O discurso de ódio como tentativa de silenciamento às mulheres jornalistas

Ataques tentam limitar a atuação de profissionais que estão apenas realizando seu trabalho. 

 

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a violência de gênero no Brasil atingiu um recorde histórico em 2025 (FBSP, 2025). E o país parece ainda estar longe de ver esperança para esse cenário, visto que 2026 começou com notícias sobre violências brutais contra as mulheres.

É importante lembrar que o feminicídio é o último estágio de uma violência absurda que as mulheres sofrem historicamente, mas, antes disso, vem a descredibilização da mulher enquanto ser humano. Se ela é assediada ou violentada, buscam-se antes os motivos, ou seja, o que a mulher fez para que isso acontecesse. E, se ela for bem-sucedida, tentam desqualificá-la, como uma tentativa de dizer: aqui não é seu lugar.

Para mulheres envolvidas com esporte, essa desqualificação é muito comum. O machismo e a misoginia presentes na sociedade manifestam-se de maneira ainda mais forte em espaços majoritariamente masculinos. Pode vir com a necessidade de demonstrar conhecimentos básicos para ser aceita no meio ou mesmo na defesa de homens que cometeram violência contra mulheres (Mandelli, 2020). Em outros casos, o ataque à aparência física aparece como uma tentativa de silenciamento de mulheres que ousam levantar a voz nesses ambientes.

 

MUITO MAIS QUE APENAS “DESELEGÂNCIA”

Entre os casos mais recentes está o da comentarista Renata Mendonça, que ocorreu no final de 2025. Após realizar um trabalho jornalístico impecável, ao mostrar os problemas que a equipe feminina do Flamengo enfrenta com vestiário sem manutenção, campo de treino pequeno e falta de instalações adequadas para preparação física e recuperação das atletas, entre outros, e ao buscar respostas com o clube, a jornalista foi ofendida pelo presidente do clube, que não só atacou a aparência física da profissional, como desdenhou do futebol feminino (Lima, 2025).

O Portal Dibradoras, do qual Renata é uma das fundadoras, manifestou solidariedade à jornalista, classificando a declaração de Luiz Eduardo Baptista como machista e inaceitável. “Trata-se de um ataque pessoal que nada tem a ver com jornalismo e reforça práticas misóginas historicamente usadas para constranger e deslegitimar mulheres” (Dibradoras, online, 2025).

Embora muita gente tenha classificado o ataque como falta de decoro, deselegância ou grosseria, ele vai muito além disso, e as consequências também podem ser terríveis. De acordo com levantamento da Revista AzMina, autoridades podem potencializar ataques misóginos contra mulheres jornalistas nas redes. Ainda de acordo com o veículo, o assédio online a jornalistas no Brasil se intensificou nos últimos anos devido ao potencial de exposição criado pelas redes sociais e à institucionalização desses ataques (Martins; Fleck, 2022).

Em outro estudo, a Revista AzMina revelou que, em 2021, as mulheres jornalistas receberam mais que o dobro de ofensas que colegas homens no Twitter. Em geral, os ataques são relativos aos corpos, às idades, à capacidade intelectual e aos relacionamentos pessoais (Santana, 2021).

A ONU Mulheres mostra que mais de dois terços das mulheres jornalistas, defensoras de direitos humanos e ativistas relatam ter sido vítimas de violência online, enquanto mais de 40% afirmam ter sofrido ataques no mundo offline ligados a esses abusos digitais (ONU Mulheres, 2025).

 

O QUE AS PESQUISAS DIZEM SOBRE ISSO?

De acordo com Djuli de Lucca (2025), fenômenos dessa natureza estão em ascensão, a julgar por movimentos radicais masculinistas como os redpill. Em um estudo, a autora mapeou os principais alvos do discurso de ódio e, entre eles, estão as mulheres com presença nos espaços públicos, digitais ou não, principalmente aquelas que ocupam posições cujos estereótipos de gênero determinam como masculinas, como é o caso de jornalistas esportivas ou atletas.

De Lucca (2025) revela que nem sempre as ofensas têm caráter odioso e violento em si mesmas (apesar de serem, sim, uma forma de violência), mas disfarçam-se de humor, ironia e sarcasmo, ou estabelecem rótulos depreciativos. Estudos buscaram caracterizar os tipos de comentários, “identificando que é comum que discursos de ódio se refiram de forma maliciosa ao aspecto físico das mulheres, como corpo, peso e aspectos faciais como boca e olhos, sobrepeso e má aparência” (DE LUCCA, 2025, p. 13), exatamente o caso de Renata Mendonça que citamos aqui.

