Marie-Louise Eta e Union Berlin fazem história: Primeira treinadora de um time masculino da Bundesliga

Uma notícia tem dominado diversos órgãos e canais da imprensa alemã desde a última semana: a indicação de Marie-Louise Eta como treinadora do 1. FC Union Berlin, clube que disputa a Bundesliga, a primeira divisão do futebol alemão. A primeira mulher treinadora de um time masculino substituiu o técnico Steffen Baumgart, demitido em 11 de abril de 2026 após derrota do clube contra o 1. FC Heidenheim, lanterna da competição. 

Antes de iniciar a carreira como técnica, Marie-Louise Eta atuou como jogadora de sucesso, integrando a equipe feminina do 1. FFC Turbine Potsdam, clube no qual conquistou três campeonatos nacionais e o título da Liga dos Campeões em 2010. Nascida na cidade de Dresden em 07 de julho de 1991, pouco menos de um ano após a Reunificação do país, a atleta destacou-se também nas categorias de base da seleção feminina da Alemanha, com a qual conquistou o Campeonato Europeu Sub-17 em 2008 e o Campeonato Mundial Sub-20 em 2010. Entretanto, uma série de lesões fez com que a jogadora encerrasse sua carreira ainda jovem, em 2018, aos 26 anos de idade. O final da carreira como jogadora levou-a a buscar trilhar uma nova carreira, igualmente marcada por sucesso: a de treinadora. 

Neste breve artigo, enfocaremos, justamente, o tratamento dado na imprensa alemã à notícia da indicação de Marie-Louise Eta para o cargo de treinadora interina da equipe masculina do Union Berlin nas últimas cinco rodadas faltantes da atual temporada do campeonato alemão. Ainda durante a carreira como jogadora no SV Werder Bremen, onde atuou até a temporada 2017-2018, a atleta assumiu o comando técnico da equipe feminina Sub-15 em 2014, sua primeira experiência fora das quatro linhas. Em 2021, três anos após pendurar as chuteiras prematuramente, Marie-Louise Eta foi nomeada pela Federação Alemã de Futebol (DFB) ao cargo de auxiliar técnica da seleção feminina Sub-15. Paralelamente, concluiu diversos cursos de formação, incluindo o curso de Licença Profissional da Academia da DFB em Frankfurt, em 2022, sendo a única mulher em sua turma. Desde então, a treinadora também foi oficialmente autorizada a atuar como técnica principal na primeira e na segunda divisão do campeonato alemão.

Entretanto, Marie-Louise Eta não foi a primeira mulher a atuar na comissão técnica de times de futebol masculino na Alemanha. Em 2019, a jogadora Inka Grings treinou o SV Straelen, clube da quarta divisão, e em meados de abril de 2020, a treinadora Imke Wübbenhorst assumiu o comando do Sportfreunde Lotte, clube da região da Renânia, que disputa a 3ª divisão (Regionalliga West; Liga Regional Ocidental), durante a pausa na temporada, decorrente da pandemia de Covid-19.

Desde 2023, Marie-Louise Eta, atualmente com 34 anos, já atuava no clube como auxiliar técnica e, posteriormente, como treinadora principal da equipe masculina Sub-19. Desta feita, ascendeu ao posto de treinadora chefe e comandará o Union Berlin, interinamente, até o final da temporada 2025-2026, que já tem um campeão: o todo poderoso F.C. Bayern München, que, mais uma vez, não teve adversários à altura e levantará a Salva do Campeão (Meisterschale) pela 35ª vez na história da Bundesliga. O próprio site do torneio, assim, anunciava em 15 de novembro de 2023 a ascensão de Marie-Louise Eta, que havia chegado ao Union Berlin alguns meses antes, vinda do SV Werder Bremen, ao posto de auxiliar técnica do treinador Marco Grote: “Assim, aos 32 anos, ela torna-se a primeira mulher a estar à beira do campo, na comissão técnica de um time da Bundesliga1. (BUNDESLIGA, 2023)

