MANIPULAÇÃO DE APOSTAS NO FUTEBOL: UMA LEITURA A PARTIR DA NOÇÃO DE DÁDIVA

Introdução

Neste texto, abordo os casos dos jogadores Bruno Henrique (Flamengo, Brasil) e Lucas Paquetá (West Ham, Inglaterra), que em tempos recentes foram acusados de envolvimento com esquemas de apostas esportivas, visando beneficiar financeiramente parentes e amigos. Ambos foram julgados e receberam as seguintes sentenças: Paquetá foi absolvido de todas as acusações [1] e Bruno Henrique teve apenas de pagar uma multa [2], penalidade considerada branda por muitos, que projetavam uma longa suspensão ou até mesmo o banimento dos referidos atletas.

Em ambos os casos, algo que chamou atenção e gerou muitos debates foi o fato de que os jogadores acusados atuam por grandes clubes, pertencentes à elite do futebol nacional e mundial, recebem altíssimos salários e encontram-se em momentos especiais de suas carreiras: Bruno Henrique pode ser considerado um ídolo histórico da torcida do Flamengo, dado seu protagonismo em uma das gerações mais vitoriosas da história do clube, e desfruta ainda de grande reconhecimento no cenário nacional; Lucas Paquetá atua em uma das ligas mais importantes do mundo, desfruta de certo prestígio internacional, vem sendo convocado com frequência para a Seleção Brasileira e tem grandes chances de vir a disputar a Copa do Mundo de 2026 como integrante do escrete nacional. 

Sendo assim, o que levaria atletas tão conhecidos, bem-sucedidos e bem remunerados a se envolverem com esquemas ilegais de apostas esportivas, colocando até mesmo a continuidade de suas carreiras em risco? Seria uma simples questão de ganância, na medida em que, para certas pessoas, dinheiro nunca é demais? Talvez uma questão de poder e vaidade, por se sentirem acima da lei? Ou ainda, uma questão de ignorância e ingenuidade, pois não tiveram uma boa formação em termos de educação formal e são mal orientados, ou até mesmo explorados, por parentes, amigos e empresários? 

No presente texto, apresento uma outra possibilidade de interpretação desses casos, tendo como referência a clássica teoria da dádiva desenvolvida por Marcel Mauss e tão bem mobilizada por Arlei Damo em suas investigações sobre o universo cultural do futebol. 

 

O avanço das bets no Brasil

Nos últimos anos, tivemos um grande avanço na atuação de casas de apostas no Brasil e no mundo, principalmente no meio virtual. Essas empresas não estão relacionadas apenas ao universo esportivo e podem funcionar de diferentes maneiras. No Brasil, um modelo que ficou muito conhecido foi o fortune tiger, popularmente chamado de “jogo do tigrinho”, em virtude da utilização de um “tigre da sorte” chinês como principal símbolo na identidade visual deste cassino online. Trata-se de um simulacro de máquinas de caça-níquel, no qual o apostador precisa apenas girar uma roleta virtual e torcer por uma combinação de figuras ao acaso que possa lhe render uma premiação em dinheiro, multiplicando a quantia investida inicialmente [3]

Tal como costuma acontecer nos cassinos tradicionais, são recorrentes os casos de apostadores que conseguem bons resultados em suas primeiras apostas, recebendo até bônus e créditos como incentivo para que sigam jogando, mas que acabam acumulando prejuízos e até mesmo perdendo tudo conforme o jogo vai avançando: primeiro pela expectativa de faturar cada vez mais, depois pela tentativa de minimizar perdas e recuperar ao menos parte do que foi investido. Além disso, são comuns as barreiras impostas pelas casas de apostas aos jogadores que tentam resgatar suas premiações ao invés de seguirem apostando, condicionando a retirada a quantias específicas. Assim, mesmo quando não sai no prejuízo, o jogador se vê impedido de receber o que lhe é de direito. 

No caso do futebol, são mais variadas as possibilidades de apostas, além de mais específicas. Pode-se apostar, por exemplo, no resultado geral de uma partida (quem vence, quem perde, ou se haverá empate), no placar exato de um jogo, ou ainda, em quem serão os autores dos gols em dado confronto. Mas também é possível apostar na quantidade de cartões amarelos ou vermelhos que serão distribuídos pelo árbitro e quem irá recebê-los, na quantidade de faltas, pênaltis, escanteios e laterais assinalados, no tempo acrescido ao fim de cada etapa do jogo etc. Essa ampla gama de opções acaba dificultando o controle das apostas aumentando a possibilidade de manipulação de eventos corriqueiros que não costumam ter um impacto tão grande no resultado das partidas.

