Campeonato Brasileiro Feminino. Desafios para o futebol de mulheres 

Por Clara Quintaneira e Geovana Costa

Futebol de mulheres no Brasil no contexto das competições e megaeventos esportivos

Impulsionado por grandes eventos e competições, como Copa do Mundo e Olimpíadas, o futebol feminino tem ganhado visibilidade e destaque na sociedade. A primeira edição da Copa do Mundo Feminina, sob organização da Fifa, ocorreu em 1991 e chegará a sua décima edição em 2027. A sede dessa competição será o Brasil que nos últimos anos foi palco de outros megaeventos como a Copa do Mundo Masculina 2014 e os Jogos Olímpicos 2016. Entretanto, ainda existem desafios a serem enfrentados quando o assunto é futebol de mulheres. Nesse contexto, por exemplo, o evento de lançamento da marca da Copa do Mundo de Mulheres de 2027, realizado em 25 de janeiro de 2026, evidenciou as estruturas de poder que historicamente marginalizam as mulheres no campo esportivo, ao dar destaque a jogadores brasileiros e não às mulheres, sobretudo, as pioneiras da modalidade. Além disso, o Tribunal de Contas da União (TCU) identificou problemas na preparação da Copa do Mundo Feminina de 2027, como baixo investimento federal no futebol feminino, ausência de um plano nacional de legado, atraso na governança e falhas de articulação entre União, estados e municípios. A Corte de Contas exigiu o acompanhamento da organização do evento e estipulou um prazo de 6 meses para o governo entregar um plano para a Copa Feminina. Casos como esses apontam para a continuidade de problemas antigos no futebol de mulheres no Brasil. Considerando que a Copa de 2027 vai ser uma vitrine para o futebol feminino brasileiro, é importante lançarmos alguns questionamentos a respeito  das condições de atuação em campo que estão sendo oferecidas às profissionais de futebol atualmente. O Relatório Campeonato Brasileiro Feminino de Futebol A1 2025, lançado pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte e pelo Observatório Social do Futebol, mostrou aspectos problemáticos relativos à organização do mais importante campeonato de futebol feminino do país e que dizem respeito à valorização e apoio à modalidade.

Casos reais de descaso

O clássico entre Botafogo e Flamengo, válido pelo Campeonato Brasileiro 2026 e ocorrido em 13 de março, foi marcado por um atraso de quase 30 minutos. O motivo foi que a arbitragem ficou presa em um  engarrafamento no caminho para o estádio Nilton Santos, localizado no bairro de Engenho de Dentro, zona norte do Rio de Janeiro, as equipes em questão foram avisadas faltando somente 5 minutos antes para  a bola rolar. A capitã do Flamengo, Djeni, questionou o delegado da partida com a seguinte frase: “Mas isso é passado para gente agora, na entrada do jogo?” 

A final do Campeonato Brasileiro Feminino 2025 entre Cruzeiro e Corinthians foi alvo de críticas. A arbitragem do jogo comunicou aos times que o VAR não poderia ser utilizado caso houvesse necessidade, pois o sistema de vídeo havia apresentado problema. Não são casos isolados, outros problemas e erros de arbitragem foram apontados pelos veículos de notícias, além de frequentes casos de machismo e de assédio.

Outro aspecto importante a ser considerado é o desmanche de times femininos. O Real Brasília, único time representante do Distrito Federal, anunciou que não participará da Série A1 de 2026 por falta de verba. Na Série A2, o anúncio de saída foi feito pelo Avaí Kindermann, que revelou dificuldades financeiras enfrentadas pelo clube. Na Série A3, não foi diferente: o Valadares (Minas Gerais – MG) e o Operário (Mato Grosso do Sul – MS) desistiram de participar da competição. A fim de fortalecer o futebol feminino e promover a igualdade de gênero no esporte, todos os clubes que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro Masculino são obrigados pela CBF a manter uma equipe feminina profissional e categorias de base. Essa é uma regra válida também para as competições masculinas da Conmebol, como Libertadores e Sul-Americana. No entanto, em decorrência do rebaixamento de alguns times para a Série B, como o Fortaleza em 2025 e o Athlético Paranaense em 2024, os times femininos tiveram suas atividades encerradas no ano posterior ao rebaixamento. No caso das Gurias Furacão, em 2024, elas tinham conseguido o acesso para a Série A1, além de terem sido campeãs da Copa Maria Bonita na sua primeira edição e, após o rebaixamento do time masculino em 2024, o time feminino foi desmontado em 2025. No ano seguinte, o time masculino do Athlético Paranaense voltou para a Série A do Brasileirão e, com isso, as atividades do futebol feminino foram retornadas, reativando o time em parceria com o Imperial Futebol Clube (parceiro do Coritiba de 2022 a 2025). Nesses casos, a retomada das atividades do futebol de mulheres se deve à necessidade do cumprimento da regra que estipula que todo clube que disputa a série A do Brasileiro Masculino, obrigatoriamente precisa ter um time feminino. Essa regra mostrou-se importante, por outro lado evidencia que muitos clubes, como no caso do Atlhético, se limitam a evitar punições e multas ao invés de se pautarem por uma valorização e um compromisso com o futebol de mulheres. 