Em 13 de abril de 2026, o Portal de Notícias para Berlim e Brandenburgo, rbb24, publicou uma matéria intitulada „Baumgart-Nachfolgerin: Union Berlin wehrt sich gegen Sexismus gegenüber Eta“ (“Sucessora de Baumgart: Union Berlin se defende do sexismo direcionado à Eta”), a qual exibe o posicionamento do clube diante de críticas de cunho sexista desferidas contra a nova treinadora nas redes sociais: “‘Mas é exatamente isso que você é, um sexista’, respondeu a equipe de Köpenick a um comentário indecente de um usuário do X. O usuário havia escrito: ‘O técnico da Bundesliga, que perder para ela, perderá a face para sempre. Não há, penso eu, nada mais vergonhoso’”. (BAUMGART-NACHFOLGERIN, 2016) Até o dia 14 de abril, essa postagem havia gerado 03 comentários: de “Udo” – “Sexistas = homens fracos, inseguros”; de “Atze” – “Deixem-na trabalhar em paz. Como é com todo novo treinador”; de Eiskalle – “Essa gente que expressa tais comentários sexistas tem titica na cabeça, para não dizer um vazio. Para mim, o que conta é somente o desempenho da pessoa e nada mais” (BAUMGART-NACHFOLGERIN, 2016).

Por sua vez, o modo como o rbb24 constrói a matéria indica seu repúdio a comentários sexistas, solidarizando-se com Marie-Louise Eta e com o próprio clube, legitimando, para isso, seu posicionamento ao relatar ou mesmo citar argumentos publicados pelo departamento de imprensa do Union Berlin:

A família Union Berlin está ao lado dela. O clube de Köpenick defendeu sua treinadora contra mensagens de ódio, chamando-a de “deusa do futebol”. Em resposta a uma publicação que afirmava que nenhum jogador leva a sério uma mulher que fala sobre táticas ou futebol, o clube respondeu: “Com todo o respeito, isso é sexismo”. Muitos usuários elogiaram a resposta do clube. (BAUMGART-NACHFOLGERIN, 2016)

Reações como essas decorreram do modo controverso e, em alguns casos, preconceituoso, como a mudança de técnico do clube do bairro berlinense de Köpenick passou a ser comentada nas redes sociais. Pode-se dizer, aliás, que o primeiro verso do hino do Union Berlin, Eisern Union, eternizado na voz de Nina Hagen, um ícone do punk e do rock alemão dos anos 1970 e 1980 – “Nós do lado oriental vamos sempre avante” (CORNELSEN, 2019) – reforça o lado vanguardista do clube, “avante” também no combate ao sexismo e na valorização do trabalho e da competência de uma profissional no comando da equipe masculina.

Um dos destaques da cobertura esportiva da indicação de Marie-Louise Eta para o posto de treinadora interina foi a entrevista concedida por ela ao jornalista Dennis Wiese, do Portal de Notícias para Berlim e Brandenburg, rbb24, na qual Eta se posicionou sobre o momento da carreira e também sobre o significado que a sua indicação pode ter para outras mulheres no âmbito do futebol. Ao ser indagada se o início da carreira dela como treinadora de uma equipe masculina na Bundesliga poderia abrir portas para muitas jovens que estão começando a jogar futebol, Marie-Louise Eta respondeu: 

Entendo que este é um assunto de grande interesse público e que pode ter um impacto na sociedade. Mas essa não era minha intenção; nunca foi algo que eu almejasse. No entanto, tentei abraçar este papel e estou feliz pela confiança depositada em mim e por poder trabalhar na Bundesliga. No fim das contas, tudo se resume ao futebol. Claro, é gratificante inspirar uma ou outra mulher com isso – e que isso abra uma ou outra porta a elas. (ETA apud WIESE, 2026)

Uma das primeiras matérias que focaram a questão de gênero de maneira crítica e aprofundada no contexto da indicação de Marie-Louise Eta para o cargo de treinadora interina do Union Berlin foi publicada pelo órgão de imprensa do canal de rádio Deutschlandfunk em 14 de abril de 2026, intitulada „Hetze gegen Marie-Louise Eta – Kommentar: Trainerin in der Männer-Bundesliga sollte normal sein“ (“Discurso de ódio contra Marie-Louise Eta – Comentário: Uma treinadora na Bundesliga masculina deveria ser normal”), assinada pela jornalista Andrea Schültke. O lead da matéria reafirma o tom de ódio e preconceito que grassou nas redes sociais com a indicação da treinadora: “Uma mulher assume o comando técnico de um time masculino da Bundesliga. Marie-Louise Eta, a nova treinadora do Union Berlin, enfrenta uma onda de ódio nas redes sociais. Eta permanece uma pioneira até que seja normal mulheres treinarem homens”. (SCHÜLTKE, 2026) Em tom combativo, Andrea Schültke, argumenta que mulheres que atuam em diversas funções profissionais são alvo de preconceito, tomando por exemplo a treinadora:

