O Código do Jogo: Minha incursão nas linguagens que tecem o futebol

Estrear no blog do LEME é, para mim, um rito de passagem. Chego a este grupo de pesquisa não com respostas prontas, mas com uma caixa de ferramentas que venho montando, peça por peça, desde uma virada fundamental na minha trajetória em 2024. Se até pouco tempo minha comunicação com o futebol se dava estritamente pelas palavras do jornalismo, pelas texturas do cinema e pela espacialidade das exposições, hoje ela ganha uma nova camada, invisível, mas poderosa: a linguagem de programação.

Minha incursão nos estudos da tecnologia não foi um desvio de rota, mas uma necessidade de “tradutora”. Ao longo dos anos, escrevendo e pensando a curadoria de exposições esportivas e me aventurando timidamente no universo do cinema, percebi que a narrativa sobre o futebol — especialmente o feminino — sofre de uma fragmentação crônica. No cinema, buscamos o arco dramático; nas exposições, a experiência sensorial do objeto; no jornalismo, o fato e o dado. Mas como unir tudo isso em uma estrutura que seja, ao mesmo tempo, politicamente justa e tecnologicamente escalável?

A resposta começou a se desenhar em 2024, quando decidi que não bastava apenas falar sobre a invisibilidade das mulheres no esporte; era preciso construir a infraestrutura que rompesse esse silêncio. Foi aí que a lógica do código se vinculou às minhas produções de pesquisa. Percebi que um algoritmo pode ser tão narrativo quanto um documentário, e que uma arquitetura de sistemas pode ser tão acolhedora quanto uma galeria de museu.

O Acervo Carmen Lydia: Tecnologia como Justiça Social

O fruto mais maduro dessa convergência é o Acervo “Carmen Lydia” da Mulher Brasileira no Esporte. Este projeto, que hoje já caminha como um MVP (Produto Mínimo Viável) devidamente registrado no INPI, nasce da urgência de preservar a memória esportiva feminina sob uma nova ótica: a da soberania da atleta sobre sua própria história.

Diferente de bancos de imagens tradicionais, onde o lucro sobre a memória de uma mulher muitas vezes fica retido em grandes corporações de mídia, o Acervo Carmen Lydia propõe um modelo disruptivo. Aqui, a tecnologia serve à ética. É uma plataforma digital que reconhece as atletas como titulares legítimas de seus acervos pessoais. O diferencial não é apenas técnico, é político e econômico: as atletas mantêm autonomia sobre se, como e quando seus materiais serão licenciados, garantindo retorno financeiro direto.

A Arquitetura por Trás da Narrativa

Para que essa visão se tornasse realidade, precisei mergulhar na “cozinha” da tecnologia. A construção deste acervo reflete uma arquitetura moderna e rigorosa, que espelha a seriedade do nosso compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, como a igualdade de gênero e a inovação em infraestrutura.

Desenvolvi o frontend como uma aplicação de página única (SPA), utilizando React com TypeScript e Vite, garantindo que a experiência do usuário seja fluida e robusta. No “coração” do sistema (o backend), optei por uma API reativa com Spring WebFlux e segurança via JWT

Por que esses detalhes importam em um blog de mídia e esporte? Porque a escolha da tecnologia é, também, uma escolha editorial. Uma plataforma segura e bem estruturada é o que garante que a memória da atleta não seja apenas “postada”, mas devidamente guardada e valorizada.

O sistema é organizado em camadas: do acesso público à curadoria administrativa, passando pelo painel exclusivo da atleta, onde ela gere seus dados financeiros e seu patrimônio simbólico. 

É a curadoria expográfica que eu já exercia, agora traduzida em controle de acesso e governança de dados.

Novos Horizontes no LEME/UERJ

Ao ingressar agora no LEME, meu objetivo é tensionar essas linguagens. Quero investigar como a “linguagem de máquina” pode ajudar a organizar o caos histórico do futebol feminino brasileiro sem apagar suas nuances humanas. Se nas linguagens das artes visuais buscamos revelar a emoção, na programação buscamos o dado estruturado para revelar a dimensão da nossa exclusão — e as ferramentas para superá-la.

Este texto é um convite para pensarmos o esporte além das quatro linhas e além das páginas de jornal. O futebol é uma linguagem viva, e o código é o novo dialeto que precisamos dominar para garantir que as histórias de mulheres como Carmen Lydia e tantas outras pioneiras nunca mais sejam deletadas por falta de suporte técnico ou vontade política.

A tecnologia, para mim, é o novo campo de jogo. E a partida está apenas começando.

Deixe uma resposta