Trinta anos separam a publicação de uma matéria sobre o primeiro campeonato profissional de surfe realizado em uma piscina de ondas e a publicação de uma entrevista com Kelly Slater sobre o lançamento da Surf Ranch, empreendimento que possui uma das melhores tecnologias de geração de ondas artificiais.1 Entre os relatos desses dois eventos, que podem ser considerados marcos da história do surfe, é possível perceber como a abordagem editorial sobre o assunto difere em duas das principais revistas especializadas em surfe, dos Estados Unidos: a Surfing Magazine e a Surfer. O passar dos anos e a evolução tecnológica por trás das ondas criadas pelo homem mudou a perspectiva da cobertura midiática sobre o surfe praticado fora do mar.
Em novembro de 1985, a revista Surfing Magazine publicou a matéria intitulada Twistin` by the pool2, ou Dançando twist à beira da piscina em uma tradução direta. O autor Bill Sharp usou do humor em um relato de seis páginas para descrever a incredulidade dele e dos competidores sobre o que eles experienciaram no primeiro campeonato profissional realizado pela Association of Surfing Professionals (ASP) em uma piscina de ondas. A competição foi realizada no The Wildwater Kingdom, anexo do parque aquático Dorney Park, em Allentown, Pensilvânia, entre 19 e 23 de junho daquele ano.
Não houve menção à matéria no editorial da revista, porém havia uma nota do editor logo após o título da mesma. Provavelmente por conta do estranhamento e do deslocamento simbólico de uma competição realizada com alguns dos melhores surfistas do mundo em uma “máquina de ondas”, no interior dos Estados Unidos, que David Gilovich informava que o relato que se seguia poderia ser um dos momentos mais estranhos da história [do surfe].
A diagramação das páginas foi composta por fotos da piscina, por momentos de ação durante a competição, uma caricatura do mestre de cerimônias do evento e de fotos da audiência, que segundo o autor parecia se sentir tão deslocada quanto os surfistas. As frases de destaque complementavam a abordagem: “as coisas mais interessantes que aconteceram em Allentown não aconteceram na piscina”; “nunca antes os melhores surfistas do mundo competiram sem um oceano”.
O autor começou a matéria em tom anedótico dizendo que precisou esfregar os olhos para acreditar no que estava enxergando: os dezesseis melhores surfistas do mundo estavam misturados a cerca de cinquenta surfistas aspirantes e vários operários “obesos”, de fábricas locais, ao lado de uma piscina de ondas no interior do país. “Atraídos pela perspectiva de 1.000 pontos no ranking da ASP, um prêmio de 25 mil dólares e relatos empolgantes sobre tubos perfeitos na altura da cabeça, os melhores surfistas do mundo haviam chegado.” Porém, eles não encontraram exatamente o que lhes havia sido prometido. A piscina, que teve um custo de 4 milhões de dólares e tinha quatro grandes pistões hidráulicos, gerava ondas de dois pés (menos de um metro) com um intervalo de dois segundos entre elas e sequências de 15 ondas para direita e 15 ondas para a esquerda. Mas “apesar da aparência horrível e artificial”, as ondas eram surfáveis e o campeonato transcorreu com a “precisão de um relógio”.
Ainda de acordo com o autor, a ASP, principal entidade do surfe naquela época, via nas piscinas de ondas a possibilidade de salvar o surfe profissional ao levar o esporte para as massas e explorar um vasto novo mercado de aficionados pelo surfe. Mas mesmo naquela época a novidade não empolgou os surfistas e a mídia especializada, provavelmente por conta da qualidade das ondas que não tinham força e nem potência o suficiente para proporcionar a execução de manobras de um surfe mais progressivo e dinâmico. A sensação relatada foi de um espetáculo monótono e repetitivo, que não mostrou todo o potencial que o esporte poderia proporcionar. “Se você viu uma bateria [da competição], você viu tudo.” Algo que ainda hoje a audiência reclama a respeito dos campeonatos realizados em surfe parques.
Já na matéria intitulada Man-Made, ou Feito pelo homem em uma tradução livre, que foi publicada na revista Surfer de março de 2016, conseguimos perceber que a abordagem muda inicialmente porque é uma matéria de capa, o que sugere um aumento da relevância do assunto com o passar dos anos. O editorial tem um tom solene de momento histórico: In Man’s Hands, ou Nas mãos do homem, que nos remete a ideia de que agora os seres humanos têm o controle de mais um aspecto da natureza, as ondas.
A matéria em questão era uma entrevista com Kelly Slater sobre a Surf Ranch. O onze vezes campeão mundial tinha divulgado em dezembro do ano anterior um vídeo dele surfando uma onda perfeita em um lago a milhas de distância do oceano. O vídeo viralizou nas redes sociais e de certa forma dividiu opiniões sobre o futuro do surfe. O editor, Todd Prodanovich, comparou o momento com os primeiros passos de Neil Armstrong na lua. “É uma conquista impressionante, e soubemos, no instante em que a vimos [a onda], que o nosso pequeno universo do surfe nunca mais seria o mesmo”.
