Em sua edição de 11 de fevereiro de 1938, o Jornal dos Sports estampou uma notícia incomum: o brasileiro Wergifker e o paraguaio Nicanor Caspar haviam-se apresentado como candidatos a uma vaga na seleção argentina para a Copa do Mundo que seria disputada na França naquele ano. Segundo o periódico, Wergifker pretendia naturalizar-se argentino para participar do torneio (Jornal dos Sports, 1938, p. 4).
A possibilidade aventada pelo periódico deve ser situada no quadro específico daquele Mundial. Realizada na França em meio ao agravamento das tensões internacionais que antecederam a Segunda Guerra, a Copa de 1938 foi marcada pela ausência da Argentina, que boicotou a competição após a decisão de mantê-la na Europa, frustrando expectativas de sediá-la no continente americano. Enquanto a seleção brasileira alcançou o terceiro lugar e obteve ampla repercussão interna, o torneio também foi atravessado por disputas políticas e pela presença de regimes autoritários, visíveis tanto na participação alemã após a anexação da Áustria quanto na apropriação propagandística da vitória italiana pelo fascismo (Júnior, 2017). Desde a contratação do argentino Julio Libonatti pelo Torino, em 1925, jogadores argentinos, uruguaios e brasileiros passaram a migrar para a Itália, movimento impulsionado, entre outros fatores, pela profissionalização ainda recente do futebol em seus países de origem e pela atratividade financeira das propostas italianas (Taylor; Lanfranchi, 2001).
Este texto tem por finalidade apresentar parte da trajetória de Aarón Wergifker como uma via de acesso aos circuitos de circulação e trabalho que conectavam os futebolistas brasileiro e argentino nas décadas de 1930 e 1940. Sustenta-se que sua experiência evidencia as tensões entre lugar de nascimento, origem familiar, cidadania, inserção profissional e pertencimento nacional, deslocando a interpretação das relações entre Brasil e Argentina para além da rivalidade entre seleções. O caso também permite dialogar com alguns dos eixos destacados por Julio Frydenberg para a compreensão da consolidação do futebol portenho nos anos 1930: a integração de imigrantes, a constituição do futebol como profissão e mercado de trabalho, bem como a circulação de jogadores e a importância dos vínculos pessoais nesse processo (Frydenberg, 2017).
As notícias examinadas neste artigo não são tomadas como meros registros dos acontecimentos. Sua leitura considera o jogo de forças, os interesses e as estratégias dos diferentes agentes envolvidos. Na década de 1930, o futebol brasileiro atravessava um período de crise, marcado pelos debates em torno do profissionalismo, pelas excursões de clubes e pela circulação de jogadores entre equipes locais, de estados diferentes e, de forma ainda incipiente, internacionais. A imprensa é mobilizada, portanto, tanto como fonte de informação sobre trajetórias quanto como espaço de formulação das próprias relações entre futebol, trabalho e pertencimento nacional.
Aarón Wergifker nasceu em São Paulo em uma família de imigrantes russos, mas foi levado ainda criança para Buenos Aires, onde se formou como jogador. No vocabulário futebolístico da época, Wergifker era um half, posição de características predominantemente defensivas, situada entre a zaga e o meio-campo. Estreou pelo River Plate em 1932 e permaneceu no clube até 1941, período em que disputou 203 partidas e conquistou quatro títulos. Com sobrenome difícil de ser pronunciado, companheiros e torcedores passaram a chamá-lo de “Pérez”. Após deixar o River, atuou pelo Platense até encerrar a carreira, em 1946. Sua condição de brasileiro de ascendência russa, integrado ao futebol argentino, também o conduziu à seleção nacional: entre 1934 e 1936, disputou cinco jogos pela Argentina, tornando-se o único brasileiro a vestir a camisa alviceleste (El Gráfico, 2014).
Foto de perfil de Aarón Wergifker.
Ver: Gazeta de Notícias, 19 de fevereiro de 1937, p. 12.
Em 1935, o River Plate realizou uma excursão ao Rio de Janeiro, durante a qual enfrentou Vasco da Gama e Botafogo em partidas amistosas. Na ocasião, Wergifker declarou ao Jornal dos Sports que deixara o Brasil ainda com poucos meses de vida e que aquela seria sua primeira oportunidade de retornar à pátria natal, circunstância que dizia receber com entusiasmo (Jornal dos Sports, 1935, p. 6). A reportagem também registrou a avaliação de Cuello, seu companheiro no elenco do River, que o descreveu como “um dos maiores halves da Argentina” e como um jogador de “recursos completos” (Jornal dos Sports, 1935, p. 6). O primeiro compromisso da equipe argentina foi contra o Botafogo e, apesar da vitória, os jogadores do River Plate não empolgaram muito a torcida e nem a imprensa que foi acompanhar ao jogo no estádio de São Januário (Jornal dos Sports, 1935, p. 1).
