Narciso Mauricio Dos Santos1
Eduarda Souza Santos2
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
“Na miséria de situações de penúria, o ordinário da
comunicação tira proveito da presença da mídia.”
(Certeau & Giard, 1983 apud Josgrilberg, 2005, p. 95).
Esse texto discute o esporte como vitrine midiática a partir de dois contrapontos centrais do esporte espetáculo veiculado nas mídias sociais, levando em conta o termo esporte enquanto fenômeno complexo “atividade de lazer” (Bracht, 2011, p.25) e heterogêneo que reflete, produz e transforma relações sociais, cultura e valores na sociedade contemporânea.
Assim, o foco é pautado em evocar mudanças globais “pelo” esporte e “com” o esporte, e se articular de forma positiva ao mundo do esporte como uma tentativa de melhorias de uma sociedade.
Para esse contexto Bracht (2011, p. 25) traz a nomenclatura de “esporte espetáculo” e destaca que ocorre a “transformação do esporte em mercadoria veiculada pelos meios de comunicação”. Isso ainda é um caminho, no entanto precisamos entender o papel das mídias sociais e qual é essa relação do atleta, do esporte e das mídias juntamente à prestação de um serviço capitalista.
Nesse contexto, tentar positivamente afetar o mundo usando o esporte e ter as mídias sociais como ferramenta desse processo de deslocamento e inserção entre as pessoas se torna um dos trajetos para apresentar o esporte como uma solução viável e significativa de transformação.
Diante do exposto, os contrapontos que sinalizaremos aqui, e tentarmos apresentar as mídias sociais como elemento favorável ao atleta de alto rendimento e para as marcas que ele divulga se caracterizando como opção rentável de seu marketing pessoal e esportivo; no outro contraponto, apresentamos as nuances que são postas pelas mídias sociais interferindo de forma significativa no treinamento esportivo e no performar do atleta, pois algumas postagens polêmicas podem reverter seu foco e interferir no seu rendimento. Seguiremos apresentando e analisando os contrapontos.
1– Professor da UNIBR/São Vicente/SP. Licenciado em Educação Física e Pedagogia. Mestre em Educação pela UMESP (Universidade Metodista de São Paulo/SP).
2 – Graduanda em Relações Públicas pela UEL (Universidade Estadual de Londrina). Atleta da modalidade esportiva Atletismo nas provas de 100, 200 e 400 metros rasos.
CONTRAPONTO 1: Mídias sociais como elemento favorável no esporte
Iniciando esse contraponto, convém chamar a atenção ao termo “desmediatização” (Han, 2018) que se caracteriza em permitir pessoas comuns produzindo e fabricando informações de forma diretiva, sem a mediação tradicional de jornalistas, com isso, tornando a comunicação uma ação ativa e imediata.
Para esse cenário, Han (2018 apud Hissa 2021, p.58) destaca que “a comunicação digital se caracteriza pelo fato de que as informações contemporaneamente são produzidas, enviadas e recebidas sem intermediários”. Se apropriando do conceito de Han (2018) e articulando ao esporte de alto rendimento, enaltecemos quando os atletas se utilizam de suas mídias sociais direcionando imagens aos seus inúmeros seguidores que adquiriram a partir de suas exposições no cenário midiático para tornar a sua modalidade esportiva uma vitrine para grande massa consumidora, mostrando seus treinos, suas performances e as competições que gera capital. Sem contar que seus patrocinadores enaltecem todas curtidas (Likes) e divulgação das marcas fica nas mãos desses atletas e em suas vestimentas e modalidade esportiva. A isso, chamamos a atenção ao que destaca Bracht (2011, 26) e reforça “que o esporte de alto rendimento ou espetáculo, aquele imediatamente transformado em mercadoria, tende, a nosso ver, a assumir (…) as características dos empreendimentos do setor produtivo com fins lucrativos”.
Mas, nem tudo que aparece e é produzido nas mídias sociais tendo o esporte de alto rendimento como elemento norteador e foco, pode ser visto sobre a ótica do lucro capitalista.
Welsch (2001, p.158) a esse assunto faz um importante contraponto destacando que:
Ao negligenciar o caráter artístico do esporte, deixamos de compreender por que ele é tão fascinante para o grande público. Na realidade, o verdadeiro fascínio do esporte deriva de aspectos que, de forma diversa, estamos habituados a experimentar e admirar nas artes.
Acreditamos para essa discussão, que o caráter estético do esporte através de sua imagem o torna fascinante para a sociedade, enaltecendo o seu poder de visibilidade e popularidade, principalmente à algumas modalidades esportivas.
Melo (2016, p. 117) expressa que a imagem do esporte para a sociedade e a visibilidade da marca, “ampliou o acesso à prática esportiva, primeiro nos cinemas, posteriormente nas televisões, recentemente com os recursos da telemática. Por outro lado, todos passam a ter acesso a um discurso mediado”.
Esse cenário para Debord (1997, p. 14) caracteriza que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas, uma relação social, mediada por imagens”. Assim, sobre as imagens esportivas e seus diversos números apresentados pelos atletas em suas práticas na busca por resultados, segundo Melo (2016, p. 122) invadem o “cotidiano se articula a um processo de potencialização do consumo. Se tivermos em conta o número de produtos que a todo instante ocupam as transmissões de esportes, podemos fazer um paralelo (…)”.
Nesse segundo contraponto que segue, vamos apresentar o reverso da deformação que pode ser proporcionada pelas mídias sociais levando o atleta de performance a um declínio de sua vida esportiva pela exposição desregulada e imprudente nas mídias sociais.