Na entrevista, Kelly Slater discorreu sobre como ele passou 10 anos desenvolvendo a “onda perfeita” em Lemoore, no interior da Califórnia. A capa é ilustrada por uma foto em preto e branco do surfista dentro de um tubo3, na Surf Ranch, e as fotos coloridas que ilustram a matéria mostravam uma água de tonalidade marrom, pouco fotogênica se a compararmos com locais paradisíacos e conhecidos pela qualidade das ondas como Pipeline, no Havaí, ou Uluwatu, na Indonésia.
O entrevistador perguntou ao surfista como a tecnologia para a geração da onda em si funcionava e Kelly Slater respondeu que era algo parecido com a asa de um avião, que se chama hydrofoil, e que ao se movimentar na água gera um swell4 similar aos encontrados no oceano. Quando foi perguntado sobre a sensação de surfar a onda na piscina e a diferença em relação às ondas no oceano, Kelly Slater disse que existiam diferenças pequenas das “curvas naturais e imperfeições do ambiente do oceano”, mas que a onda dele tinha “bastante energia, potência e velocidade”, justamente o que foi criticado durante anos a respeito das ondas artificiais produzidas por tecnologias anteriores.
Outra crítica em relação às ondas artificiais é que supostamente elas não teriam conexão com a cultura do surfe. Na entrevista, Kelly Slater afirmou:
Eu sei que as pessoas têm medo que as ondas feitas pelo homem possam mudar ou arruinar nossa cultura de alguma forma, mas isso não significa a substituição de nada. Eu sempre falei que isso é um suplemento ao surfe no oceano, e que é algo para diversão. Eu acho que pode ajudar o esporte a crescer mais rápido, assim como os skate parques ajudaram o skate a crescer.
Kelly Slater também enumerou os benefícios que acreditava que a onda dele poderia trazer: a oportunidade de praticar manobras específicas, testar pranchas e equipamentos, além de ajudar os surfistas, que surfam em picos “crowdeados5” no oceano, a serem mais felizes ao saberem que a partir daquele momento poderiam surfar em lugares onde teriam a sua cota de ondas sem ter alguém para atrapalhar. A legenda de uma foto com o surfista manobrando na parte crítica da onda complementava: “um dos benefícios óbvios do surfe artificial é a uniformidade das ondas, proporcionando ao surfista se antecipar às seções [da onda] e trabalhar em manobras específicas.” Outra legenda, da foto de uma onda quebrando sem nenhum surfista, descreve um sentimento que nos parece que resume a entrevista: “Acima, a onda do Kelly, nenhuma gota de água fora do lugar – os engenheiros se certificaram disso”.
Mesmo separadas por trinta anos, ambas as matérias tratam do surfe do futuro, dos benefícios que as ondas artificiais poderiam trazer e das perspectivas dos autores, e também do entrevistado, sobre os impactos que elas poderiam ter na cultura do surfe. Os atributos de previsibilidade, precisão e repetição, que apareceram nos dois relatos são utilizados hora de forma negativa e hora de forma positiva. Ao mesmo tempo que tornam o espetáculo monótono, na primeira matéria, ajudam no treinamento e na criação da onda perfeita, na segunda. Na entrevista de Kelly Slater, percebemos um otimismo maior, que transparece a crença na tecnologia e na máquina em detrimento da natureza. Algo que exemplifica o que Postman (1994) cita em seu livro, que seria a “submissão de todas as formas de vida cultural à soberania da técnica e da tecnologia” (POSTMAN, 1994, p.61). Afinal, a natureza contém imperfeições. E por fim, as “ondas sintéticas” e as “praias de concreto” traduzem o processo de desencantamento e racionalização do esporte. Porém, mesmo nesses espaços controlados (MASCARENHAS, 2003) há espaço para algo mágico que o surfe evoca, no entanto, nos parece que cada vez menos.
Referências
MASCARENHAS, G. . A leviana territorialidade dos esportes de aventura: um desafio à gestão do ecoturismo. In: BRHUNS, H.; MARINHO, A. (Org.). Turismo, lazer e natureza. Campinas: Manole, 2002, v. 1, p. 75-99.
PRODANOVICH, Todd. Man-Made. Surfer. Nova Iorque, NY, volume 57, número 3, p. 32-37, março de 2016.
POSTMAN, Neil. Tecnopólio: a rendição da cultura à tecnologia. / Neil Postman ; tradução Reinaldo Guarany. – São Paulo: Nobel, 1994.
SHARP, Bill. Twistin` by the pool. Surfing Magazine. San Clemente, CA, volume 21, número 11, p. 62-67, novembro de 1985.
WEBER, Max. A ética protestante e o “espirito” do capitalismo. In: [S.l.]: Companhia das letras, 2004.
- Produzido por arte ou indústria do homem e não por causas naturais. Disponível em <https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/artificial> Acesso em 23 ago 2026 ↩︎
- O título também remete à música “Twisting by the Pool” do Dire Straits, de 1983, que evoca férias, piscina, dança, praia, turismo e uma atmosfera descontraída. ↩︎
- Tubo: manobra que consiste em entrar dentro da onda ou entubar. ↩︎
- Swell: origem de um conjunto de ondas. ↩︎
- Locais onde há excesso de surfistas. ↩︎