A noite, 4 de fevereiro de 1936
Na ocasião, a Gazeta de Noticias estampou que “clubes argentinos têm suas vistas voltadas para Fausto e Domingos”, indicando que os amistosos também constituíam espaços de observação e recrutamento de jogadores brasileiros. O periódico acompanhou particularmente as tratativas que envolviam Domingos da Guia e uma possível transferência para o Boca Juniors. Sob o título “Domingos e o Boca”, informou que a conclusão do negócio dependia da confirmação do clube portenho e que o jogador cogitava retornar ao futebol brasileiro caso a negociação não se realizasse. A matéria registrou ainda que Domingos teria condicionado sua ida ao Boca à preservação de Moyses, seu amigo, de eventuais prejuízos decorrentes da operação. Ao publicizar essa exigência, a reportagem evidencia que as transferências no futebol profissional não se reduziam a interesses financeiros e decisões dos clubes: envolviam também vínculos de amizade, estratégias de proteção mútua e a capacidade dos próprios atletas de intervir nas condições de sua circulação (Gazeta de Noticias, 1935, p. 10). No mesmo período, outra notícia ampliava esse quadro de circulação: o San Lorenzo demonstrava interesse em Waldemar, do Botafogo, como noticiou o Jornal dos Sports (Jornal dos Sports, 1935, p.1).
O segundo compromisso do River Plate ocorreu contra o Clube de Regatas Vasco da Gama. Em algumas passagens, a Gazeta de Notícias referiu-se ao time cruzmaltino como a “esquadra da cidade”. Sob o título “O grande encontro desta tarde”, a reportagem apresentou o amistoso entre Vasco e River como um acontecimento de grande importância para o prestígio esportivo carioca. Em sua seção esportiva, o jornal publicou fotografias de Domingos da Guia, definido como “um dos melhores zagueiros da América do Sul”, e de Fausto dos Santos, descrito como “o mais completo center-half do Brasil”, dois jogadores negros entre os principais nomes do futebol da época (Gazeta de Notícias, 1935, p. 19).
A matéria enfatizava a responsabilidade vascaína de enfrentar uma das principais equipes argentinas e mobilizava expectativas em torno do desempenho de atletas como Domingos, apontado como possível reforço do Boca Juniors, e Fausto, associado ao interesse de clubes portenhos. Ao mesmo tempo, caracterizava o River como um adversário tecnicamente qualificado e destacava a presença de nomes como Wergifker, descrito entre os jogadores capazes de tornar o confronto difícil para a equipe brasileira. Mais do que anunciar uma partida, o periódico transformava o jogo em uma vitrine de talentos e em um espaço de avaliação recíproca entre os mercados futebolísticos do Rio de Janeiro e de Buenos Aires (Gazeta de Notícias, 1935, p. 19).
O confronto entre Vasco da Gama e River Plate, realizado em São Januário, terminou com vitória argentina por 4 a 1. A Gazeta de Noticias avaliou a partida como tecnicamente abaixo das expectativas e atribuiu parte das dificuldades vascaínas à ausência de Fausto. A superioridade do River se expressou no placar construído ao longo do jogo: Bernabé Ferreyra abriu a contagem, seguido por Moreno e Peucelle, enquanto o Vasco descontou antes de o time argentino ampliar novamente a vantagem. Ao final, o periódico reconheceu desempenhos individuais de ambos os lados, mas enquadrou o resultado como mais uma demonstração da força do clube portenho em sua excursão ao Rio de Janeiro (Gazeta de Noticias, 1935, p. 10).
Fotografia do time campeão do River Plate frente o San Lorenzo Caras y Caretas, 1936, p. 130
As páginas da revista Caras y Caretas registram a decisão do campeonato argentino de 1936 entre River Plate e San Lorenzo de Almagro, apresentada como uma partida de enorme expectativa pública e como encerramento da disputa pela Copa de Honor. A fotografia do River identifica Wergifker entre os integrantes do elenco campeão, ao lado de jogadores como Moreno, Pedernera, Peucelle e Minella, situando-o no grupo que consolidava a projeção do clube naquele momento. A narrativa jornalística descreve uma partida disputada, com alternância de domínio e lances de perigo para ambos os lados, mas ressalta o gol de Carlos “El Charro” Moreno ainda no primeiro tempo, que assegurou a vitória riverplatense e o título. A fonte permite, assim, inserir Wergifker numa memória visual e textual da consagração do River Plate, sem reduzir sua trajetória à condição de brasileiro que buscava integração na seleção argentina (Caras y Caretas, 26 dez. 1936, p. 130-131).
