Crédito da imagem: Chip Somodevilla /AFP
Em meu texto anterior neste blog, mostrei como o presidente Donald Trump já embolava – e iria ainda muito mais – o meio de campo para os grandes eventos esportivos que os Estados Unidos vão realizar em seu mandato, a Copa do Mundo de 2026 e os Jogos Olímpicos de 2028 [1].
Ao longo de 2025, seu primeiro ano de mandato, Trump já havia criado um clima no mínimo hostil a quem estiver nos Estados Unidos. Ir aos estádios para ver os jogos do mundial de futebol pode ser sinônimo de deportação automática, sobretudo de latinos. O presidente também afirmou que não permitirá a atletas transgêneros competirem nos Jogos de 2028.
Tudo isso não preocupou, em momento algum, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que, desde a posse de Trump, o bajula. Não é a primeira vez que a entidade que comanda o futebol se submete a governos autoritários que fazem propaganda da Copa do Mundo. Foi assim em 1978 na Argentina sob ditadura militar; foi em menor grau nas duas últimas edições, na Rússia em 2018 e no Qatar em 2022.
Em 2026, a irracionalidade de Trump extravasou as fronteiras dos Estados Unidos. Após invadir a Venezuela e violar sua soberania, o silêncio de Infantino tampouco surpreende. A Fifa reage menos aos motivos de intervenções militares e mais ao impacto direto que elas causam sobre o funcionamento dos eventos dela nos locais de competição..
No entanto, o que aconteceu no último fim de semana já tornou a Copa do Mundo em solo americano um evento de alto risco, capaz de sabotar o principal produto da Fifa.
Após os ataques de Trump contra o Irã e a morte do líder supremo do país e da corrente xiita do islã Ali Khamenei, o risco de atentados na Copa disparou, tornando o evento não apenas hostil, mas perigoso para torcedores, jogadores e profissionais envolvidos na organização.
Outro risco é dentro de campo, com a classificada seleção do Irã debatendo um legítimo boicote à Copa do Mundo em resposta à agressão militar dos Estados Unidos [2]. Caso opte por disputá-la, retirar os jogos do Irã na fase de grupos dos EUA e transferi-los para Canadá ou México seria seguro, mas desafiador.
Talvez não haja mais tempo para trocar a sede da Copa do Mundo de 2026, sacrificando Canadá e México, que pagariam o preço da fúria de Trump. Algo parecido só aconteceu na edição de 1986, quando o México substituiu a Colômbia, mas isso foi três anos antes do evento acontecer, não a três meses apenas.
Ficar sentada esperando ver o que acontece, como fez nos últimos dois anos em relação a Trump, não deve ser uma opção para a Fifa. Em vez de ser vassalo do presidente dos Estados Unidos, Infantino precisa mais do que nunca pensar no que ele comanda e tem poder sobre: a Copa do Mundo, a jóia da coroa do futebol.
Referências:
[1] Cartão Vermelho de Trump. Mattheus Reis em Blog do LEME. Disponível em: https://ludopedio.org.br/arquibancada/o-cartao-vermelho-de-trump/?srsltid=AfmBOoqpToDeXKMBUKoxN_Et8DNI2pnuyNHtc8OykDa6KT7ZhIJ1o_9P
[2] Após ataques dos EUA, Irã ameaça abandonar a Copa do Mundo. Disponível em: https://www.terra.com.br/esportes/futebol/apos-ataques-dos-eua-ira-ameaca-abandonar-a-copa-do-mundo,54b25ac1a553c6cd83d1ec11e9be5014v3l9brqh.html?utm_source=clipboard

