O apito inicial da Copa do Mundo de Futebol Masculino nos Estados Unidos não inaugurou apenas uma competição esportiva, mas abriu as cortinas de um complexo e contraditório teatro geopolítico e social. Para quem se propõe a olhar além das quatro linhas e dos holofotes do showbiz, a escolha do país como sede deste megaevento evoca um paradoxo profundo.
Os Estados Unidos, país que chama o football de soccer, estão sediando pela segunda vez o maior evento do futebol mundial, desta vez junto com o Canadá e o México. No entanto, a recepção às delegações, assim como outros profissionais ligados à competição, que chegam ao país para a Copa do Mundo de 2026, não tem sido nada acolhedora. Essa hostilidade tem atingido, sobretudo, pessoas oriundas de países latino-americanos, africanos e árabes. É importante destacar que o futebol masculino não é tão popular nos EUA; em contrapartida, o futebol feminino tem forte tradição no país, cuja seleção é considerada uma das maiores da história na modalidade.



Como compreender que em uma nação que o futebol masculino não é tão popular e que ainda é hostil à imigração, principalmente com a ascensão da extrema direita encarnada na figura de Donald Trump, em especial com imigrantes das regiões mencionadas acima, converta-se no epicentro de um dos esportes mais populares do planeta? Ainda mais na maior Copa em números de seleções classificadas, que na última Copa no Catar foram de 32, nesta edição inaugura-se um formato ampliado com 48 seleções e uma etapa “mata-a-mata” a mais.
A partir destes questionamentos levantados acima, parto de dois vieses para analisar as atitudes racistas e xenofóbicas dos EUA neste início de Copa do Mundo. O crescimento do racismo e xenofobia nos EUA transpassando, inclusive, as barreiras do esporte. E a conivência da FIFA, que escancara a aplicação de dois pesos e duas medidas na geopolítica do futebol.
Sociologicamente, o racismo e a xenofobia nos Estados Unidos operam como mecanismos de controle social e preservação de uma suposta identidade nacional hegemonizada. Há um pouco mais de 60 anos, no país ainda existiam políticas de segregação racial que excluíam os negros em detrimento dos brancos na sociedade estadunidense. Nos últimos anos, assistimos a ascensão de uma onda conservadora que normaliza discursos de ódio, e que encontrou canais institucionais e midiáticos para se legitimar. Esse discurso se consolida na primeira eleição de Donald Trump e se reforça em sua segunda eleição (em ambas as ocasiões, o presidente venceu mulheres na disputa eleitoral, Hillary Clinton em 2016 e Kamala Harris em 2024. Em 2020, quando concorreu com outro homem branco, Joe Biden, perdeu as eleições).
Donald Trump é uma figura controversa, marcada pelo discurso de ódio voltado aos grupos minoritários, principalmente imigrantes latinos, e que, muitas vezes, apresenta um caráter antidemocrático.
Trump, sem romper explicitamente com a democracia, possuía uma retórica que questionava as suas regras e a legitimidade dos opositores, intimidava a imprensa, encorajava a violência de seus partidários e se mostrava disposto a restringir as liberdades civis (SINGER et al., 2021, p- 225).
Quanto mais endurecia o discurso de ódio, mais se fortalecia.
Se, no passado, o neoliberalismo esteve ideologicamente associado a abertura, progresso, liberdades individuais e império da lei, agora se conjugaria a fechamento de fronteiras, construção de muros, culto da nação, soberania e agressão aos direitos humanos (SINGER e at al., 2021, p.235)
Apesar de surpreender uma parte das pessoas e gerar revolta, muitas outras se identificaram com o discurso de Trump, “porque seu discurso e em sua pessoa, transcendendo os partidos, reconheceram milhões cujas vozes, haviam sido apagadas pela ‘correção política’ das elites cosmopolitas que haviam monopolizado a política, a cultura e a economia do país” (CASTELLS, 2018, p. 40). Pessoas estas que principalmente não aceitavam imigrantes morando em seu país, o que foi uma das pautas principais do Trump em todas as eleições que concorreu. Em 2016 com a criação de muro na fronteira com o México, no segundo governo intensificando ainda mais políticas anti-imigratórias1 bem como políticas imperialistas.
O FUTEBOL DENTRO DESSE CONTEXTO
O esporte, que é frequentemente idealizado como um território neutro e de união entre os povos, funciona, na verdade, como um espelho amplificador das tensões sociais. Os episódios racistas e o tratamento diferenciado às delegações e torcedores africanas, árabes e latino-americanas evidenciam que as barreiras da segregação nos EUA são elásticas: elas se expandem para engolir até mesmo os palcos do entretenimento global.