Não podemos discutir a presença de uma mulher como treinadora principal de um time masculino da Bundesliga como algo completamente normal? Não. Árbitras, CEOs, comentaristas esportivas e até mesmo treinadoras ainda enfrentam hostilidade no exercício de suas funções. As mulheres que assumem esses papéis são guerreiras. Elas abrem caminho para todas as que vêm depois delas. (SCHÜLTKE, 2026)

Na matéria em questão, a jornalista apresenta um olhar acurado para toda a polêmica gerada pela indicação da nova treinadora interina do Union Berlin não como um caso isolado, mas como algo que escancara o machismo e o sexismo na sociedade, algo patente no modo como ela denuncia o status quo e, ao mesmo tempo, reconhece que algo está mudando, mesmo que ainda não na dimensão e na premência que se espera:

Estas são mulheres que se recusam a ser intimidadas pelo ódio e pelo sexismo, e que, esperançosamente, podem contar com o apoio sincero dos homens no futebol. Homens que já reconsideraram suas posições. Homens que entendem que não há mais como ignorar as mulheres, inclusive como treinadoras principais na Bundesliga masculina. (SCHÜLTKE, 2026)

Para Andrea Schültke, a própria competência da treinadora justificaria sua indicação, algo que, portanto, não seria de modo algum surpreendente, mas apenas pautado pelo bom senso dos dirigentes do Union Berlin: 

Provavelmente, a direção do 1. FC Union Berlin também pensou assim. Para eles, promover Marie-Louise Eta após a demissão de Steffen Baumgart e seus auxiliar técnico foi simplesmente o próximo passo lógico. Ela possui a mais alta licença de treinadora do futebol e conhece o clube e a equipe há anos. (SCHÜLTKE, 2026)

De maneira precisa, a jornalista trata do tema no sentido de demonstrar não só o significado da indicação de Marie-Louise Eta para o futuro de mulheres na Bundesliga masculina, como também o próprio histórico da ex-jogadora e treinadora licenciada pelo órgão máximo do futebol alemão, o Deutscher Fussball-Bund (DFB): 

Então, ela conhece bem os meandros da vida de mulher no mundo do futebol, um ambiente dominado por homens. Assim como seu clube, ela provavelmente estava preparada para o ódio e o sexismo que as mulheres em posições de liderança no futebol masculino ainda enfrentam. É bom ver que os comentários negativos nas redes sociais são rapidamente silenciados por outros usuários e pelo clube. Talvez tenhamos avançado um pouco em relação à presença de mulheres em posições de liderança no mundo dos esportes, um ambiente predominantemente masculino, e especialmente no futebol. (SCHÜLTKE, 2026)

Por fim, Andrea Schültke ressalta em sua matéria a importância da decisão do clube e também o papel pioneiro desempenhado por Marie-Louise Eta. Mesmo que por um curto espaço de tempo, nas últimas rodadas desta temporada da Bundesliga, a treinadora servirá de exemplo para outras que, futuramente, lutarão por inserção nesse e em outros âmbitos profissionais dominados por homens:

Após cinco jogos como treinadora da equipe masculina do Union Berlin, Marie-Louise Eta deixará o cargo para assumir o comando da equipe de mulheres do Union Berlin na Bundesliga feminina. Com isso, ela terá demonstrado, de forma pioneira, que mulheres podem trabalhar como treinadoras de equipes masculinas da Bundesliga. Esse caminho poderá, então, facilitar o ingresso de suas sucessoras. Esperamos, então, que possamos comentar sobre a segunda, a terceira e todas as demais treinadoras de equipes masculinas da Bundesliga como o que elas deveriam ser: completamente normais. (SCHÜLTKE, 2026)

