DE VOLTA PRA CASA

“No ano que vem, a Fórmula 1 vai estar na Globo. E vocês sabem o que é Fórmula 1 ainda, né?”

O comentário irônico proferido pelo jornalista William Bonner, em um evento publicitário para celebrar o retorno da principal categoria do automobilismo mundial à emissora, foi, no mínimo, deselegante. A fala, obviamente, circulou com rapidez pelas mídias sociais e provocou uma reação indignada de profissionais da Band. A emissora paulista, desde 2021, vinha transmitindo o campeonato de F1.

A assessoria de imprensa da TV Globo tratou de jogar água na fervura através de uma nota à imprensa, negando qualquer intenção de desmerecer a concorrência, mas o fato é que ficou feio, até porque, bastava ao então apresentador do Jornal Nacional exaltar a ligação histórica entre Globo e Fórmula 1, incontestavelmente relevante.

De acordo com o depoimento do jornalista Ciro José ao projeto Memória Globo, a Rede Globo teve um papel importante na negociação com a Federação Internacional dos Construtores da Fórmula 1 (FOCA), para que uma primeira corrida fosse organizada no Brasil. 

A prova transmitida foi um evento teste disputado no recém-reformado circuito de Interlagos, em 1972. Como não contava pontos para o campeonato, apenas algumas escuderias participaram. Ferrari, McLaren e Tyrrell, por exemplo, não vieram. Doze pilotos compuseram o grid e quatro eram brasileiros: os irmãos Fittipaldi, Emerson (Lotus) e Wilson (Brabham); José Carlos Pace e Luiz Pereira Bueno (March), sendo que Bueno (que no ano seguinte pilotaria uma Surtees) alugou o carro para poder participar. Apesar de Emerson ter feito a pole, a prova foi vencida pelo argentino Carlos Reutemann, da Brabham. Seu companheiro de equipe, Wilsinho, ficou em terceiro. Nesse mesmo ano, quando Emerson Fittipaldi foi campeão, no Grande Prêmio de Monza, na Itália, foi a TV Globo que transmitiu o título, ao vivo, para o Brasil. 

Nessa época, a TV brasileira era uma das poucas do mundo a exibir as corridas na íntegra. Na Europa, por exemplo, as emissoras destacavam a largada, apresentavam flashes durante a prova e mostravam a bandeirada final.

Emerson Fittipaldi conquista o título mundial em Monza (Reprodução)

Tema da vitória

De 1972 até 1991, foram oito títulos. Dois com Emerson (1972 e 1974), três com Nélson Piquet (1981, 1983 e 1987) e três com Ayrton Senna (1988, 1990 e 1991). Uma sequência extraordinária de oito conquistas em doze anos que transformou o brasileiro em um apaixonado pela categoria.

Nossa superioridade nas pistas fazia com que o ato de acordar cedo no domingo não fosse nem um pouco penoso. E se já era divertido com um campeão na pista, imaginem quando Senna e Piquet passaram a se enfrentar dentro e fora delas, alimentando os embates entre “sennistas” e “piquetistas”.

O importante, no entanto, era que na hora da bandeirada, tocasse o tema da vitória, trilha sonora que todo apaixonado por Fórmula 1 adora, afinal, era sinônimo de mais uma conquista brasileira. No começo, contudo, não foi bem assim. 

O tema instrumental, composto por Eduardo Souto Neto era executado, nos primeiros anos, apenas após a bandeirada final do Grande Prêmio do Brasil, independentemente de quem fosse o vencedor. Só a partir da vitória de Senna no Grande Prêmio de Detroit de 1986, a música passou a ser tocada a cada vitória brasileira. Foi assim com Piquet, Senna, Rubens Barrichello e Felipe Massa.

Durante três décadas, Globo e Fórmula 1 foram sinônimos. A única exceção foi a temporada de 1980 quando a Band exibiu as principais provas do ano. A transmissão era comandada por Galvão Bueno, que a partir do ano seguinte levaria sua narração vibrante e seus bordões para a Rede Globo onde, ao lado do comentarista Reginaldo Leme, formaria uma dupla que marcou época.

No auge da carreira de Senna, a emissora também passou a transmitir o treino classificatório. Era mais uma oportunidade para mostrar a genialidade do piloto e faturar com a audiência gerada por ele.

