De volta para Casa: O êxodo inverso dos jogadores “europeus” que escolheram a África

Foto: Sebastien Bozon/AFP

A última Copa Africana de Nações (CAN) — a principal competição internacional de seleções do “Continente Mãe”, disputada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 — revelou histórias e análises interessantes. Entre elas, destaca-se o notável crescimento no número de jogadores nascidos em outros países, principalmente na Europa, que optaram por representar suas pátrias ancestrais. Na própria final entre Marrocos e Senegal, por exemplo, 45,5% dos jogadores haviam nascido fora desses países. Ademais, nomes conhecidos do futebol global, como Brahim Díaz (Marrocos/Real Madrid), Ademola Lookman (Nigéria/Atalanta), Wan-Bissaka (RD Congo/West Ham) e Iliman Ndiaye (Senegal/Everton), foram algumas das figuras que se naturalizaram nos últimos anos e disputaram essa edição.

Mas por que tantos jogadores, inclusive com destaque nos principais campeonatos europeus, tomaram essa decisão? Podemos levantar alguns aspectos fundamentais:

Em primeiro lugar, com o aumento no número de vagas para a Copa do Mundo de 2026, o continente africano foi beneficiado com até 10 classificações possíveis, em vez das costumeiras cinco. Isso permitiu que atletas nascidos na Europa vislumbrassem a perspectiva real de atuar em um Mundial. Um sonho distante para aqueles que não tinham expectativas de convocação em seus países de nascimento.

Em segundo lugar, as recentes mudanças nas regras de elegibilidade da FIFA permitiram que os atletas trocassem de seleção mais facilmente, mesmo tendo disputado jogos em categorias de base ou poucas partidas pela equipe principal. Além disso, ressalta-se o aprimoramento do trabalho de scouting e o poder de convencimento das federações africanas (com destaque para Marrocos, Senegal e Argélia), somados aos investimentos em infraestrutura, como o moderno Complexo de Futebol Mohammed VI, inaugurado em Marrocos em 2019.

A felicidade e o orgulho pela escolha de vestir o “manto familiar” foram evidentes em diversas declarações. Lookman, da Atalanta, afirmou em 2023: “Quero jogar pela Nigéria e tenho orgulho disso. Nasci na Inglaterra, mas minha família é da Nigéria e tenho um forte vínculo com ambos os países”. Outro destaque foi Brahim Díaz, que declarou: “Decidi por amor e carinho, não vai além disso (…) Sinto-me 100% marroquino e 100% espanhol”. Curiosamente, Díaz, principal estrela de Marrocos e artilheiro da CAN, tornou-se o “vilão” na épica final contra Senegal ao perder um pênalti polêmico com uma “cavadinha” nos minutos finais, o que poderia ter dado o título aos Leões do Atlas. Após o lance, ele se desculpou: “Peço desculpas de todo coração. Custará me recuperar porque esta ferida não cicatriza facilmente”.

Ao término da CAN, várias seleções africanas alcançaram posições significativas no ranking da FIFA de 19 de janeiro de 2026: Marrocos subiu três posições, chegando ao 8º lugar; Senegal subiu sete, ocupando a 12ª colocação; e a Nigéria saltou 12 posições, atingindo o 26º posto. Tais resultados demonstram o crescimento técnico de seus elencos e geram grandes expectativas para a Copa do Mundo de 2026. Até lá, é possível que outros jogadores se inspirem por essas trajetórias e busquem se naturalizar para tentar uma chance de serem convocados para o mundial. Por outro lado, essa onda de naturalizações às vésperas do Mundial é criticada por antigos jogadores, que a enxergam como um desrespeito aos atletas que já vinham sendo selecionados. Resta saber como esse processo se dará na prática.

 

Referências

Metade dos finalistas da Copa Africana nasceu fora de seus países | Poder 360

No regrets choosing Nigeria over England – Lookman | Daily Post

Brahim Díaz, o 100% marroquino, 100% espanhol que leva Marrocos a reboque na CAN | Tribuna Expresso

Brahim Díaz pede desculpas após erro em cavadinha na final da Copa Africana: “Me dói a alma” | Globo Esporte

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