Outro jornal alemão de destaque, o taz, noticiou a indicação de Marie-Louise Eta para o cargo de treinadora interina do Union Berlin, a primeira mulher na história do futebol da primeira divisão alemã a treinar uma equipe masculina. Na matéria publicada em 15 de abril de 2026, três dias antes de sua estreia, intitulada “Kümmerlich kleine Auswahl” (“Uma escolha lamentavelmente pequena”), o jornalista Johannes Kopp propõe outro olhar ao abordar o tratamento dado a Eta nos últimos dias: o fato de ela ser tratada, segundo o jornalista, como uma Außerirdische (“extraterrestre”) esconderia, na verdade, uma questão estrutural. Em tom de ironia, Kopp aponta para o assédio da mídia, que a colocaria unter strengster Beobachtung (“sob a mais rigorosa observação”): “Se Marie-Louise Eta tivesse coçado atrás da orelha três vezes durante o treino do FC Union Berlin esta semana, muito provavelmente teria sido noticiado em algum jornal”. (KOPP, 2026)

Para fundamentar seu argumento de que haveria uma questão estrutural, Johannes Kopp traz a palavra de Nicole Kumpis, Presidente do Eintracht Braunschweig, clube da segunda divisão da Bundesliga, a única mulher presidente de um clube no futebol profissional alemão como um todo. Para Kumpis, a longa demora para que uma mulher fosse autorizada a treinar uma equipe masculina, mesmo que por poucos jogos, se deve ao seguinte fator: “‘O problema não é a falta de conhecimento técnico, mas sim a falta de pré-requisitos estruturais e de oportunidades’”. (KUMPIS apud KOPP, 2026)

Ao proceder dessa maneira, Johannes Kopp se diferencia de outros jornalistas, pois, ao invés de focar apenas em Marie-Louise Eta, procura observar as dificuldades que as treinadoras enfrentam para chegar ao topo da carreira, seja comandando equipes femininas ou masculinas. Nesse sentido Kopp traz em sua matéria um dado muito importante, que evidencia o problema estrutural ao qual ele se refere:

Há dez anos, até mesmo as doze equipes da Bundesliga feminina eram treinadas exclusivamente por homens. A Federação Alemã de Futebol (DFB) orgulhosamente destacou na época que 72 mulheres estavam qualificadas a treinar uma dessas equipes – mais do que em qualquer outro país. Teoricamente, elas se sentiam bem preparadas, mas na prática, isso não se traduziu efetivamente. No entanto, com a crescente profissionalização, mais mulheres assumiram funções de treinadoras. Hoje, seis das quatorze equipes da primeira divisão são treinadas por mulheres. (KOPP, 2026)

Ou seja, menos da metade das equipes da primeira divisão da Bundesliga feminina é treinada por mulheres. Não surpreende, pois, toda a repercussão em torno de Marie-Louise Eta, e este seria o mérito, segundo o jornalista: trazer luz a essa questão estrutural. Inclusive, esse aspecto faz jus ao próprio título da matéria: O número de potenciais treinadoras na Alemanha ainda é lamentavelmente pequeno. Segundo o jornalista, “[e]ntre os 50 graduados que receberam a Licença Profissional da DFB nos últimos três anos, havia apenas duas mulheres: Sabrina Wittmann, do Ingolstadt FC, clube da terceira divisão, e Eva-Maria Virsinger, que treina as jogadoras do TSG Hoffenheim na Bundesliga”. (KOPP, 2026)

Entretanto, embora ressalte que não tem havido aumento significativo do número de licenças outorgadas, Johannes Kopp reconhece que a DFB tem se esforçado em promover ações de qualificação profissional de mulheres treinadoras no âmbito do futebol alemão:

Nos últimos anos, a Federação Alemã de Futebol lançou diversos projetos e workshops promissores, como “DFB Female Brilliance”, “GoalGirl Academy”, “Female Future Leaders in Football” e “Strategy Women in Football FF27”, com o objetivo de inserir mais mulheres em posições de responsabilidade. (KOPP, 2026)

Por fim, o jornalista traz a palavra de Imke Wübbenhorst, treinadora de uma equipe de futebol feminino na Suíça, Young Boys Bern, que já havia atuado no comando da equipe masculina do Sportfreunde Lotte, clube da quarta divisão do futebol alemão: “‘Espero que ela [i.e., Marie-Louise Eta] também conquiste os pontos, porque senão tudo girará em torno de ela ser mulher’”. (WÜBBENHORST apud KOPP, 2026)