A estrutura dos clubes e o planejamento das competições oficiais é um ponto relevante a ser discutido, uma vez que é imprescindível condições mínimas para se praticar o futebol profissional. Em anos recentes, algumas  jogadoras relataram  a falta de estrutura para o trabalho, como o uso de campo do futebol amador para treinamentos e a limitação para uso de materiais esportivos, como uniformes de treino e jogo. A  jornalista Renata Mendonça, denunciou as condições precárias que o Flamengo destinava ao time feminino, como, por exemplo, instalações sem manutenção adequada, improvisos e espaços que destoam completamente da estrutura oferecida ao elenco masculino do clube.

No contexto das competições, não é diferente. A Copa América Feminina 2025 e a Libertadores Feminina foram alvos de críticas por parte das jogadoras, que expuseram estrutura precária e problemas graves nos campeonatos. “Cobram desempenho das jogadoras, mas também temos o direito de cobrar um alto nível de organização”, declaração da Marta sobre a falta de estrutura encontrada na Copa América.

A falta de planejamento, de constância e de organização das competições femininas é um grande problema na trajetória da modalidade. A Copa do Brasil Feminina, por exemplo, ficou em pausa entre 2002 e 2005 e foi suspensa novamente em 2016, sem explicações claras. Após nove anos fora do calendário, a Copa retornou apenas em 2025, evidenciando a falta de continuidade nessa competição e na organização do futebol feminino.

Estrutura do centro de treinamento do time feminino do Flamengo. Reprodução/Dibradoras.

Se, em nível nacional, as principais competições possuem problemas estruturais, em nível estadual, os desequilíbrios são ainda mais evidentes. Placares com diferenças exorbitantes, como Flamengo 56 x 0 Greminho, Flamengo 34 x 0 Rio-São Paulo, Vitória das Tabocas 34 x 0 Polícia Militar e Mixto-PB 30 x 0 Diamante, refletem não apenas diferenças técnicas, mas, sobretudo, desigualdades estruturais profundas.

Um fato bem considerável a ser mencionado é o grande atraso por parte da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na definição do calendário do futebol feminino de 2025. O Campeonato Brasileiro Feminino A1 teve seu início, em fevereiro de 2025 e, em janeiro de 2025 (um mês antes) – na volta das férias da entidade – o calendário do futebol feminino de 2025 ainda não havia sido definido.

Relatório Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025

Diante desse cenário do futebol feminino no Brasil (sede da próxima Copa do Mundo Feminina), o Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte e o Observatório Social do Futebol lançaram o Relatório Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025.

O Relatório Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025 apresenta e organiza informações referentes à realização dos jogos do Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025, com base em dados sobre público presente, estádios utilizados, transmissões das partidas e divulgação de conteúdos nas redes sociais oficiais dos clubes. O objetivo do Relatório é contribuir com dados que possam subsidiar possíveis mudanças voltadas à consolidação de um compromisso social e esportivo com o futebol de mulheres no Brasil.

O Relatório, demonstrou que na primeira fase do campeonato 34 estádios foram usados e desses somente sete clubes, pelo menos uma vez, recorreram a seu estádio principal enquanto mandante  Oito clubes não utilizaram nem uma vez seus estádios principais, recorrendo a  estádios  alternativos. Esse dado é relevante, pois a não utilização dos estádios principais dos clubes, implica a realização dos jogos em locais que, muitas vezes, a torcida não possui familiaridade e hábito de frequentar. Esse aspecto pode gerar  impacto na presença de público nas partidas. Esse aspecto se evidencia na tabela abaixo que mostra que  em 2025, houve um crescimento médio de público em partidas utilizadas nos estádios principais dos clubes.

Imagem da Tabela 7 – Lista de clubes que tiveram média de público aumentada com a utilização do estádio principal. Disponível em: https://observatoriosocialfutebol.org/relatorio-brasileiro-feminino-a1-2025/

Mesmo os clubes que investem no futebol de mulheres ainda sofrem com problemas. O Corinthians, por exemplo, entre os clubes do Campeonato Brasileiro de 2025, teve a torcida mais engajada, com média de público, como mandante, de 6.812 pessoas. No entanto, enfrentou – e ainda vem enfrentando – dificuldades no estádio Alfredo Schürig, o Parque São Jorge, principal local de atuação do time, que, desde maio de 2025, está proibido de receber jogos à noite por problemas na iluminação.