Após a morte trágica de Ayrton, a seca de títulos, apesar de termos pilotos em equipes de ponta (Barrichello e Massa pilotaram Ferraris), fez minguar o interesse pela categoria por aqui. Algumas tentativas foram feitas para recuperar uma fatia do público perdido, a contratação de ex-pilotos para participarem como comentaristas e a ampliação da faixa de programação relacionada à corrida, permitindo que um repórter e um desses pilotos “passeassem” pelo grid de largada. Um deleite para os espectadores mais apaixonados, já que em tantos anos de corridas transmitidas, isso nunca havia ocorrido.

O canal do esporte

O ano era 2020. A epidemia mundial da Covid-19 afetou diretamente a Fórmula 1. Após muita polêmica, a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) definiu que o campeonato não seria suspenso e, sim, alterado. Treze etapas originais foram canceladas, incluindo Mônaco, França, Japão, Singapura e Brasil. O calendário foi preenchido com 17 etapas, principalmente na Europa, incluindo circuitos que não estavam inicialmente programados, como Mugello (Itália), Algarve (Portugal) e Estíria (Áustria). Todas as provas foram realizadas com portões fechados ou restrições severas e sem pódios tradicionais. Entrevistas, apenas virtuais.

O impacto financeiro sobre o “circo” da Fórmula 1 foi significativo: uma queda de receita de quase 900 milhões de dólares. Equipes reduziram salários e demitiram funcionários.

De positivo, no ano, a mobilização dos pilotos no combate ao racismo, capitaneada por Lewis Hamilton e a conquista de seu sétimo título mundial, se igualando ao, então recordista isolado, Michael Schumacher.

Ao final da temporada, um anúncio surpreendeu a todos. A Globo não transmitiria a F1 no ano seguinte. Uma conjugação de fatores teria impulsionado a decisão: a falta de brasileiros no grid (Massa havia sido o último e saíra em 2017); a crise econômica decorrente da pandemia; a falta de acerto nos valores para a renovação do contrato; e, por último, a insatisfação da Liberty Media, dona dos direitos de transmissão, com a emissora brasileira. A empresa demandava mais espaço na grade de programação.  As provas que não eram realizadas pela manhã haviam deixado de ser transmitidas ao vivo na TV aberta, assim como as classificações aos sábados, que só eram exibidas no canal por assinatura SporTV.

A Band aproveitou a oportunidade e abriu as portas para o automobilismo, como desejava a empresa norte-americana. Todas as 23 corridas, independentemente do horário, seriam transmitidas pela emissora. Os treinos livres e de classificação ficariam a cargo do canal pago BandSports, que também passaria a transmitir Fórmula 2, Fórmula 3 e Porsche Cup. Além de dar mais espaço à F1 nos telejornais e programas esportivos da emissora e no próprio dia da corrida.  

Para dar conta do recado, importou know-how global. O narrador Sérgio Maurício, os comentaristas Reginaldo Leme e Felipe Giaffone e a repórter Mariana Becker migraram da emissora carioca para o “canal do esporte”, como a Band costuma se autointitular.

Time “global” na Band (divulgação)

A temporada de 2021 acabou sendo um presente para a nova casa da F1 no país. Para muitos especialistas, uma das melhores e mais emocionantes da história. A disputa acirrada e polêmica entre o jovem Max Verstappen (Red Bull) e Lewis Hamilton (Mercedes) foi decidida apenas na última volta da última corrida. Um nível de competitividade que há muito não se via na era moderna da categoria.

Pilotar para sobreviver

Outro fator que reimpulsionou a Fórmula 1 nesses anos em que a emissora paulista deteve os direitos de tradição veio de uma série documental da Netflix com o título de Drive to Survive (Pilotar para Sobreviver).

A produção britânica fez o torcedor de Fórmula 1 mergulhar nos bastidores da categoria. Uma imersão inédita que trouxe bastidores das equipes e permitiu conhecer mais sobre a vida e o dia-a-dia dos pilotos.