Por sua vez, a estreia da treinadora na tarde de sábado, 18 de abril, em casa, no lendário estádio An der Alten Försterei (algo como “Na Antiga Área Florestal”), localizado na parte oriental da capital alemã, contra o VfL Wolfsburg, não trouxe o resultado esperado: uma derrota por 2×1 para os visitantes, algo que gerou novos comentários controversos nas redes sociais. A matéria „Der größte Rummel zieht vorbei“ (“O maior frenesi está passando”), publicada no Süddeutsche Zeitung e assinada por Javier Caceres, direto de Berlim, evidencia a quebra de expectativa que torcedores nutriam com a mudança de treinador, conforme indica o lead: “A expectativa em torno de Marie-Louise Eta deu lugar temporariamente à desilusão após a derrota em casa contra o Wolfsburg. Agora, a nova treinadora quer ‘apenas jogar futebol’ com o Union Berlin”. (CACERES, 2026) Todavia, mais uma vez, a pauta dominante na matéria foi a questão de gênero:

Nos dias que se seguiram à nomeação de Marie-Louise Eta, de 34 anos, como treinadora principal do 1. FC Union Berlin, os papéis de gênero tradicionais no futebol têm sido um tema recorrente de discussão, por vezes de forma mais explícita, por vezes de forma mais discreta. Ocasionalmente, tem-se apontado que esses papéis estão gradualmente desaparecendo. (CACERES, 2026)

De modo categórico, ao final da matéria, Javier Caceres argumenta que o desempenho técnico do Union Berlin permanece sofrível após uma sequencia de 14 jogos sem vitória, uma vez que Marie-Louise Eta tem de lidar com o mesmo plantel que estava à disposição do técnico Steffen Baumgart: “O futebol não pode ser mudado da noite para o dia; é um problema que não tem relação com gênero”.

Já o jornal ZDFheute, do canal Zweites Deutsches Fernsehen (“Segunda Televisão Alemã”), publicou em 18 de abril de 2026 uma matéria não assinada, intitulada „Marie-Louise Eta verliert Debüt als Trainerin von Union“ (“Marie-Louise Eta perde estreia como treinadora do Union”). Inicialmente, o foco recai sobre a proximidade do Union Berlin em relação à zona de rebaixamento e à vaga de repescagem, e a necessidade de superar a crise nas últimas quatro rodadas do campeonato. Entretanto, na seção intitulada „Alle Augen auf Trainerin Eta“ (“Todos os olhos voltados à treinadora Eta”), o tema de gênero volta a ser foco:

A nomeação da ex-técnica da equipe Sub-19, Eta, como sucessora de Steffen Baumgart, demitido no último fim de semana, causou grande alvoroço em toda a Europa. Mesmo antes do apito inicial no sábado, todas as atenções estavam voltadas para a técnica interina, que deve assumir o comando do time feminino do Union Berlin no verão. (MARIE-LOUISE ETA, 2026)

A matéria em questão traz uma citação da própria treinadora que evidencia, nas entrelinhas, o incômodo que a questão de gênero gerou para o próprio ambiente do clube, cuja necessidade de vitória era urgente: “‘Eu estava totalmente no centro das atenções. Não se trata de mim, se trata de futebol’”. Para o articulista, o sensacionalismo gerado também pela mídia teria prejudicado o trabalho de preparação da equipe por parte de Marie-Louise Eta em sua estreia: “A presença maciça da mídia no primeiro treino e na coletiva de imprensa de Eta foi talvez a maior da história do Union Berlin. O Wolfsburg, por outro lado, pôde se preparar praticamente sem ser importunado para a crucial partida contra o rebaixamento”.

Por sua vez, no Portal de Notícias para Berlim e Brandenburgo, rbb24, uma matéria assinada por Till Oppermann, intitulada „Trotz Debüt von Trainerin Eta: Union bleibt Union“ (“Apesar da estreia da treinadora Eta: o Union permanece Union”) e publicada em 18 de abril de 2026, tratou de dimensionar a atuação da estreante, destacando pontos positivos, apesar do fracasso de sua equipe diante do VfL Wolfsburg. Se, por um lado, tratou-se de uma estreia histórica, por Marie-Louise Eta se tornar a primeira mulher a treinar uma equipe masculina da Bundesliga, por outro, o resultado foi o esperado: O Union Berlin voltou a perder, apesar da superioridade, dando sequência à série de resultados ruins, mesmo jogando em casa. Todavia, segundo o jornalista, haveria “[u]m vislumbre de esperança: um número significativamente maior de oportunidades de gol em comparação com a média da temporada”. (OPPERMANN, 2026)

