Copa do Mundo de 1950: mundial de afirmação de identidades para Brasil e Espanha

A primeira competição após o final da Segunda Guerra Mundial, a Copa do Mundo de 1950 naturalmente teria todos os olhares do esporte voltados para si. O Brasil começou a pleitear sediar o torneio ainda em 1946, quando o então presidente da Confederação Brasileira de Desportos, Ridávia Corrêa Mayer, visitou Luxemburgo para uma reunião da FIFA.  

A justificativa, além da paixão dos brasileiros pelo esporte, era a já existência de estádios capazes de receber os jogos. Na época, o Brasil tinha o maior estádio da América  Latina: o Pacaembu, em São Paulo, inaugurado em 1940, com capacidade para 70 mil pessoas. O país foi escolhido com unanimidade para receber a Copa, marcada para 1949, de volta para a América Latina após duas edições seguidas na Europa. Um ano antes, a FIFA decidiu adiar a competição por mais 12 meses, para permitir que as seleções europeias se reestruturassem melhor.  

No total, treze seleções participaram da Copa: Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai, Espanha, Inglaterra, Itália, Suécia, Suíça, Iugoslávia, México e Estados Unidos. França, Índia e Escócia inicialmente estavam no torneio, mas optaram por não participar, reduzindo o número de dezesseis seleções para treze. Os times foram divididos em quatro grupos com três equipes, e os jogos foram disputados em seis estádios espalhados pelo país. 

A final ficou marcada para o novíssimo Maracanã, inaugurado apenas semanas antes do início do mundial. Sendo a primeira grande competição mundial depois do fim da guerra, a Copa do Mundo de 1950 marcou uma nova fase na política esportiva internacional. Nesse caso, destacaremos o Brasil, em busca de se consolidar com a imagem de país do futebol; e a Espanha, vivendo a ditadura franquista que pretendia recriar a mística da seleção nacional.  

A Fúria: futebol espanhol em tempos de Franco 

A Espanha ficou isolada dos esforços da Segunda Guerra Mundial na Europa por estar lidando com suas próprias tensões internas e reconstrução. A Guerra Civil Espanhola dividiu e castigou o país entre 1936 e 1939. Embora o conflito refletisse as questões que estavam sendo discutidas politicamente na Europa, como o fascismo, o timing resultou com que o país estivesse enfrentando uma crise interna e reconstrução quando eclodiu a guerra em 1939.  

Dessa forma, a Espanha emerge no pós-guerra como um país em estado de isolamento, tanto pelos problemas internos quanto pela associação de Franco com o fascismo. Ainda que o futebol espanhol não tivesse grande impacto internacional, o governo compreendia no esporte um importante mecanismo de busca por legitimação e construção de identidade nacional. Imediatamente após chegar ao poder, Franco instituiu formas de controlar a federação de futebol espanhola, e mudou o nome da antiga Copa del Rey (1903-1930) e Copa de la República (1931-1936) por Copa del Generalíssimo (1940-1976).  

Mesmo que os esforços do governo espanhol tenham sido em estabelecer relações locais com futebol, a seleção não foi ignorada. Ainda que não fosse considerada uma potência europeia no futebol, a seleção espanhola tinha certa reputação, incluindo o apelido de “Fúria”, desde as Olimpíadas da Antuérpia em 1922. Em 1948, os documentários oficiais do governo acompanharam a participação na Copa Latina, competição entre França, Itália, Espanha e Portugal, que foi extinta em 1957. Embora o ditador se interessasse pouco pelo esporte, a popularidade do futebol na sociedade espanhola era inegável.  

A equipe foi uma das treze que participaram da Copa do Mundo de 1950, a primeira edição do torneio após o fim da Segunda Guerra Mundial. A Espanha integrou o Grupo 2, com Inglaterra, Chile e Estados Unidos. Na primeira fase, se classificou com três vitórias e 100% de aproveitamento, chegando empolgada no quadrangular final contra Brasil, Uruguai e Suécia.  

Enquanto o time estava no Brasil, fazendo o que era a melhor campanha do país na  história da competição, na Espanha a cobertura da performance da seleção era comandada pelos órgãos estatais. Nos jornais, manchetes como “El Caldillo felicita los jugadores”, mesmo que Franco não fosse conhecido por ser um fã de futebol. A grande partida dos espanhóis foi ainda na primeira fase, contra a Inglaterra, que foi vencida pela Fúria por 1×0, com gol de Zarra. O impacto do triunfo contra os ingleses foi tanto que foi encomendado um filme sobre a partida, com direito a regravação da narração do gol. A película, intitulada “España en Brasil. IV Campeonato mundial de futbol”, incluía imagens desde a chegada dos jogadores ao Brasil, até a cerimônia de entrega da taça ao final da Copa.

Manchete em jornal espanhol sobre a campanha da seleção espanhola na Copa do Mundo de 1950

A boa campanha espanhola teve fim no quadrangular, com derrotas para Uruguai, Suécia e Brasil. Ainda assim, até 2010, quando conquistaram o título, o quarto lugar obtido em 1950 seguia sendo a melhor campanha da Espanha na história dos mundiais de seleções. A performance no Brasil possibilitou que a seleção espanhola se inserisse entre as principais potências da modalidade, ainda que tenha demorado 60 anos para conquistar a taça da Copa do  Mundo. Em um momento em que o franquismo vivia seu auge, e buscava reafirmar a identidade nacional, o futebol aparece como um dos principais locais de afirmação identitária e busca por legitimidade e interação internacional.  

