De Buenos Aires à Baixada: como as torcidas misturam estilos e reinventam a festa no estádio

Quem frequenta o estádio sabe que a arquibancada é um organismo vivo. Ela não é feita apenas de 90 minutos de jogo, mas de rituais, cantos, panos e afetos que se aprendem na prática. Afinal, como já dizia o antropólogo Roberto DaMatta, o futebol brasileiro funciona como uma “verdadeira máquina de socializar pessoas” (DAMATTA, 1982 apud TEIXEIRA, 2013, p. 12). Ninguém acorda sabendo ser torcedor: essa é uma construção diária e coletiva. Como resume Rosana da Câmara Teixeira: 

“Isto significa entendê-lo, também, como lugar de aprendizado de sentimentos e práticas já que ritualiza a solidariedade e o conflito, a união e a separação, a alegria e a tristeza. Entende-se com isso, que não se nasce torcedor, torna-se um, condição que possibilita experimentar tais sentimentos.” (TEIXEIRA, 2013, p. 2). 

Mas de onde vêm as ideias para as festas que vemos nas bancadas hoje? Com a internet, as viagens e as redes sociais, o modo de torcer deixou de ser algo puramente local. Hoje, as arquibancadas do mundo todo conversam entre si (HOLLANDA, 2023, p. 8). 

Bricolagem: o “faça você mesmo” das arquibancadas 

Para explicar esse fenômeno, o historiador Bernardo Buarque de Hollanda (2023) utiliza o conceito de bricolagem — uma ideia herdada do antropólogo Claude Lévi-Strauss. Na prática, a bricolagem é o ato de pegar elementos de diferentes lugares, misturar tudo e criar algo inteiramente novo. 

No Brasil, a partir dos anos 2000, vimos a explosão da “argentinização” das torcidas, com a chegada do estilo das barras bravas: ritmos marcados por instrumentos de sopro e murgas, faixas verticais e o apoio que não pára nem quando o time está perdendo (HOLLANDA, 2023, p. 12). 

Só que o torcedor brasileiro não copiou o modelo argentino às cegas. Ele adaptou o estilo para a sua própria realidade. Sobre esse processo de mistura e criação, Rosana Teixeira explica: 

“Vale destacar que se por um lado, os movimentos populares no Brasil sofrem a influência do modelo de torcer sul-americano, é necessário, por outro, investigar as apropriações feitas e os novos sentidos atribuídos, ou seja, deslocados de seu contexto original, a ressignificação de valores e práticas permite criar algo diferente, original. Como em um processo de bricolagem (LÉVI-STRAUSS, 1976)” (TEIXEIRA, 2013, p. 7). 

É assim que a identidade do grupo se consolida. Afinal, como lembra a pesquisadora: 

“O sentimento de identidade refere-se a imagem que a pessoa adquire ao longo da vida a respeito de si própria, imagem que constrói e apresenta, para acreditar na sua própria representação.” (TEIXEIRA, 2013, p. 4). 

A estética da Baixada Fluminense e o caso da Infernizada

Um exemplo perfeito dessa “bricolagem à brasileira” acontece no futebol da Baixada Fluminense com a torcida Infernizada. 

Nas barras bravas tradicionais da Argentina, o uso de bandeirões gigantescos (aqueles que cobrem setores inteiros da arquibancada) não é comum. Eles preferem utilizar apenas os trapos (as faixas verticais e horizontais). A Infernizada, no entanto, deu o seu próprio toque a essa cultura: adotou a estética e a atitude de uma barra, mas manteve os bandeirões — um elemento histórico e afetivo fortíssimo das torcidas organizadas do Brasil. 

 

Foto: Arthur Barreto 

Além disso, trocou-se o enaltecimento da própria torcida pelo foco total no clube e na festa incondicional, recusando a violência e resgatando a cultura material do estádio. Como pontua Teixeira: 

“É interessante notar que tanto as jovens quanto os movimentos populares revelam o papel central da cultura material na produção das identidades (as bandeiras, bandeirões, a bateria, a camisa). Os objetos têm papel ativo, no caso dos movimentos, os trapos contam a história (do clube, dos ídolos), dão recados, apoio. Produzem e desencadeiam experiências corporais e psicológicas; definem atribuições e obrigações. Falam de poder, honra e perigo.” (TEIXEIRA, 2013, p. 11). 

Resistir e festejar: o estádio como espaço de vida 

Essa capacidade das classes populares de inventar saídas, adaptar símbolos e ocupar espaços não é nova. Lélia Gonzalez (2024), ao analisar as festas e rituais afro-brasileiros, mostrou como a população negra sempre utilizou a estratégia da “resistência/acomodação” para manter vivas suas tradições sob forte pressão social: 

” A violência da escravidão caracterizou-se não só pela ruptura dos referenciais básicos da society africana, como pela cuidadosa mistura das diferentes etnias, demonstrando grande eficácia na destruição das estruturas sociais. aconteceu porém que os valores religiosos tão essenciais nas civilizações africanas, foram resaguardados pelos afro Negros brasileiros.

Em seu processo de duplo ajustamento à sociedade brasileira, os escravos forjaram uma nova identidade que, de um lado, adaptava-se taticamente às exigências de obediência e fidelidade ao modelo dominante e, de outro, integrava-se de fato as normas de vida e de 

pensamento que iam sendo elaboradas por sua própria comunidade. Por meio desse processo de resistência/acomodação, os escravos foram atuando nos espaços permitidos e recriando clandestinamente seus cultos e ritos, seus valores culturais, sob a forma inocente das brincadeiras de negros, de folguedos, de batuques.” (GONZALES, 2024, p. 9). 

Hoje, em um cenário de estádios cada vez mais caros (“arenização”), elitizados e burocratizados por proibições (HOLLANDA, 2023, p. 13), os novos movimentos populares de torcedores usam a criatividade justamente para resistir. Eles se apropriam do espaço público para criar comunidades seguras e festivas, permitindo “viver coletivamente a experiência torcedora sem perigos e riscos” (TEIXEIRA, 2013, p. 9). 

Foto: Arthur Barreto 

Seja na Argentina, no Rio de Janeiro ou nos campos da Baixada Fluminense, torcer continuará sendo um ato de criação coletiva. A arquibancada muda, o jogo se transforma, mas a vontade de cantar e fazer festa juntos permanece imbatível. 

Referências 

GONZALES, Lélia. Festas afro-brasileiras. In: GONZALES, Lélia. Festas populares no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2024, p. 99-105.

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. “Torcidas”, “barras”, “hinchadas”, “hooligans” e “ultras”, uma caminhada científica entre América Latina e Europa. Perspectivas: notes de recherche américanistes, v. 1, p. 1-36, 2023. 

TEIXEIRA, Rosana da Câmara. Futebol, emoção e sociabilidade: narrativas de fundadores e lideranças dos movimentos populares de torcedores no Rio de Janeiro. Esporte e Sociedade, Niterói, ano 8, n. 21, p. 1-20, mar. 2013.

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