Em 1937, a imprensa carioca noticiou a possibilidade de Wergifker transferir-se para o Vasco da Gama. Apresentado como “o maior half da Argentina”, o jogador do River Plate teria enviado uma carta ao clube manifestando interesse em atuar no futebol brasileiro. Segundo a reportagem, ele se dispunha a viajar ao Rio de Janeiro caso a proposta fosse aceita e tomava como referência a trajetória de Oscarino, então vinculado ao Vasco (Gazeta de Noticias, 1937, p. 12). A negociação não se concretizou: depois de deixar o River Plate, Wergifker atuaria pelo Platense, onde encerrou sua carreira. Ainda assim, a possibilidade de sua contratação pelo clube carioca é reveladora.
A trajetória de Aarón Wergifker permite deslocar a análise das relações entre Brasil e Argentina, frequentemente reduzidas aos grandes confrontos entre seleções, para os circuitos de trabalho, migração e sociabilidade que vinculavam São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires nas décadas de 1930 e 1940. Nascido no Brasil, filho de imigrantes russos, criado em Buenos Aires, profissional do River Plate e jogador da seleção argentina, Wergifker torna visíveis os desencontros entre lugar de nascimento, cidadania, carreira esportiva e identificação nacional. A possível transferência para o Vasco, embora não tenha sido realizada, sintetiza esse universo de viagens, possibilidades e circulação.
A Copa do Mundo realizada nos Estados Unidos, no México e no Canadá recolocou no centro do debate questões relativas às identidades e aos pertencimentos nacionais e coletivos. A imigração, as fronteiras, os critérios de nacionalidade e a ascensão de discursos autoritários se fez presente no debate público em meio ao torneio.
As trajetórias de jogadores como Nico Williams, Lamine Yamal e Esmir Bajraktarevic, marcadas por deslocamentos familiares, evidenciam como o futebol atualiza experiências históricas de migração, inclusão e exclusão. Também os episódios de racismo que atravessam as relações entre brasileiros e argentinos no ambiente futebolístico remetem a processos históricos cujas marcas permanecem presentes na vida de vítimas, familiares e descendentes. Embora o futebol seja uma prática de regras relativamente simples e ampla difusão social, ele permanece inscrito em dinâmicas políticas, econômicas e identitárias complexas (Faure; Suaud, 1994). A intensa produção de memórias, imagens e expectativas em torno do torneio evidencia, por fim, disputas em torno das formas de experimentar, narrar e historicizar o tempo.
A análise de indícios dispersos na imprensa nacional e internacional permite reconstituir experiências que as narrativas nacionais do futebol frequentemente simplificam ou apagam. Atenta aos vestígios documentais e às relações entre o visível e o invisível, a pesquisa toma uma trajetória individual como via de acesso a processos mais amplos. É justamente isso que interessa aqui.
Bibliografia:
FAURE, Jean-Michel; SUAUD, Charles. “Les enjeux du football”. Actes de la recherche en sciences sociales, v. 103, p. 3-6, juin 1994.
LANFRANCHI, Pierre; TAYLOR, Matthew. Moving with the Ball: The Migration of Professional Footballers. Oxford: Berg, 2001.
FRYDENBERG, Julio. Historia social del fútbol: del amateurismo a la profesionalización. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina, 2017.
FRANCO JUNIOR, Hilário. Dando tratos à bola: ensaios sobre futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
Fontes:
“Domingos e o Boca”. Gazeta de Notícias. 6 de fevereiro de 1935, p. 10.
“O maior half da Argentina pretende ingressar no Vasco”. Gazeta de Notícias. 18 de fevereiro de 1937, p. 12.
“Conseguirá o Vasco rehabilitar o football da cidade?”. Gazeta de Notícias. 10 de fevereiro de 1935, p. 19.
“Como se portaram as duas attracções”. Jornal dos Sports. 5 de fevereiro de 1935, p. 1.
“Um brasileiro e um paraguayo na selecção Argentina”. Jornal dos Sports. 11 de fevereiro de 1938, p. 4.
“O grande encontro da tarde”. Gazeta de Notícias. 10 de fevereiro de 1935, p. 19.
“Um novo triumpho do River Plate”. Gazeta de Notícias. 12 de fevereiro de 1935, p. 10.
A noite, 4 de fevereiro de 1936, p. 1.
“River Plate inscribió su nombre en la Copa de Oro”. Caras y Caretas, 26 de dezembro de 1936, p. 130-131.
Gazeta de Notícias, 19 de fevereiro de 1937, p. 12.
RODRÍGUEZ, Matías. Aarón Wergifker. El Gráfico, 14 fev. 2014. Disponível em:https://www.elgrafico.com.ar/articulo/%C2%A1habla-memoria!/5057/aaron-wergifker . Acesso em: 24 ago. 2026.



