O DIÁLOGO DO PROJETO DE EXTENSÃO EXPEDIÇÕES DO CEFET/RJ COM O MONTANHISMO

Marcelo Faria Porretti

Fernando Amaro Pessoa

Marcelo Soares Salomão

João Vinicius Corrêa Thompson

Introdução

Apresentaremos aqui atividades, experiências e ações desenvolvidas no âmbito do projeto de extensão “Expedições do Cefet/RJ Petrópolis”, no qual a Prática Corporal de Aventura (PCA) de montanhismo é realizada de forma acadêmica e educacional. Pela proximidade da instituição de ensino com o Parque Nacional da Serra dos Órgãos (Parnaso), a maioria das atividades que ocorrem em campo acontecem nos limites ou no entorno deste território.

Cabe mencionar que o termo PCA começa a ser trabalhado na Educação Física Escolar, a partir da Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018), enquanto montanhismo, como veremos mais à frente é historicamente conhecido como atividade esportiva, de lazer, de recreação e de contemplação. No cenário brasileiro, as PCA emanam pedagogicamente da BNCC, definindo-se em que “exploram-se expressões e formas de experimentação corporal centrada nas perícias e proezas provocadas pelas situações de imprevisibilidade que se apresentam quando o praticante interage com um ambiente desafiador” (BRASIL, 2018, p. 220).

Alguns autores questionam o documento oficial. Apontando incoerências e inconsistências da BNCC de educação física, Neira (2018) confrontando a teorização do currículo narra o retorno de princípios tecnocráticos, retrocedendo aos conhecimentos já produzidos para uma produção curricular de educação física, fechando-se as portas ao diálogo. Novaes et al. (2020) mostram que o discurso neoliberal trazendo o poder do capital, insurge nas regras mercadológicas que acabaram por compor o currículo explicitado no documento oficial. A lógica do consumo parece estar presente no documento, carecendo assim, uma visão crítica e questionadora ao utilizar o documento. 

Entretanto, o termo PCA é apresentado no documento oficial, e dele faz parte o montanhismo, que é a atividade principal e norteadora do projeto. Ao longo de nosso texto, buscamos essa relação pedagógica.

Assim, pretendemos mostrar uma experiência educacional com intuito de contribuir para discussões que envolvam as PCA no ambiente natural, mostrando desafios que se apresentam no processo de execução das atividades. 

Não temos de forma alguma a intenção de que as atividades, experiências e ações sejam copiadas ou reproduzidas, e as mesmas não se apresentam como única verdade. Toda realidade é produzida pelos sujeitos que se envolvem na ação, o que carece de entendimentos e conhecimentos prévios do público envolvido, dos locais e equipamentos utilizados, além de formação adequada.

Trilhando caminhos pedagógicos

As atividades começam a acontecer com participação interdisciplinar de docentes de matemática, introdução à programação, história, geografia e educação física. As visitas técnicas aconteciam com conteúdos trabalhados primeiramente em sala de aula e posterior prática em campo. Assim, mediante marcação de data prévia, acompanhamento das condições atmosféricas nos dias que antecedem as atividades e a autorização dos responsáveis, realizávamos as práticas de montanhismo.

A partir de 2016, já como um projeto de extensão cadastrado na instituição, o “Expedições do Cefet/RJ campus Petrópolis” começa ocorrer mas periodicamente, e de forma interdisciplinar (com a participação dos docentes: Marcelo Salomão – matemática, João Thompson – introdução à programação, Fernando Pessoa – geografia e Marcelo Porretti – educação física).

Parcerias começam a ser articuladas, como a participação no Conselho Consultivo do Parque Nacional da Serra dos Órgãos (Conparnaso), o que possibilita ampliação dos debates acadêmicos e ganho de conhecimento. A realização de um curso básico de montanhismo nos possibilitou o ganho de conhecimento de alguns cumes de montanha petropolitanos.

A apresentação de trabalhos em eventos acadêmicos começam a ocorrer mais efetivamente a partir de 2016, e em diversos eventos nacionais e internacionais. A partir de 2023 com o desenvolvimento de pesquisas e parcerias foi cadastrado um grupo de pesquisa no CNPq, e em 2024 organizamos e sediamos o XIII Congresso Brasileiro de Atividades de Aventura e o VII Congresso Internacional de Atividades de Aventura.