 

O avanço das bets no futebol brasileiro

Nos últimos anos, o futebol brasileiro foi inundado por inúmeras empresas de bets, que se tornaram as maiores patrocinadoras dos principais clubes e competições do país. Assim, tanto o Campeonato Brasileiro quanto a Copa do Brasil, por exemplo, são patrocinados atualmente pela Betano, bem como o Flamengo, clube mais rico e mais popular do continente sul-americano. Além disso, todos os clubes participantes da primeira divisão do campeonato brasileiro de 2025 contam com casas de apostas entre seus principais patrocinadores, o que sugere um quadro geral de dependência com relação aos investimentos feitos por essa modalidade de empresas [4]

Paralelamente ao avanço das casas de apostas, temos também um crescimento das suspeitas, denúncias e investigações de casos ligados à manipulação de resultados. Dentre as inúmeras ocorrências registradas até o momento, podemos destacar um grande esquema que ficou publicamente conhecido em virtude da operação Penalidade Máxima [5], que resultou em severas punições aos jogadores envolvidos, incluindo multas, suspensões e até mesmo o banimento de alguns deles. 

A gravidade das punições aos atletas neste caso foi justificada pelas autoridades por sua atuação sistemática em manipulações que não só lhes renderam significativos ganhos financeiros pessoais, como também acarretaram sérios prejuízos aos clubes pelos quais atuavam na ocasião. Vale ressaltar que todos os jogadores envolvidos neste esquema atuavam por clubes pequenos e médios de divisões inferiores do futebol brasileiro, recebendo salários modestos em comparação ao que é praticado atualmente pelos grandes clubes da Série A – o que nos leva a uma comparação com os casos de Bruno Henrique e Lucas Paquetá. 

Bruno Henrique foi investigado por suspeita de manipulação em virtude de um cartão amarelo recebido por ele em uma partida contra o Santos válida pelo Campeonato Brasileiro de 2024. Na ocasião, uma empresa de bets identificou um número elevado de apostas envolvendo o cartão amarelo recebido pelo jogador e denunciou essa movimentação anormal às autoridades competentes. Posteriormente, investigações encontraram mensagens de texto que indicavam que Bruno Henrique teria comunicado a seu irmão que tomaria um cartão amarelo naquela partida, possibilitando que esta informação privilegiada fosse utilizada por ele com vistas à manipulação de apostas. 

Em seu julgamento, no entanto, o atleta contou com o apoio do próprio Flamengo (clube pelo qual atua) em sua defesa, alegando que teria “forçado” o terceiro cartão amarelo em acordo com a comissão técnica do clube, uma prática comum visando garantir a disponibilidade do atleta em partidas mais importantes. No fim das contas, em decisão polêmica que gerou muito debate, Bruno Henrique foi condenado apenas ao pagamento de uma multa, mas não chegou a ser suspenso ou banido do futebol, como se projetava, o que gerou suspeitas de que o ele teria sido agraciado com a benevolência dos jurados por ser uma pessoa “conhecida” e por atuar em um clube grande e influente, às vésperas de jogos decisivos – em contraste com as duras punições recebidas pelos atletas envolvidos no esquema referido anteriormente. Contudo, além das brechas legais exploradas pela defesa do jogador, tal punição mais branda teria se justificado pela ausência de ganhos financeiros pessoais comprovados, bem como de danos ao clube pelo qual atua (e que lhe prestou apoio durante o julgamento, como dissemos). 

O caso de Lucas Paquetá é semelhante ao de Bruno Henrique em vários aspectos. O jogador também foi investigado em virtude de cartões amarelos recebidos em diferentes partidas do West Ham pelo campeonato inglês (Premier League) combinados ao registro de volumes anormais de apostas prevendo que tal advertência seria direcionada ao atleta. Para piorar, a maioria dessas apostas provinham da Ilha de Paquetá, bairro carioca de origem do jogador (daí seu apelido, que virou praticamente um sobrenome), contando entre os felizardos adivinhos alguns de seus parentes e amigos que ainda residem na ilha. 

Após longa investigação e muitas especulações acerca do possível banimento do atleta, tido por muitos como inescapável diante da histórica severidade da justiça desportiva inglesa, Paquetá foi absolvido de todas as acusações, em função da ausência de provas materiais de sua participação no esquema denunciado, não se observando, mais uma vez, quaisquer sinais de ganhos financeiros pessoais por parte do acusado. Durante o período em que esteve sob investigação, Paquetá teve sua carreira prejudicada, deixando inclusive de ser convocado para seleção brasileira até que sua inocência fosse reafirmada. 

