O atleta sensível: masculinidades contemporâneas e cultura BookTok em Off Campus

Nos últimos anos, o romance esportivo deixou de ser um nicho do mercado editorial para se tornar um fenômeno global. Entre as obras que ajudam a explicar esse movimento está a série Off Campus (Amores Improváveis), de Elle Kennedy. Publicada originalmente entre 2015 e 2017, a saga literária é composta por quatro volumes principais (O Acordo, O Erro, O Jogo e A Conquista), além do livro de contos complementar O Legado (2021). Embora lançada na década passada, a franquia ganhou um novo e avassalador fôlego nos últimos anos graças às redes sociais, especialmente o BookTok (comunidade de leitores do TikTok) onde se consolidou como a principal referência do chamado hockey romance (romance esportivo centrado no hóquei).

Box com os cinco livros da série Off Campus / Reprodução Editora Paralela

A trama acompanha a vida e os relacionamentos amorosos de quatro jogadores do time de hóquei da fictícia Briar University: Garrett Graham, John Logan, Dean Di Laurentis e John Tucker. O estrondoso sucesso comercial dos livros pavimentou o caminho para o audiovisual, culminando no lançamento de uma adaptação para o streaming em 13 de maio de 2026. O alcance da versão televisiva confirmou a força desse fenômeno: segundo dados divulgados pelo Prime Vídeo, a produção atraiu mais de 36 milhões de espectadores em apenas 12 dias, tornando-se a terceira maior estreia da história da plataforma, atrás apenas de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder e Fallout (Haddad, 2026).

Poster de divulgação da série / Reprodução Prime Video

Mais do que simples romances universitários, os livros de Kennedy ajudam a compreender transformações recentes na representação dos homens no esporte e na cultura pop. À primeira vista, os protagonistas preservam as características tradicionalmente associadas ao atleta masculino: são competitivos, populares, desejados, fisicamente fortes e têm dificuldade para expressar emoções. Ao mesmo tempo, as histórias apresentam traumas familiares, inseguranças, medos e demonstrações de afeto.

Talvez resida aí o grande fascínio de Off Campus: o atleta continua sendo admirado por aquilo que representa dentro e fora das quadras, mas humaniza-se ao lidar com suas fragilidades. Ele sofre, sente ciúmes, assume o papel de cuidador e, acima de tudo, aprende a verbalizar seus sentimentos, oferecendo um novo modelo de masculinidade para o público jovem.

O atleta universitário como ideal masculino

Em O Acordo (2023), primeiro livro da série, Garrett Graham representa um modelo muito conhecido da cultura universitária norte-americana. Capitão do time de hóquei, ele reúne características frequentemente associadas ao sucesso masculino.

O esporte ocupa um papel importante nessa construção. O hóquei é marcado por contato físico intenso, resistência, competitividade e valorização do desempenho corporal. Em Off Campus, essas características ajudam a construir personagens que ocupam posições de destaque dentro da universidade. 

Garrett Graham, John Logan, Dean Di Laurentis, e John Tucker são constantemente observados pelos demais estudantes. Seus corpos, sua popularidade e sua vida amorosa fazem parte do interesse coletivo do campus. O atleta deixa de ser apenas um jogador e se transforma em objeto de admiração, desejo e curiosidade.

Os atletas de Off Campus / Reprodução Prime Video

Essa representação dialoga com reflexões de Gilles Lipovetsky (2007) sobre a sociedade do hiperconsumo. Para o autor, vivemos em uma cultura que valoriza intensamente a aparência, o prazer e a construção de imagens desejáveis. Nesse contexto, o corpo atlético ganha destaque como símbolo de sucesso e atratividade.

Ao mesmo tempo, o atleta de Off Campus se aproxima da figura da celebridade. Paula Sibilia (2016) observa que a cultura contemporânea estimula a exposição da vida privada e a valorização da visibilidade. Mesmo sendo personagens fictícios, os jogadores da série são tratados pelas leitoras como verdadeiras celebridades literárias, tema que aparece constantemente em vídeos, montagens, listas de favoritos e discussões online.

A repercussão da série ultrapassa o universo dos livros. Em maio de 2026, o Prime Video renovou Off Campus para uma segunda temporada antes mesmo da estreia da primeira. A continuação já foi confirmada e terá como foco o relacionamento entre Allie Hayes e Dean Di Laurentis, personagens centrais de um dos romances mais populares da franquia (Rocha, 2026).

Allie e Dean em Off Campus – Reprodução Prime Video

Vulnerabilidade masculina como fantasia romântica

Se o sucesso físico continua importante, ele já não basta para construir o herói romântico contemporâneo.

Nos livros, Garrett convive com um pai abusivo. Logan enfrenta problemas relacionados ao alcoolismo do pai e teme repetir a história de sua família. Tucker assume uma postura cuidadosa e acolhedora que contrasta com o estereótipo do atleta agressivo. Os personagens choram, sentem medo, demonstram insegurança e buscam apoio emocional. 

Essa característica ajuda a entender por que a série encontrou tanta identificação entre suas leitoras. Eva Illouz (2020), ao discutir a cultura terapêutica contemporânea em Happycracia, mostra como emoções, autoconhecimento e saúde emocional ganharam centralidade na forma como as pessoas avaliam a si mesmas e aos outros. Em uma sociedade que valoriza a capacidade de falar sobre sentimentos, personagens que expressam emoções e vulnerabilidades se tornam mais atraentes.

Em Off Campus, o homem ideal reúne duas características que parecem fundamentais para o imaginário romântico atual: força e sensibilidade. Ele continua sendo competitivo, desejado e admirado, mas também é capaz de ouvir, apoiar e construir relações afetivas. 