 O conteúdo rico e dinâmico atraiu os jovens, que estavam longe de ser o público principal das corridas (no Brasil, 1/3 dos espectadores tinham menos de 30 anos e o público feminino chegou a 18%).  Pilotos passaram a ser considerados celebridades fora da “bolha” da F1. A identificação dos torcedores fez disparar o número de seguidores em Redes Sociais e trouxe novos comportamentos dos fãs. 

Um claro exemplo aconteceu às vésperas do Grande Prêmio Brasil de 2021. Um assédio digno de qualquer grupo coreano de KPop. Os jovens Charles Leclerc, da Ferrari, e Lando Norris, da McLaren, um tanto quanto incrédulos, foram recebidos com gritos e muitos celulares em busca de selfies com os pilotos, algo inédito até então.

Havia ainda um fator bastante chamativo dentro das pistas. A troca de protagonismo. O heptacampeão Lewis Hamilton via sua supremacia ser usurpada por um jovem e veloz holandês: Max Verstappen. Das cinco temporadas transmitidas pela Band, Max venceu as quatro primeiras. A de 2025 foi conquistada pelo britânico Lando Norris. 

A Band operava com um modelo de negócios diferenciado. Ao invés de pagar pelos direitos de transmissão, dividia as receitas de cotas de patrocínio com a Liberty Media. Porém, o alto investimento e problemas financeiros do Grupo Bandeirantes geraram atrasos nos repasses, o que fez a detentora dos direitos voltar a negociar com a Globo

A emissora paulista avaliou o período de transmissão da Fórmula 1 (2021-2025) como muito positivo. Lembrou que, em termos de audiência, ocupou a vice-liderança isolada durante os GPs, chegando a superar a Globo em alguns momentos específicos e durante a transmissão do Grande Prêmio de São Paulo. A nota da Band também destacou que conseguiu “resgatar” o público que havia deixado de acompanhar a F1, oferecendo uma cobertura mais intensa, com conteúdo pré e pós-corrida, além de uma equipe no local.

Indícios animadores

O acordo firmado para 2026 é de que a TV Globo transmita, ao vivo, 15 grandes prêmios, sendo que os nove restantes serão compactos, exibidos em horário alternativo. 

O Sportv, por sua vez, transmitirá, ao vivo, as 24 corridas, assim como cada treino, sessão de classificação e as corridas Sprint. No Globoplay, haverá a disponibilidade do sinal em qualidade 4K. Além disso, o ge.globo vai acompanhar todas as provas em tempo real.

O conteúdo da Fórmula 1 também terá ampla cobertura nos programas esportivos, de entretenimento, nos telejornais e no site ge.globo.  Equipes de reportagem vão estar presentes em todas as etapas.

Os estúdios contam com o recurso da Realidade Aumentada. O da TV Globo é a simulação de um box, inclusive com uma réplica em tamanho real de um carro de corrida. Já o cenário do Sportv, tem um enorme painel de LED com imagens personalizadas para cada corrida.

Tecnologia em alta na volta da F1 à Globo (reprodução de TV)

Na TV Globo, a narração é de Everaldo Marques, e os comentários são feitos por Luciano Burti e Marina Becker, que fará a cobertura nos locais GPs ao redor do mundo. No Sportv3, Bruno Fonseca narra e os comentários são de Rafael Lopes, Christian Fittipaldi e Felipe Giaffone. 

E se levarmos em conta os resultados obtidos na primeira prova (GP da Austrália), esse retorno tem tudo para ser uma experiência de sucesso. A volta da F1 para “casa” alcançou um público quase três vezes maior do que o da abertura do campeonato do ano anterior, ainda na Band: cerca de 17,4 milhões de pessoas distribuídas entre o canal principal e o Sportv3. Segundo dados fornecidos pela emissora, a transmissão da corrida na Globo rendeu o recorde de audiência do automobilismo desde 2020, a última vez em que o canal carioca transmitiu a categoria, com 5 pontos e 23% de participação. Números impressionantes dado que a prova transcorreu de madrugada.

Resta saber se foi um interesse inicial ou se a tendência é que se mantenha. Não há dúvidas, no entanto, que uma maior competitividade prometida com o novo regulamento e com os carros híbridos vai, realmente, acontecer. Um desempenho melhor do brasileiro Gabriel Bortoletto, agora pilotando um carro com motor Audi, também seria muito bem-vindo.

Acelerem, rapazes! 

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