 

A lógica da dádiva no futebol

No livro “Do dom à profissão” (2007), Arlei Damo desenvolve uma abordagem antropológica sobre o processo de formação de jogadores de futebol. Em sua pesquisa, ele destaca a existência de uma representação cultural, amplamente compartilhada entre aqueles que fazem parte deste universo simbólico, segundo a qual o talento dos jogadores, sua aptidão “natural” para a prática do futebol, seria uma espécie de dom concedido por Deus, de modo que a decisão de se dedicarem a essa atividade, culminando em sua conversão em atletas profissionais, seria quase como o atendimento a um chamado divino – ou seja, uma vocação. 

Tal representação conduz o autor a uma análise fundamentada na clássica teoria da dádiva elaborada por Marcel Mauss (2025). Segundo o célebre sociólogo francês, em contraste com a racionalidade e impessoalidade que regem as relações sociais e econômicas na modernidade, encontraríamos em sociedades pré-modernas um padrão de relações pautadas no afeto e na pessoalidade. Neste contexto, as relações de troca seguiriam o regime da dádiva, que é marcado pelas obrigações de dar, receber e retribuir. Assim, quando alguém oferece um presente, a outra pessoa ou grupo tem a obrigação de aceitá-lo e de retribuí-lo em algum momento, processo que se encontra na base de formação e manutenção de laços sociais. 

Mas quando o presente se origina de uma graça divina, como retribuí-lo? Certamente existem diferentes formas de oferendas, sacrifícios e rituais que têm por objetivo retribuir as dádivas alcançadas graças aos favores dos deuses. Contudo, uma forma milenar de retribuição a este tipo de dádiva se dá através da ajuda à comunidade e aos familiares (instância muitas vezes entendida também como sagrada e divina. 

Transportando essa lógica para o universo do futebol, podemos mencionar a fundação de projetos sociais e instituições de caridade por parte de atletas e ex-atletas consagrados, os quais teriam se tornado ricos e famosos graças ao talento que lhes foi concedido pela divindade. Além disso, são recorrentes os casos de jogadores que buscam ajudar seus familiares de diferentes maneiras, como através da compra de casas, carros, mesadas, empréstimos, etc. Trata-se de uma forma de retribuir a seus pais e mães, por exemplo, que não só lhes puseram no mundo e lhes deram a graça da vida, mas que de modo frequente são retratados como aqueles que sempre apoiaram e acreditaram no sonho de seus filhos de se tornarem jogadores de futebol, realizando sacrifícios para que esse objetivo pudesse ser alcançado. 

O suposto envolvimento de Bruno Henrique e Lucas Paquetá com esquemas de apostas para beneficiar parentes e amigos parece se encaixar nesta lógica de retribuição. Afinal, nenhum dos dois teria alcançado nenhum tipo de ganho pessoal significativo de ordem material nos casos que os levaram a serem investigados. Seria, portanto, uma forma altruísta de participação nas supostas fraudes. 

Vale destacar que ambos os atletas mencionados são inocentes, até que se prove o contrário – Paquetá foi oficialmente absolvido, mas Bruno Henrique segue respondendo a um processo na justiça comum [6]. Ainda assim, a lógica de retribuição que se encontra no cerne do regime da dádiva nos oferece uma possibilidade de leitura e de compreensão de algo que poderia parecer meramente irracional num primeiro momento. 

 

Referências bibliográficas

[1] Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2025/07/31/lucas-paqueta-do-west-ham-e-absolvido-de-acusacao-de-envolvimento-com-apostas.ghtml

[2] Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/2025/11/13/stjd-aplica-multa-em-bruno-henrique-mas-atacante-do-flamengo-esta-liberado-para-jogar.ghtml

[3] Disponível em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2024/06/18/o-que-e-o-jogo-do-tigrinho-e-por-que-ele-e-ilegal-no-brasil.ghtml

[4] Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2025/03/11/todos-os-clubes-do-brasileirao-2025-sao-patrocinados-por-bets.ghtml

[5] Disponível em: https://ge.globo.com/pr/futebol/noticia/2024/09/27/penalidade-maxima-como-estao-os-jogadores-punidos-no-esquema-de-apostas-esportivas.ghtml

[6] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2025-12/justica-torna-bruno-henrique-reu-por-estelionato

DAMO, Arlei Sander. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na

França. São Paulo: Hucitec, Anpocs, 2007.

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. Petrópolis: Vozes, 2025.

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