Historicamente a prática do montanhismo é entendida como “uma prática esportiva e de lazer que se caracteriza pela ascensão em montanhas e elevações rochosas, por meio de caminhadas ou escaladas, com diferentes graus de dificuldade e tempos de duração” (CBME, 2018).

Desta forma Petrópolis/RJ mostra o potencial do município para o desenvolvimento de atividades de recreação, lazer e esportes de aventura, em que o montanhismo se apresenta fortemente (PORRETTI; PESSOA, 2021).

A diversidade ambiental de Petrópolis é protegida por lei através de diversas unidades de conservação (UC) que juntas abarcam mais de 60% do território municipal, representadas por diferentes categorias e tipos de uso prioritários. Essas UC são importantes nas dinâmicas locais e no contexto histórico da implementação das políticas de conservação no Brasil, tendo em vista que algumas delas apresentam-se entre as mais antigas e importantes do país, como o Parque Nacional da Serra dos Órgãos (Parnaso) e a Área de Proteção Ambiental (APA) de Petrópolis (FREITAS ET AL., 2020).

Freitas et al. (2020) afirma que mais de 62% do território municipal é protegido por unidades de conservação (como mostra a figura um abaixo).

Figura 1: Unidades de Conservação públicas inseridas total ou parcialmente no município de Petrópolis. Fonte: Freitas et al. (2020)

Essas áreas protegidas, principalmente as que possuem maior ênfase em atividades de pesquisa, educação ambiental e recreação e lazer, com foco no uso público, trazem consigo grande importância para a saúde física e mental humana, tendo em vista que o contato com a natureza permite a diminuição do estresse diário. Associa-se, assim, saúde e conscientização ambiental a partir da realização de atividades como educação e interpretação ambiental em trilhas, além das PCA ao ar livre (PORRETTI et al., 2020).

Estratégias para o desenvolvimento do montanhismo escolar

Com o trabalho acontecendo, parcerias sendo criadas, as ações do projeto cada vez mais careciam de aprimoramento. As autorizações para responsáveis, as reuniões que antecedem as caminhadas, as aulas de pré-ida a campo e a própria prática do montanhismo acabavam seguindo um fluxo de: planejamento >> execução >> avaliação >> replanejamento. Assim, alcançamos uma continuidade de ações que o projeto desenvolveu e vem desenvolvendo.

O risco que envolve estas práticas não pode ser desprezado, mas sim trabalhados de forma a conscientizar os alunos sobre suas escolhas individuais que serão expressas no grupo durante toda a caminhada na montanha. Entender os limites do seu corpo e a consciência corporal são essenciais, neste ponto, se faz necessário explicar que existe uma progressão pedagógica da prática do montanhismo preconizada pelo projeto “Expedições”, começando-se com trilhas mais curtas e leves até as pesadas.

E estas são as explicações que fornecemos aos responsáveis, entendemos suas inquietudes, mas as expedições são traçadas respeitando-se uma lógica possível de compreensão, visto que são trabalhadas também em sala de aula. É importante relatar o monitoramento das condições climáticas, algumas expedições planejadas não puderam ser realizadas. Explicar aos responsáveis que iremos caminhar na mata com seus filhos e que pode não haver sinal de celular em determinados pontos é um fator que não podemos negligenciar, assim como a importância de água e alimentação.

Algumas das motivações que encontramos nos alunos que realizam as expedições do projeto de extensão são: contemplação de ambientes naturais, superação dos limites pessoais e as caminhadas serem guiadas, pois observamos falas de alunos que sempre desejaram realizar a atividade, mas por desconhecimento do local ou por falta de companhia nunca haviam realizado (PORRETTI ET AL., 2019).

As características das trilhas também se apresentavam como fator motivacional para a realização da atividade, Neto (2008) apresenta as trilhas de Petrópolis com graus de dificuldades em caminhadas leves, leves superiores, semi-pesadas e pesadas. Estas características das trilhas em que realizamos nossas atividades também afetam diretamente o equipamento utilizado (mochilas, tipo de vestimenta, calçados, agasalhos, luvas, gorro, fogareiro, comida, água, barraca, saco de dormir, isolante térmico, lanterna, etc.). Estes equipamentos acabam se traduzindo em peso que carregamos ao longo das trilhas, pois como iremos relatar mais à frente, chegamos a realizar atividades que duraram cerca de três dias de caminhada.