CONTRAPONTO 2: Mídias sociais interferindo de forma significativa no esporte
Apesar das mídias sociais proporcionarem visibilidade e oportunidades comerciais ao esporte e aos atletas, também é necessário compreender os impactos negativos que essa exposição constante pode causar no rendimento esportivo.
Nesse contexto, as redes sociais deixam de ser apenas ferramentas de comunicação e passam a influenciar diretamente aspectos emocionais, psicológicos e comportamentais dos atletas de alto rendimento.
Para discutirmos essa questão, é pertinente recorrer ao pensamento de Bauman (2001), ao abordar a modernidade líquida como um período marcado pela instabilidade das relações, pela necessidade constante de aceitação social e pela busca contínua por visibilidade.
No ambiente digital, essa lógica se intensifica, pois os indivíduos passam a viver em função da exposição permanente e da validação do outro. Aplicando essa reflexão ao esporte, percebe-se que muitos atletas se tornam dependentes da aprovação virtual, medida por curtidas, comentários e número de seguidores, gerando um possível vício.
Essa necessidade de constante reconhecimento pode interferir significativamente na concentração e no desempenho esportivo. O atleta, além de lidar com as exigências físicas e técnicas da modalidade, passa também a administrar sua imagem pública nas plataformas digitais.
Melo (2016, p.107) chama a atenção mencionando que “esse apelo deve ser entendido também pelo reposicionamento da imagem em meio a complicadas práticas discursivas e semióticas que a enquadram”.
Assim, treinamentos, competições e momentos pessoais tornam-se conteúdos compartilháveis, fazendo com que a vida esportiva seja atravessada pelas demandas da visibilidade midiática.
Novamente Melo (2016, p.108) menciona a respeito desse contexto que as “chaves para entender a popularidade do fenômeno esportivo é seu potencial estético, sua capacidade de envolver os indivíduos por meio dos sentidos-sons, olhares, gestos, até mesmo cheiros e sabores”.
Além disso, as mídias sociais ampliam a pressão psicológica sobre o atleta. Comentários ofensivos, críticas excessivas e ataques virtuais podem gerar ansiedade, insegurança e desgaste emocional, afetando diretamente sua performance.
Castells (2003), ao discutir a sociedade em rede, destaca que a comunicação digital possui capacidade de disseminação instantânea e alcance global, potencializando tanto o reconhecimento quanto os conflitos e julgamentos públicos. Dessa forma, qualquer publicação ou posicionamento do atleta pode rapidamente ganhar grande repercussão, positiva ou negativa.
Outro aspecto importante é que as mídias sociais contribuem para a construção de uma cultura de vigilância constante, na qual o atleta se sente permanentemente observado. Tal cenário pode ocasionar distrações e perda de foco nos objetivos esportivos, principalmente quando questões externas passam a ocupar espaço significativo em sua rotina.
Em alguns casos, a exposição exagerada pode até mesmo comprometer relações profissionais, contratos publicitários e a própria continuidade da carreira esportiva.
Portanto, embora as mídias sociais sejam relevantes para a divulgação do esporte e fortalecimento do marketing pessoal dos atletas, também apresentam consequências que precisam ser analisadas criticamente. A busca incessante por visibilidade, reconhecimento e aprovação virtual pode gerar impactos emocionais e psicológicos capazes de interferir no rendimento esportivo.
Assim, compreender o esporte contemporâneo exige refletir sobre como as dinâmicas digitais afetam não apenas a imagem do atleta, mas também sua saúde emocional e sua performance dentro das competições. Por isso, o equilíbrio é imprescindível.
CONSIDERAÇÕES PARA O MOMENTO…
Nesse texto cuja discussão foi pautada na discussão no esporte como vitrine, notamos os dois contrapontos articulados ao esporte de alto rendimento e observamos que ambos são importantes para as relações e os papéis que ocupa o esporte na era da tecnologia midiática, bem como chama a atenção para os cuidados que atletas e patrocinadores precisam ter frente a uma exposição exacerbada nas mídias e suas intencionalidades.
Numa sociedade extremamente capitalista e em busca de resultados, temos que entender o papel ocupado pelo esporte enquanto fenômeno cultural, e ao olhar para esse esporte a partir dos escritos de Ruiz (2002, 34) para entender que “o esportista seduz a imaginação das sociedades modernas cuja máxima expressão (…) proporciona uma versão atualizada do herói clássico (…)”.
Finalizamos deixando uma reflexão ao olhar de Saramago (1995, p.10) quando expressa que “se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Z. A modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BRACHT, V. Sociologia Crítica do Esporte: uma introdução. 3 ed. Ijuí: Unijuí, 2011. CASTELLS, M. A sociedade em rede. 6. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
DEBORD, G. A sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
HAN. B. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis-RJ: Vozes, 2018.
HISSA, D. L. A. Desmediatização, Infodemia e fake news na cultura digital. Scripta, v. 25, n. 54, p. 40-67, 2021. Disponível em: Revista Scripta da PUC Minas. Acesso em: 14 mai. 2026.
MELO, V. A. Experiências (modernas) compartilhadas: esporte (corpo) – (imagem) cinema. In: Soraia Chung Saura, Ana Cristina Zimmermann. (Org.). Cinema e Corpo. 1ª ed.São Paulo: Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária? USP/Editora Laços, 2016, v. 1, p. 107-130.
RUIZ, J. L. La unión de dos ofertas culturales del siglo XX. Sevilha: Festival de cinema. 2002.
SARAMAGO, J. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 10. WELSCH, W. Esporte – visto esteticamente e mesmo como arte? In: ROSENFIELD, D. L. (Org.). Ética e estética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. p. 142-165.