Em 2026, as incertezas a respeito do local de realização da partida foram alvo de crítica da zagueira Erika do Corinthians: 

Com toda sinceridade, isso é muito chato para a gente. A gente fica na indecisão a cada treino, a cada jogo. E, infelizmente, sabemos que o feminino não é prioridade no clube… Então, quando vocês me falaram que iríamos jogar na Neo Química, eu pensei: ‘Nossa, que legal, que show!’. Mas eu não sabia disso. Ainda, infelizmente, não somos prioridade, e as informações não chegam como a gente gostaria.

Os dados do Relatório sobre o campeonato brasileiro de 2025, por exemplo, revelam dados sobre distância consideravelmente altas do estádio principal para os alternativos. Esse aspecto pode dificultar o deslocamento da torcida para assistirem aos jogos, o que pode ser corroborado pela pesquisa “Consumo do futebol feminino” da Máquina do Esporte e a Dibradoras que revelou que 61% dos entrevistados declararam que a localização das partidas é um empecilho. 

Ainda em relação aos estádios, cabe mencionar que, em 2026, os problemas persistem, alguns colocando em risco o físico das atletas. No dia 1 de maio, na partida entre Grêmio e Corinthians, a goleira Lucilene do Grêmio terminou lesionada devido a uma bolha no gramado do estádio Francisco Noveletto, provocada por uma forte chuva.. Os gritos após a queda foram tão altos que causaram preocupação até na equipe de transmissão do canal SporTV. Quase uma semana antes, no dia 26 de abril, o confronto entre Mixto e Fluminense realizado no estádio Eurico Gaspar Dutra, teve uma paralisação de cinco minutos também por conta de uma bolha de ar que se formou no gramado em decorrência de um acúmulo de água sob o piso.

Voltando para os dados de 2025, outro ponto interessante do Relatório são as alterações que as partidas sofreram. Dos 120 jogos da primeira fase, 62 partidas sofreram alterações relativas à data, hora, local e, algumas vezes, esses três elementos combinados.No Relatório, encontramos que dessas 62 alterações 32 foram de horários, depois temos 45 alterações de locais e 14 de datas. As solicitações dessas mudanças se deram 25 vezes pelas emissoras responsáveis pela transmissão, no campeonato de 2025. No final do ano de 2025, o Bola Vip publicou uma matéria que alertava sobre os riscos que as jogadoras vem passando por jogarem em horários de calor extremo e o depoimento da meia campista, Gabi Zanottti chama a atenção: “Sempre lutamos por melhores horários, mas a resposta é que depende da grade de transmissão da TV”. Além dessas alterações serem avisadas – muitas vezes – horas antes das partidas e prejudicarem a divulgação dos jogos e o acesso de público, também afeta a saúde das atletas.

A história do futebol feminino é marcada por desafios, refletidos em problemas estruturais e organizacionais da modalidade. Por isso, é importante que haja trabalhos e pesquisas que investiguem de forma aprofundada a temática do futebol de mulheres e seus desdobramentos. Nesse processo de retomada, implica entender o futebol como um veículo de lazer e trabalho, daí a importância de considerarmos os modos de se melhorar as condições de organização e realização do Campeonato Brasileiro Feminino de Futebol, especialmente para o Brasil ser um palco digno da Copa do Mundo Feminina em 2027.

Referências:

Arbitragem fica presa no trânsito e atrasa Botafogo x Flamengo pelo Brasileirão feminino | GE – ok

Athlético Paranaense encerrará as atividades do futebol feminino em 2025 | Dibradoras

Brasileiro Feminino A1 2025: Relatório do Observatório Social do Futebol nº3 | Observatório Social do Futebol

CBF anuncia mudanças na Copa do Brasil Feminina 2026 | Antenados no Fuetbol

CBF anuncia retorno da Copa do Brasil e mudanças no Brasileiro feminino para 2025 | Surto Olimpíco 

Copa do Brasil: futebol feminino terá retorno da competição em 2025; veja todos os campeões | GE

Copa Feminina de 2027 tem verba baixa, atraso e legado indefinido, aponta TCU; BH é referência | O Fator

Desafios contemporâneos e históricos do futebol de mulheres: da precariedade estrutural à insegurança no trabalho | LEME UERJ

Flamengo: jornalista expõe estrutura precária de time feminino | CNN Brasil

Operário-MS dispensa jogadoras após eliminação para o Flamengo | GE

Por que a CBF não realiza mais a Copa do Brasil Feminina? | Portal do Gremista

Relatório Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025 | INCT Futebol

Lançamento Relatório Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025 | LEME UERJ

Destaques do Relatório Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025 | LEME UERJ

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