Nas preparações para realização da prática do montanhismo, ou seja, nas reuniões com os alunos na fase de pré-ida ao campo, alertamos para os cuidados com o ambiente natural, com os outros montanhistas e os cuidados necessários consigo mesmo. Considerando Neto (2008), podemos citar a apresentação de fatores de mínimo impacto, em que: o planejamento é fundamental; cada um é responsável pela sua segurança; cuidar dos locais onde passamos, das trilhas e dos acampamentos pensando que outros irão utilizar também, sem falar da fauna e flora daqueles ambientes especificamente; trazer o lixo de volta é fundamental; não retirar nada do ambiente natural, deixando cada coisa em seu lugar; evitar fazer fogueiras, pois podem provocar incêndios, além de degradar o solo; respeitar sempre os animais e as plantas; e ser educado e respeitoso com o público local e outros visitantes.

Estes cuidados que procuramos trabalhar com nossos alunos são muito importantes para aproveitar o máximo da atividade, além de inserir um trabalho de educação ambiental que perpassa todo o projeto. Pois a responsabilidade de manter a natureza exuberante é um papel de todos nós, fundamentalmente os recursos naturais já sofrem muito, e não queremos nem um pouco colaborar com a sua escassez. O objetivo é justamente o oposto: levar este aluno ao ambiente natural para que possa entender sua importância e assim colaborar para sua subsistência. Para ilustrar apresentamos no quadro abaixo algumas atividades interdisciplinares e coletivas que são realizadas:

ATIVIDADES/TRILHAS DISTÂNCIA TOTAL (D) E GANHO DE ELEVAÇÃO (E) (APROXIMADOS) PROPOSTAS TRABALHADAS TEMAS QUE PERPASSAM TODAS AS ATIVIDADES
1- Morro Meu Castelo (Castelinho) (D) 5km(E) 300m Frequência cardiorrespiratória; ecossistemas; bacias hidrográficas e urbanização.        Educação ambiental;

 Justiça ambiental; 

Interpretação Ambiental; 

Preservação e conservação da natureza; 

Sustentabilidade; 

Práticas corporais de aventura; 

Saúde. 
2- Pedra do Quitandinha (D) 6km(E) 300m Percepção de esforço, aspectos históricos e paisagem antropizada.
3- Morro Meu Castelo (Castelinho) / Noturna (D) 5km(E) 300m Recreação e lazer, turismo de aventura e geociências.
4- Travessia Cobiçado-Ventania (D) 12km(E) 900m Compreensão dos limites individuais, hidratação e relevo.
5- Travessia Uricanal (D) 11km(E) 500m Monitoramento da frequência cardíaca, ecossistemas e bacias hidrográficas.
6- Travessia Petrópolis-Teresópolis (D) 28km(E) 2.200m*realizada em 3 dias Escala modificada de Borg, frequência cardíaca, alimentação, patrimônio natural, ecossistemas, história do montanhismo.
7- Caminho do Ouro (D) 7km(E) 800m Combate ao sedentarismo, relevo e contexto histórico.
8 – Castelos do Açu e Portais de Hércules (D) 22km(E) 1.500m*realizada em 2 dias Patrimônio natural, ecossistemas, história do montanhismo.
9 – Cachoeira Véu da Noiva (D) 7km(E) 500m Unidades de conservação, ecossistemas, hidrografia, uso público.

Quadro 1: Atividades realizadas pelo projeto de Fonte: Pessoa; Porretti, 2020.

O mapa da figura 3, apresenta a proximidade da instituição de ensino com as trilhas executadas, em que as linhas azuis mostram os percursos das trilhas e a linha verde o limite territorial do Parnaso, um dos parceiros do projeto.

O montanhismo apresenta-se como ferramenta de ensino/aprendizagem, funcionando como ilustração, exemplificação, de forma em sala de aula. Abaixo seguem fotos ilustrativas:

Imagens 1: (a) Ponte no Caminho do Ouro; (b) Pedra marcada com uma cruz durante o Caminho do Ouro; (c) Visão panorâmica durante a Travessia Cobiçado-Ventania. Fonte: arquivo pessoal.