No intuito de legitimar seu ponto de vista, Till Oppermann trouxe para a matéria as palavras do capitão do Union Berlin, o austríaco Christoffer Trimmler: “‘26 chutes a gol, 5 para o adversário, é uma estatística que diz muito’”. (TRIMMLER apud OPPERMANN, 2026) E também as palavras de otimismo da própria treinadora fizeram com que, argumentativamente, fosse reconhecido o progresso da equipe, não obstante a derrota para um clube que está na 17ª posição do campeonato, ou seja, na zona de rebaixamento: “‘Estou convencida de que, com a forma como jogamos hoje, também venceremos partidas nas próximas semanas’”. (ETA apud OPPERMANN, 2026) Com isso, Till Oppermann procurou dar destaque à estreia de Eta à frente do Union Berlin, sem deixar de tratar também de aspectos do jogo em si. 

Na mesma direção, o Die Welt (O Mundo), um dos principais jornais alemães de grande circulação, do grupo de mídia Axel Springer, também deu pleno destaque à estreia de Marie-Louise Eta na matéria „‘Echte Revolution’ – Die Sportwelt feiert Eta trotz ihres misslungenen Debüts“ (“‘Verdadeira revolução’ – O mundo esportivo celebra Eta apesar do fracasso em sua estreia”), publicada em 19 de abril de 2026, não assinada, enfatizando o mérito da indicação para o cargo de treinadora interina do Union Berlin, não obstante a derrota do clube para o VfL Wolfsburg: “Marie-Louise Eta é a primeira mulher a treinar um time masculino na Bundesliga. Ela perdeu sua partida de estreia com o 1. FC Union Berlin. Mesmo assim, foi aclamada pela mídia mundial. A própria Eta escolheu palavras especiais após o jogo contra o VfL Wolfsburg”. (ECHTE REVOLUTION, 2026)

A matéria do Die Welt apresenta a repercussão, mundo afora, do ineditismo de uma mulher ter sido promovida ao cargo de treinadora interina pelo clube da capital alemã. Inicialmente, jornais da Argentina e da Espanha, países que se destacam no universo do futebol, são brevemente mencionados: 

Até mesmo o jornal esportivo argentino ‘Olé’ deu destaque a Marie-Louise Eta em sua primeira página, relegando a prévia do Superclásico entre Boca Juniors e River Plate outro espaço fora da capa. O jornal espanhol ‘AS’ chegou a dedicar um vídeo à primeira treinadora da história da Bundesliga masculina. Parecia que o mundo inteiro do futebol estava assistindo à estreia da pioneira, ainda que sem sucesso, à beira do campo do 1. FC Union Berlin. (ECHTE REVOLUTION, 2026)

Outro jornal espanhol que recebeu destaque do Die Welt pela cobertura da estreia de Marie-Louise Eta é o Marca, citado na matéria:

“A expectativa era imensa, e um rugido ensurdecedor de júbilo sacudiu o pitoresco Estádio ‘An der Alten Försterei’ quando Marie-Louise Eta emergiu das catacumbas. Todas as lentes dos fotógrafos estavam apontadas para ela. E não era para menos, pois estavam testemunhando um momento histórico”, escreveu o jornal espanhol ‘Marca’ após a derrota do time de Köpenick por 2 a 1 para o VfL Wolfsburg no último sábado à tarde. (ECHTE REVOLUTION, 2026)

Além disso, o articulista do Die Welt relatou a própria movimentação da treinadora em seus momentos iniciais no gramado, ao ser, por assim dizer, assediada pela mídia, que buscava captar a emoção e a expectativa de Eta em sua estreia:

Antes mesmo do início da partida, uma cena curiosa se desenrolou no campo, com uma pequena perseguição. Eta inicialmente correu para um lado do campo para uma entrevista à DAZN, sendo perseguida de perto por um enxame de fotógrafos. A cena se repetiu pouco depois, quando a treinadora de 34 anos trocou de lado para responder às perguntas de um repórter da Sky. (ECHTE REVOLUTION, 2026)