Esse modelo aparece com frequência nos conteúdos produzidos por fãs. Muitos vídeos sobre Garrett Graham, por exemplo, destacam momentos de cuidado com Hannah, sua parceira na narrativa, ou trechos em que ele demonstra preocupação com o bem-estar dela. O foco costuma estar menos em sua aparência física e mais em sua dedicação emocional. O próprio marketing recente da adaptação televisiva reforça esse aspecto. Matérias da imprensa internacional destacam que Off Campus combina “steamy moments” (momentos quentes)  com “emotional depth” (profundidade emocional) e “personal trauma” (trauma pessoal).

BookTok e a romantização do atleta

O crescimento do subgênero “hockey romance” está diretamente ligado às plataformas digitais. O sucesso de Off Campus faz parte de um movimento maior de valorização do romance esportivo nas redes sociais e nas plataformas de streaming. Em junho de 2026, a Netflix anunciou a adaptação de Icebreaker (Quebrando o Gelo), de Hannah Grace, outro grande fenômeno do BookTok, com cerca de cinco milhões de exemplares vendidos e 70 semanas na lista de mais vendidos do New York Times (Delgado, 2026). A movimentação de empresas como Prime Video e Netflix mostra que histórias de atletas universitários e romances ambientados no esporte deixaram de ocupar uma posição periférica no mercado editorial e passaram a integrar estratégias centrais da indústria do entretenimento  (Zequim, 2026).

Netflix anuncia adaptação de Quebrando o Gelo / Reprodução Netflix e Editora Rocco

Mais do que divulgar livros, a comunidade BookToker produz experiências coletivas de leitura. Leitoras gravam reações emocionais, compartilham cenas favoritas, sugerem atores para interpretar personagens e criam montagens que transformam protagonistas literários em figuras desejadas por milhares de pessoas. 

Henry Jenkins (2009) define fandom como cultura participativa baseada na circulação coletiva de significados. Em vez de apenas consumir narrativas, fãs reinterpretam personagens, criam leituras alternativas e ampliam universos ficcionais. Em comunidades online dedicadas à série, leitores discutem inclusive possíveis tensões homoafetivas entre personagens masculinos, como Garrett e Logan.

Essa reinterpretação coletiva mostra como as masculinidades de Off Campus permanecem abertas à negociação nas culturas digitais. Mesmo inseridos em romances heterossexuais tradicionais, os protagonistas frequentemente mobilizam leituras que ultrapassam normas rígidas de gênero e sexualidade.

Além disso, o sucesso do “hockey romance” demonstra como o esporte universitário norte-americano funciona como imaginário globalizado. Para as leitoras brasileiras, por exemplo, Briar University representa uma fantasia midiática ligada à cultura universitária estadunidense: dormitórios, fraternidades, festas, bolsas esportivas e atletas-celebridade.

Entre mudanças e permanências

Embora apresente homens mais sensíveis e emocionalmente abertos, Off Campus não rompe completamente com modelos tradicionais de masculinidade. Os protagonistas continuam sendo, em sua maioria, brancos, heterossexuais, atléticos e socialmente valorizados. A força física, a popularidade e o sucesso amoroso seguem ocupando papel importante nas narrativas.

O que muda é a forma como essas características são combinadas. Em vez do atleta emocionalmente distante, surge um personagem capaz de demonstrar vulnerabilidade sem perder seu status de homem desejável. Zygmunt Bauman (2004) argumenta que os relacionamentos contemporâneos são marcados por tensões entre autonomia e intimidade. Os romances de Elle Kennedy dialogam com esse cenário ao apresentar protagonistas que buscam relações afetivas profundas sem abrir mão de sua individualidade.

Talvez seja justamente essa combinação que explique o sucesso da série. Em um momento de transformações nas expectativas sobre gênero e relacionamentos, Off Campus oferece personagens que conciliam atributos tradicionalmente associados à masculinidade esportiva com formas mais abertas de expressão emocional. 

No fim, os jogadores de hóquei criados por Elle Kennedy mostram que a masculinidade continua ligada à força, ao desempenho e à popularidade. A diferença está na valorização da vulnerabilidade, do cuidado e da capacidade de construir vínculos afetivos. É nesse encontro entre desejo, esporte e emoção que a série encontra parte de sua força cultural.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

DELGADO, Sara. Netflix’s Icebreaker Adaptation: what to know about the new hockey romance show. Teen Vogue, 16 jun. 2026. Disponível em: https://www.teenvogue.com/story/netflix-icebreaker-hockey-romance-adaptation-everything-you-need-to-know. Acesso em: 16 jun. 2026.

HADDAD, Beatriz. Off Campus se torna a 3ª maior estreia da história do Prime Video: série registrou mais de 36 milhões de espectadores em menos de duas semanas desde o lançamento. VEJA, 26 maio 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/cultura/off-campus-se-torna-a-3a-maior-estreia-da-historia-do-prime-video/. Acesso em: 16 jun. 2026.

ILLOUZ, Eva; CABANAS, Edgar. Happycracia: fabricando cidadãos felizes. São Paulo: Ubu, 2020.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009.

KENNEDY, Elle. O Acordo. São Paulo: Paralela, 2023.

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

ROCHA, Felipe. Off Campus: Allie e Dean serão casal principal da 2ª temporada. Omelete, 28 maio 2026. Disponível em: https://www.omelete.com.br/series-tv/off-campus-2a-temporada-prime-video-allie-dean-casal-principal. Acesso em: 16 jun. 2026.

SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2016.

ZEQUIM, Luiza. “Icebreaker”: novo livro de romance de hóquei ganhará adaptação na Netflix. CNN Brasil, 15 jun. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/pop/streaming/icebreaker-novo-livro-de-romance-de-hoquei-ganhara-adaptacao-na-netflix/. Acesso em: 16 jun. 2026.

Deixe uma resposta