiente, em uma relação de respeito. Quanto às práticas em ambiente urbano percebemos através das análises uma maior aceitação, como por exemplo o skate, fruto influências midiáticas ou não.
De acordo com as categorias que elencamos os praticantes são estimulados através da mídia à: Preservação e contato com a natureza, conhecer a história dos esportes de aventura, entender sua evolução, incluir as mulheres, compreender os contextos sociais globais, praticar para manutenção da qualidade de vida e saúde, vencer desafio, superar-se, reconectar-se, transformarem-se em atletas, praticar por diversão e treinamento, consumir, fotografar e filmar, construírem espaços para praticar, admirar o passado dos esportes de aventura, sentirem a adrenalina através dos riscos nos esportes de aventura, tudo isso musicalmente.
Entendemos a questão dos esportes de aventura para além dos discursos enaltecidos pela mídia, e as distintas formas de sua apropriação do tempo livre. Eles apresentam-se como expressão para além do consumo, de forma a desenvolver outros valores para além da competição dos esportes tradicionais.
Referências:
BETTI, M. A janela de vidro: esporte, televisão e educação física. 1997. 290 f. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, 1997.
BETTI, M. Educação física e sociologia: novas e velhas questões no contexto brasileiro. In: CARVALHO, Y. M. & RUBIO, K. (orgs.). Educação física e ciências humanas. São Paulo: Hucitec, 2001. p.155-169.
BETTI, M. Esporte, televisão e espetáculo: o caso da TV a cabo. Conexões, Campinas, v. 1, n. 3, p. 74-91, 1999.
HERNANDES, N. A mídia e seus truques: o que jornal, revista, tv, rádio, e internet fazem para captar e manter a atenção do público. São Paulo: Contexto, 2017.
PORRETTI, Marcelo Faria. A influência midiática nos esportes de aventura: os sentidos presentes no Canal Off e a concepção de praticantes em meio à Pandemia da COVID-19. 2021. 232 f. Tese (Doutorado em Ciências do Exercício e do Esporte) – Instituto de Educação Física e Desportos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021.
Mais sobre a temática pode ser acessada na Biblioteca da Uerj ou através do link: https://www.bdtd.uerj.br:8443/bitstream/1/16887/2/Tese%20-%20Marcelo%20Faria%20Porretti%20-%202021%20-%20Completa.pdf