O “frenesi da mídia” (Medienrummel), segundo o articulista na mesma matéria do Die Welt, deu lugar a declarações sóbrias de Marie-Louise Eta, ao apontar para o fato de que o Union Berlin se encontra em 11º lugar, com 32 pontos, apenas a 06 pontos de distância do clube que ocupa o 16º lugar da Bundesliga, o FC St. Pauli, de Hamburgo, com 26 pontos. Cabe ressaltar que, embora não seja uma posição que leva ao rebaixamento direto, como o 17º e o 18º lugares, o 16º lugar é uma posição que credencia o antepenúltimo clube da tabela a disputar com o 3º colocado da segunda divisão da Bundesliga, em sistema de repescagem, se permanece na elite do futebol alemão, ou se é rebaixado. Em resposta, a treinadora interina teria dito o seguinte sobre a derrota, não obstante o fato de ter sido saudada por torcedores do Union Berlin como Fußballgöttin (“deusa do futebol”): “‘É claro que estamos desapontados. Mas trata-se de futebol, não de mim’”; “‘Mas esse não é o ponto. Não se trata de desfrutar, mas sim de vencer partidas de futebol’”. (ECHTE REVOLUTION, 2026) Aliás, o fato de a treinadora ter sido ovacionada por torcedores ao ser anunciada no gramado também ganhou destaque no principal jornal alemão, o Franfurter Allgemeine Zeitung (ZAF), em matéria assinada por Christian Kamp, de 18 de abril de 2026, intitulada „So lief das Debüt der ‘Fußballgöttin’ Marie-Louise Eta“ (“Assim transcorreu a estreia da ‘deusa do futebol’ Marie-Louise Eta”): 

Vinte deuses do futebol já foram apresentados, os onze titulares e os reservas do 1. FC Union Berlin, quando o locutor do estádio faz uma breve pausa. “E agora, vamos à nossa treinadora. Bem-vinda de volta”, anuncia ele, “nossa treinadora é: Marie-Louise Eta!” E das arquibancadas do estádio ‘An der Alten Försterei’, milhares de torcedores respondem em coro: ‘Deusa do futebol!’” (KAMP, 2026)

Por sua vez, algo diferenciado na matéria do Die Welt foi ter dado espaço também aos comandados da nova treinadora interina, entrevistados logo após o jogo. Primeiramente, o capitão do Union Berlin, o austríaco Christopher Trimmel, teria reconhecido uma mudança no volume de jogo de sua equipe: “‘Há uma nova energia em campo. Se você tenta chutar ao gol 26 vezes, está fazendo muita coisa certa. A maneira como jogamos hoje foi realmente boa’”. (ECHTE REVOLUTION, 2026) Assim como Trimmel, o centroavante do Union Berlin, o alemão Ilyas Ansah, embora aborrecido consigo mesmo pelos gols perdidos durante a partida contra o VfL Wolfsburg, posicionou-se sobre a mudança no comando técnico: “‘Marie-Louise Eta é minha treinadora, e antes dela eu tinha um treinador. E eu realmente não me importo se é homem ou mulher. Isso não muda a maneira como eu encaro o jogo’”. (ECHTE REVOLUTION, 2026) Outro a se manifestar foi o zagueiro alemão Derrick Köhn: “‘Criamos, rapidamente, um vínculo entre nós. Nos sentimos muito à vontade com ela. Agora estamos tentando nos preparar para Leipzig e, lá, dar presentes a ela’”. (ECHTE REVOLUTION, 2026) Aliás, a sequência de jogos da Bundesliga em que a treinadora comandará o clube interinamente é contra o RB Leipzig (fora de casa), o 1. FC Köln, Colônia (em casa), o 1. FSV Mainz 05 (fora de casa), e, na última rodada, no dia 16 de maio de 2026, o FC Augsburg (em casa).

Portanto, a matéria do Die Welt constitui-se de declarações da imprensa mundial, da própria Marie-Louise Eta e também de seus comandados para dar a devida dimensão à mudança ocorrida na comissão técnica do Union Berlin, uma autêntica novidade não só no cenário esportivo alemão, como também mundial. Quiçá surjam outras treinadoras de equipes masculinas de futebol, e outros clubes sigam o exemplo do clube da capital alemã, vencendo o preconceito e rompendo a bolha do domínio de homens no esporte.

