Entrevista com Dr. Jess Ponting – Professor associado e Diretor do Center for Surf Research, San Diego State University (SDSU)

O Dr. Jess Ponting é professor associado e diretor do Center for Surf Research na San Diego State University (SDSU), onde fundou o primeiro Centro de Pesquisa sobre Surfe do mundo. Ele também é cofundador e diretor executivo da STOKE, uma certificação de sustentabilidade para parques de surfe e estações de esqui, e CEO da Surf Park Central, que agrega informações para a indústria de parques de surfe e organiza a conferência anual do setor, o Surf Park Summit.

Nesta entrevista, traduzida livremente, ele fala um pouco sobre a sua trajetória acadêmica, os cargos que acumula, além de lecionar na SDSU, e suas perspectivas em relação ao mercado de parques de surfe e o futuro dos estudos sobre surfe. 

  1. Poderia começar falando um pouco sobre a sua trajetória acadêmica, incluindo sua formação na graduação e na pós-graduação, e como essas experiências te levaram aos estudos sobre surfe? 

Fiz um bacharelado em Gestão de Recursos e Meio Ambiente, depois um mestrado em Gestão de Turismo e um doutorado em Estudos de Lazer e Turismo. A parte dos estudos sobre surfe surgiu quando eu viajava pela Indonésia após trabalhar como agente de desenvolvimento comunitário em Papua-Nova Guiné. Vi que a teoria do desenvolvimento comunitário precisava ser incorporada ao desenvolvimento do turismo de surfe para melhorar as comunidades locais e alcançar melhores resultados ambientais a partir do desenvolvimento do turismo de surfe. Quando meu ano na Indonésia terminou, voltei para a Universidade para começar o mestrado com a visão clara de descobrir como tornar o turismo de surfe mais sustentável.

  1. Como surgiu a ideia de criar o Center for Surf Research? Poderia nos contar mais sobre a missão e os objetivos do Centro? 

Comecei o Centro em 2011 como ponto focal para minha pesquisa sobre turismo de surfe sustentável; eu esperava que fosse um local de encontro para pesquisadores de surfe globalmente. Missão e visão estão disponíveis no site csr.sdsu.edu

A Visão

Ao incorporar princípios do turismo sustentável, o turismo de surfe promove estilos de vida saudáveis ??e constitui um motor fundamental para o bem-estar ambiental, sociocultural e econômico dos destinos.

Nossa Missão

O Centro de Pesquisa sobre Surf é a principal referência para pesquisadores de turismo de surfe sustentável, operadores de turismo, comunidades, governos e surfistas em nível global.

  1. Poderia falar um pouco sobre as origens, objetivos e o que a STOKE Certified faz? 

A STOKE surgiu porque não existia uma certificação de sustentabilidade projetada especificamente para resorts, hotéis e acampamentos de surfe, embora eles sempre estejam em ambientes vulneráveis e muitas vezes situados entre comunidades indígenas em países de baixa renda. A STOKE baseia-se nos critérios do Global Sustainable Tourism Council, mas ampliada e mais focada nos desafios únicos dos mercados verticais em que atuamos (surfe, neve, parques de surfe).

  1. Há quanto tempo você ocupa a posição de CEO da Surf Park Central e como você caracterizaria a missão e o papel da organização dentro do setor de parques de surfe? 

Ajudei a fundar a Surf Park Central (SPC) em 2013 e estou como CEO interino há cerca de 2 anos. A SPC é, essencialmente, a organização comercial para a indústria de parques de surfe, que organiza uma conferência anual, conferências regionais, webinars ao longo do ano e conduz pesquisas primárias para retroalimentar a indústria.

  1. Como você vê o mercado de parques de surfe hoje em comparação a quando a primeira piscina de ondas dessa nova geração foi anunciada em 2015?

O mercado está crescendo exponencialmente, de duas tecnologias de ondas viáveis em 2015 para mais de 10 hoje, com 10 novos parques de surfe previstos para abrir este ano e 12 no próximo. O mercado tem dobrado de tamanho a cada poucos anos.

  1. O setor parece estar se expandindo rapidamente. Quais fatores econômicos, tecnológicos ou culturais estão impulsionando esse crescimento atualmente? 

Opções diversificadas em termos de tecnologia. Modelos de negócio cada vez mais comprovados e exemplos de sucesso. O acesso ao capital é atualmente o único fator limitante, e isso está se tornando mais fácil; há também modelos inovadores aproveitando imóveis residenciais e modelos de clubes privados — por exemplo, há 7 desses em andamento a menos de 1,5 hora de carro entre si ao redor de São Paulo.

  1. Parques de surfe, piscinas de ondas em condomínios, lagos de surfe, lagoas de surfe etc. Em 2023, a Surf Park Central publicou o artigo “Surf Parks Nomenclature: Why Words Matter.” Na sua perspectiva, o termo “parques de surfe” (surf parks) ainda é analiticamente útil para descrever a diversidade de projetos nessa indústria, ou o setor requer uma terminologia mais diferenciada? 

Acho que ainda funciona como termo genérico. Agora precisamos ser mais específicos quanto ao tipo particular de modelos de negócio, por exemplo: público, privado, residencial, uso misto, parque aquático.

  1. Como você caracterizaria as representações midiáticas dos parques de surfe? Percebeu mudanças na forma de enquadramento, no discurso ou nas narrativas dominantes ao longo do tempo?

Varia. A mídia não especializada em surfe tem dificuldade em entender os parques de surfe, assim como o público que não surfa. Eles não conseguem entender porque um parque de surfe funcionaria ao lado do oceano. Os veem como um desperdício de água e energia, um gasto frívolo de recursos. Discordo fortemente dessa posição, mas essa é uma percepção comum. Houve artigos sobre parques de surfe propostos em áreas ambientalmente importantes. Concordo que esses não são os lugares para se construir parques de surfe. Idealmente eles são construídos em locais contaminados ou em áreas já urbanizadas, com transporte público agregado, e oportunidades para se aproveitar energia renovável e água reciclada.

  1. Acredita que a expansão dos parques de surfe está remodelando a cultura do surfe, práticas, noções de autenticidade e identidades? 

Com certeza, embora isso esteja limitado agora pelo número de parques de surfe (30 atualmente, 40 no ano que vem, mais de 50 no ano seguinte).

  1. Você vê potencial para que os parques de surfe estabeleçam mecanismos financeiros coletivos ou fundos setoriais destinados a proteger ecossistemas de surfe e ambientes costeiros? 

Acho que a indústria poderia muito facilmente financiar toda a conservação dos ecossistemas de surfe em 20 anos, introduzindo uma sobretaxa de 2% que fosse destinada a um fundo de conservação de ecossistemas de surfe. Estou trabalhando com a Conservation International para tentar tornar isso realidade.

  1. Quais exemplos de iniciativas de sustentabilidade dentro do surfe — seja em parques de surfe ou em contextos oceânicos — você considera particularmente significativos hoje? 

Acredito que áreas protegidas de surfe, world surfing reserves, hotéis de surf certificados como sustentáveis e outras iniciativas que realmente envolvem as comunidades na conservação de seus recursos de surfe e da economia local, que frequentemente depende da saúde desses ecossistemas, são realmente importantes.

  1. Quais são seus interesses de pesquisa atuais e como você vê o campo dos estudos sobre surfe evoluindo nos próximos anos? 

Tenho bastante interesse em parques de surfe, seus mercados e as atitudes dos usuários de parques de surfe, particularmente em relação a questões de sustentabilidade e à disposição em pagar pela sobretaxa que mencionei.

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