País do futebol e a mãe de todas as derrotas 

Sediar uma Copa do Mundo, ainda mais a primeira após o hiato forçado causado pela  guerra, era uma grande honra para o Brasil. A valorização da competição apareceu em obras grandiosas, com a construção de dois estádios: o Independência, em Belo Horizonte; e, principalmente, o Maracanã, no Rio de Janeiro. 

A origem do Maracanã marca um ponto de virada no futebol brasileiro. Além da polêmica sobre o local onde seria construído, na região próxima da Tijuca ou na distante Jacarepaguá, as obras andaram lentamente. Mesmo com a FIFA adiando a competição por mais um ano, a inauguração do estádio aconteceu apenas uma semana antes do início da Copa do Mundo, em 16 de junho de 1950. Na época, o Maracanã, com 100 mil espectadores, despontava como o maior estádio do mundo, um recado claro de como o Brasil gostaria de se posicionar em relação ao futebol.  

A seleção brasileira estreou em 24 de junho, no Maracanã, em vitória contra o México. Na primeira fase, ainda venceu a Iugoslávia e empatou com a Suíça, e mesmo assim se classificou em primeiro do Grupo 1 para o quadrangular decisivo. Foi durante a fase final que a seleção definitivamente deslanchou: com goleadas de 7×1 sobre a Suécia e 6×1 contra a Espanha. 

O jogo contra a Espanha, disputado no Maracanã, contou com mais de 152 mil  pessoas, e ficou conhecido pela torcida brasileira entoando a marchinha “Touradas em Madri”, de Braguinha e Alberto Ribeiro, na arquibancada: “Eu fui às touradas em Madri/E quase não volto mais aqui/Pra ver Peri beijar Ceci./Eu conheci uma espanhola/Natural da Catalunha;/Queria que eu tocasse castanhola/E pegasse touro à unha./Caramba! Caracoles! Sou do samba,/Não me amoles./Pro Brasil eu vou fugir!/Isto é conversa mole para boi dormir!” 

A boa performance do Brasil na Copa de 1950 deixou a torcida e a imprensa a acreditar que a vitória brasileira – e o desejado título mundial – estava chegando. O último jogo do quadrangular foi contra o Uruguai, adversário local e já campeão. Cerca de 170 mil pessoas estavam no Maracanã para acompanhar a partida. A seleção brasileira abriu o placar aos 47 minutos, com gol de Friaça, mas viu o sonho da Copa do Mundo ser adiado com a virada uruguaia, com gols de Schiaffino e Ghiggia. 

A derrota em 16 de julho de 1950 não foi apenas no campo. Perder para o Uruguai criou o mito da derrota brasileira no futebol, ou a mãe de todas as derrotas, como aponta Leda Costa. Não era apenas um time que perdia em campo, mas sim toda uma nação – e um projeto político de se consolidar como o “país do futebol”. O Maracanazzo ajudou também a criar o que Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-lata”, no qual o brasileiro colocava-se como inferior aos demais. Além disso, o eleito vilão da partida, o goleiro Barbosa, não apenas fortaleceu a dialética do complexo de vira-lata, mas criou um profundo preconceito racista contra goleiros negros no futebol brasileiro. 

A decepção brasileira em 1950 foi tão grande que a própria camisa mudou: saiu o branco, que tinha acompanhado o time desde 1919, e após um concurso, entrou a camisa amarela, que se consagraria no panteão do futebol mundial com o título da Copa do Mundo de 1958. O mundial que foi planejado para consagrar o Brasil se tornou um dos mais traumáticos da história do futebol brasileiro. 

Embora enfrentando momentos políticos e contextos diversos, Brasil e Espanha tem na Copa do Mundo de 1950 importantes marcos para a consolidação da identidade do futebol em ambos os países. Durante o decorrer do século XX, o futebol se tornaria ferramenta política fundamental no Brasil e na Espanha, passando por momentos marcantes como o tricampeonato brasileiro em 1970, em plena ditadura militar; e a Copa do Mundo de 1982, sediada na Espanha que vivia um tenso processo de transição política após a morte de Franco. 

Referências:

REAL FEDERACIÓN ESPAÑOLA DE FÚTBOL (RFEF). Una historia de la  selección (XI): el Mundial de 1950 en Brasil. rfef.es, 3 abr. 2024. Disponível em:  https://rfef.es/es/noticias/una-historia-de-la-seleccion-xi-el-mundial-de-1950-en-brasil. 

de Araujo Moura, Gisella. O Rio corre para o Maracanã. Editora FGV, 2010. 

Costa, Leda Maria da. “A trajetória da queda: as narrativas da derrota e os principais  vilões da seleção brasileira em Copas do Mundo.” (2008). 

Quiroga, Alejandro. “Spanish fury: Football and national identities under Franco.”  European History Quarterly 45.3 (2015): 506-529.  

de Lacerda Abrahão, Bruno Otávio, and Antonio Jorge Soares. “O que o brasileiro  não esquece nem a tiro é o chamado frango de Barbosa: questões sobre o racismo no futebol  brasileiro.” Movimento 15.2 (2009): 13-31.

Deixe uma resposta