Referências bibliográficas

BAUMGART-NACHFOLGERIN: Union Berlin wehrt sich gegen Sexismus gegenüber Eta. rbb24. Berlim, 13 abr. 2026. Disponível em: https://www.radioeins.de/programm/sendungen/der_schoene_morgen/bundesliga_kolumne/union-berlin–marie-louise-eta-schreibt-geschichte.html. Acesso em: 22 abr. 2026.

BUNDESLIGA. Erste Co-Trainerin der Bundesliga: Marie-Louise Eta schreibt Geschichte. Bundesliga News. 15 nov. 2023. Disponível em: https://www.bundesliga.com/de/bundesliga/news/1-fc-union-berlin-marie-louise-eta-historisch-erste-trainerin-25358. Acesso em: 22 abr. 2026.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. “Nós do lado oriental vamos sempre avante” – 1. FC Union Berlin, um clube em ascensão. Arquibancada. São Paulo, v. 120, n. 36, 26 jun. 2019. Disponível em: https://ludopedio.org.br/arquibancada/nos-do-lado-oriental-vamos-sempre-avante-1-fc-union-berlin-um-clube-em-ascensao/?srsltid=AfmBOopUFqQJ0ubsX6PryDY652jDsqQEGp4ke5LcpOZrTJukXn1kPgbZ. Acesso em: 22 abr. 2026.

CACERES, Javier. Der größte Rummel zieht vorbei. rbb24. Berlim, 19 abr. 2026. Disponível em: https://www.sueddeutsche.de/sport/union-berlin-eta-trainerin-wolfsburg-abstiegskampf-li.3470381. Acesso em: 22 abr. 2026.

ECHTE REVOLUTION – Die Sportwelt feiert Eta trotz ihres misslungenen Debüts. Die Welt. Hamburgo, 19 abr. 2026. Disponível em: https://www.welt.de/sport/fussball/bundesliga/1-fc-union-berlin/article69e485e9c8c973c925cb1f13/trainerin-des-1-fc-union-berlin-echte-revolution-die-sportwelt-feiert-marie-louise-eta-nach-debuet.html. Acesso em: 22 abr. 2026.

KAMP, Christian. So lief das Debüt der „Fußballgöttin“ Marie-Louise Eta. Frankfurter Allgemeine Zeitung. Frankfurt a.M., 18 abr. 2026. Disponível em: https://www.faz.net/aktuell/sport/fussball/bundesliga/trainerin-marie-louise-eta-und-union-berlin-verlieren-bei-bundesliga-debuet-accg-200612924.html. Acesso em: 22 abr. 2026.

KOPP, Johannes. Kümmerlich kleine Auswahl. taz. Berlim, 15 abr. 2026. Disponível em: https://taz.de/Trainerin-Eta-bei-Union-Berlin/!6171131/. Acesso em: 22 abr. 2026.

MARIE-LOUISE ETA verliert Debüt als Trainerin von Union. ZDFheute. 18 abr. 2026. Disponível em: 19/04/2026 17:28 Marie-Louise Eta verliert Debüt als Trainerin von Union

https://www.zdfheute.de/sport/bundesliga-union-berlin-vfl-wolfsburg-marie-louise-eta-debuet-100.html. Acesso em: 22 abr. 2026.

OPPERMANN, Till. Trotz Debüt von Trainerin Eta: Union bleibt Union. rbb24. Berlim, 18 abr. 2026. Disponível em: https://www.rbb24.de/sport/beitrag/2026/04/bundesliga-union-berlin-trainerin-marie-louise-eta-niederlage-wo.html. Acesso em: 22 abr. 2026.

SCHÜLTKE, Andrea. Hetze gegen Marie-Louise Eta – Kommentar: Trainerin in der Männer-Bundesligasollte normal sein. Deutschlandfunk. 14 abr. 2026. Disponível em: https://www.deutschlandfunk.de/marie-louise-eta-trainerin-bundesliga-union-berlin-fussball-kommentar-100.html. Acesso em: 22 abr. 2026.

WIESE, Dennis. Marie-Louise Eta: „Natürlich ist es schön zu inspirieren“ (Entrevista). Sportschau. Berlim, 16 abr. 2026. Disponível em: https://www.sportschau.de/regional/rbb/rbb-union-trainerin-eta-natuerlich-ist-es-schoen-zu-inspirieren-100.html. Acesso em: 22 abr. 2026.

Nota

  1. Todas as traduções do Alemão para o Português são da autoria do autor. ↩︎

Deixe uma resposta