 

CONSEQUÊNCIAS E COMO AGIR

Na prática, as mulheres que sofrem resistência e hostilidade às suas posições e opiniões tendem a ser silenciadas, ou seja, esse tipo de ataque é uma forma de cercear a liberdade de expressão, além de impulsionar até mesmo a violência física contra essas profissionais.

Embora não possamos cobrar que essas mulheres continuem esse enfrentamento, que pode custar muito à saúde, à vida pessoal e profissional, é dever da sociedade apoiá-las para que possam fazer isso se quiserem. No caso de Renata, pessoas ligadas ao futebol, colegas de profissão e a própria emissora em que trabalha prestaram solidariedade e apoio à jornalista (Lima, 2025). Mas é preciso mais.

Um primeiro ponto é cobrar um pedido de desculpas do presidente do Flamengo, que até o momento não ocorreu. O segundo é nunca esquecer o futebol feminino, como muitos veículos de comunicação fazem, o que sobra para jornalistas mulheres fazerem sozinhas e virarem alvos. Recentemente, por exemplo, muitos portais têm falado sobre a vinda de Lucas Paquetá para o Flamengo — a maior contratação do futebol brasileiro — por 42 milhões de euros. Sobre isso, em entrevista a um jornal espanhol, Luiz Eduardo Baptista afirmou que o clube poderia aumentar em até 50% os gastos sem comprometer a estabilidade financeira e que o modelo de gestão do Flamengo não depende exclusivamente de títulos (Poder360, 2026). Assim, o problema em apoiar o futebol feminino não parece ser financeiro, e sim falta de vontade de ver o crescimento da modalidade. E o ataque à mulher que estava simplesmente fazendo seu trabalho, uma forma de manter o status quo.

 

REFERÊNCIAS

Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. – 1. 2006. São Paulo: FBSP, 2025.

DE LUCCA, Djuli Machado. Discurso de ódio e discurso de ódio encoberto misóginos. Discurso de ódio e discurso de ódio encoberto misóginosSciELO Preprints, 2025. DOI: 10.1590/SciELOPreprints.13909. Disponível em: https://preprints.scielo.org/index.php/scielo/preprint/view/13909. Acesso em: 15 fev. 2026.

DIBRADORAS. Nem no Natal o machismo tira folga. Instagram, 24 de dezembro de 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DSpoSOwjTzh/?igsh=bmdxbG5uYXp4b2Q5. Acesso em: 15 fev. 2026.

LIMA, Ana. Renata Mendonça recebe apoio de personalidades após fala de presidente do Flamengo. Folha de S.Paulo, 24 de dezembro de 2025. Disponível em: https://f5.folha.uol.com.br/voceviu/2025/12/renata-mendonca-recebe-apoio-de-personalidades-apos-fala-de-presidente-do-flamengo.shtml. Acesso em: 15 fev. 2026.

MANDELLI, Mariana. O futebol odeia as mulheres: notas sobre o machismo e a pesquisa de campo. Ludopédio, 19 de outubro de 2020. Disponível em: https://ludopedio.org.br/arquibancada/o-futebol-odeia-as-mulheres-notas-sobre-o-machismo-e-a-pesquisa-de-campo/?srsltid=AfmBOor_sCf9AfS7MCwIwr9yvHifC5E2-7RIm6WtgvPxdscFkYIILju5. Acesso em: 15 fev. 2026.

MARTINS, Laís; FLECK, Giovana. Como autoridades potencializam ataques misóginos e racistas contra jornalistas nas redes. Revista AzMina, 6 de julho de 2022. Disponível em: https://azmina.com.br/reportagens/como-autoridades-potencializam-ataques-misoginos-e-racistas-contra-jornalistas-nas-redes/. Acesso em: 15 fev. 2026.

ONU Mulheres. Sete em cada dez defensoras de direitos humanos, ativistas e jornalistas relatam violência online. ONU Mulheres Brasil, 09 de dezembro de 2025. Disponível em: https://www.onumulheres.org.br/noticias/sete-em-cada-dez-defensoras-de-direitos-humanos-ativistas-e-jornalistas-relatam-violencia-online/. Acesso em: 15 fev. 2026. 

PODER360. Flamengo pode aumentar gastos em 50% sem afetar finanças, diz presidente. Poder360, 12 de fev. 2026. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-sportsmkt/flamengo-pode-aumentar-gastos-em-50-sem-afetar-financas-diz-presidente/. Acesso em: 15 fev. 2026. 

SANTANA, Jamile. Mulheres jornalistas recebem mais que o dobro de ofensas que colegas homens no Twitter. Revista AzMina, 23 de novembro de 2021. Disponível em: https://azmina.com.br/reportagens/mulheres-jornalistas-recebem-mais-que-o-dobro-de-ofensas-que-colegas-homens-no-twitter/. Acesso em: 15 fev. 2026.

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