Imagens 2: (a) Placa indicativa da trilha Uricanal; (b) Caminhada em meio a Mata Atlântica na trilha Uricanal; (c) Nascer do sol na Pedra do Sino; (d) Visão das  montanhas da Serra dos Órgãos durante o 2º dia da Travessia Petrópolis – Teresópolis. Fonte: arquivo pessoal. 

Concluindo – descendo do cume mas cheio de programações

Não foi nosso objetivo descrever características das trilhas e falar de suas peculiaridades, mas sim descrever como ao longo dos anos as expedições de montanhismo do Cefet/RJ Petrópolis vem ocorrendo.

Foi observado que múltiplos fatores integram-se ao realizar as atividades do projeto “Expedições”, tais como: a interdisciplinaridade, visto que durante o percurso professores estão presentes orientando os alunos sobre os diferentes objetos das trilhas que interessam e fazem parte de suas respectivas áreas de estudo (Geografia, Educação Física, entre outras); a socialização dos estudantes, ponto crucial no processo e construção do aprendizado; integração com a natureza e a tomada de conhecimento do patrimônio natural da cidade e do Estado, ao fazer com que o público conheça e tenha contato direto com as áreas naturais, incentivando e enfatizando a preservação ambiental; produção e divulgação de conteúdo audiovisual sobre os percursos, contribuindo para sua popularização na região.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Secretaria da Educação Básica. 2018.

CBME – Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada. Princípios e valores do montanhismo brasileiro. 2018. Disponível em <http://www.cbme.org.br/novo/wp-content/uploads/2018/07/principios-A5-2018-email.pdf>. Acessado em: 15 de dezembro de 2020.

Freitas, T. Moura, N. Fateicha, B. Santos, BC. Pessoa, L. Salomão, M. S. Porretti, M. F. Pessoa, F. A. (2020) Unidades De Conservação em Petrópolis (RJ): um ensaio sobre suas características e potenciais. In: 9º Simpósio de Gestão Ambiental e Biodiversidade, 2020, Três Rios. Anais… Três Rios, v.1, p. 1 – 7. ISSN 2525-4928.

NEIRA, Marcos Garcia. Incoerências e inconsistências da BNCC de Educação Física. RBCE. Florianópolis, SC: 2018; 40(3): 215-223.

Neto, W. Guia de trilhas de Petrópolis. 1ª ed. Petrópolis. 223p. 2008.

NOVAES, Renato Cavalcanti; TRIANI, Felipe da Silva; TELLES, Silvio de Cássio Costa. A Educação Física na Base Nacional Comum Curricular: desconstruindo o discurso neoliberal. Revista Humanidades e Inovação. Palmas, TO: 2020; v.7, n.10.

Pessoa, F.A. Porretti, M. F. Contribuições da prática do montanhismo para a saúde e conscientização ambiental. In: Giovanni Seabra (Org.) TERRA – A Saúde Ambiental para a Vitalidade do Planeta. Ituiutaba: Barlavento, 824-833 p. 2020.

Porretti, M. F. Pessoa, F. A. Lazer e recreação em Petrópolis: Uma aventura nas trilhas da região serrana do Rio de Janeiro. In: PIMENTEL, G. G. A.; LEÃO JUNIOR, C. M. (org.) Lazer e recreação: contribuições no tempo presente e perspectivas de inovação. Maringá: Clube dos Recreadores. 57-76 p. 2021.

Porretti, M.F. Pessoa, F. A. Thompson, J.V. Salomão, M.S. Pitzer, L.S. Chaves L. D. PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS DO CEFET/RJ CAMPUS PETRÓPOLIS DA TRAVESSIA PETRÓPOLIS-TERESÓPOLIS. In: Simpósio de Gestão Ambiental e Biodiversidade, 2019, Três Rios. 8º Simpósio de Gestão Ambiental e Biodiversidade (07 a 09 de maio 2019). Três Rios: UFRRJ, 2019. v. 8. p. 1-10.

Porretti, M. F. Pessoa, F. A. Assis, M. R. Montanhismo: um relato de experiência da interdisciplinaridade entre educação física e geografia. Caderno de Educação Física e Esporte, Paraná, V. 18, N. 1, 2020.

 

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