Mais recentemente, os EUA apresentaram uma lista de nações que não são bem-vindas ao seu país, dentre elas o Haiti e o Irã2, que estão na Copa do Mundo, porém sem poder ter sua torcida nos estádios. No caso do Irã a situação é ainda pior, os jogadores estão proibidos de dormir nos EUA, mesmo que os seus jogos estejam no país. Os jogadores vão ao país para jogar, mas precisam retornar no mesmo dia para o México, onde estão hospedados3.

Diante da conjuntura apresentada, a FIFA tem se manifestado como uma corporação transnacional cujos princípios éticos são moldados pela conveniência geopolítica e pelo lucro financeiro. Com isso, tem se calado diante dos diversos casos racistas do principal país-sede da Copa do Mundo de 2026.
A contradição salta aos olhos quando confrontamos as sanções aplicadas à Rússia com a complacência direcionada aos Estados Unidos. Sob a alegação de violar o direito internacional ao invadir a Ucrânia, a seleção russa e seus clubes foram banidos sumariamente de todas as competições sob a chancela da FIFA e da UEFA.
No entanto, os Estados Unidos são os anfitriões do torneio máximo do futebol enquanto mantêm uma postura de intervenção militar e econômica agressiva em diversos países do mundo, exemplificada pela recente invasão da Venezuela e pelo estado de guerra e hostilidades abertas com o Irã. O que escancara o alinhamento da FIFA com a hegemonia ocidental com o imperialismo estadunidense, que goza de uma imunidade diplomática esportiva.
De acordo com o professor e escritor Jules Boykoff, ‘Infantino trata os Estados Unidos como um caixa eletrônico privado da FIFA, enquanto Trump posa como uma figura muito importante, estampando sua cara no maior e mais assistido evento esportivo do planeta e roubando o brilho do futebol.’ (ESQUERDA ONLINE, 2026)
Ao adotar uma postura de silêncio a FIFA prioriza a estabilidade dos contratos de patrocínio, os direitos de transmissão bilionários e o acesso ao mercado consumidor estadunidense em detrimento da integridade física e psicológica dos profissionais do futebol. A entidade chancela, por omissão, a violência institucionalizada do país-sede. Não por acaso, no final do último ano, foi dado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a honraria inaugural “prêmio da paz” da FIFA4.
A FIFA espera arrecadar US$ 11 bilhões com a Copa do Mundo de 2026. Preços nunca vistos antes de ingressos – incluindo um sistema de ‘preços dinâmicos’ e uma plataforma de revenda que permite à FIFA ficar com 15% do valor pago por compradores e vendedores, cobrança de centenas de dólares por vagas de estacionamento e a implementação de “pausas para hidratação” obrigatórias em cada tempo, que por acaso são ótimas oportunidades para comerciais – são o único foco de Infantino. Agradar Trump é um pequeno preço a pagar para garantir que a arrecadação seja atingida. (ESQUERDA ONLINE, 2026)
A realização da Copa do Mundo nos Estados Unidos, sob a égide do preconceito escancarado, desmistifica em definitivo o romantismo que outrora cercava o esporte. O futebol, a maior expressão da cultura popular global, foi sequestrado para servir como vitrine de um império em crise de identidade, que rejeita o estrangeiro na mesma medida em que cobiça o capital que ele gera.
As atitudes racistas e xenofóbicas que marcam o início deste torneio não são falhas operacionais, mas sintomas de um sistema que tolera a presença do outro apenas enquanto mercadoria descartável. Enquanto a bola rola nos luxuosos e higienizados estádios estadunidenses, o verdadeiro placar que se desenha nos bastidores é o da consolidação do arbítrio do país Norte-Americano, onde a dignidade humana e o direito internacional são sacrificados em detrimento do lucro e do poder geopolítico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTELLS, Manuel. “A rebelião das massas e o colapso de uma ordem pública.” In.: Ruptura: A crise da democracia liberal. 1ª edição. Zahar, 2018.
LEVTISKY E ZIBATT. Como as democracias morrem. Zahar, 2018.
SINGER, André. ARAUJO, Cícero; BELINELLI, Leonardo. “Espectros Autoritários.” In.: Estado e democracia – uma introdução ao estudo da política. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
SITES:
https://esquerdaonline.com.br/2026/06/15/os-estados-unidos-levam-a-copa-do-mundo-a-um-novo-patamar-de-decadencia/ ACESSO EM: 16/06/2026
https://inside.fifa.com/campaigns/football-unites-the-world/news/president-trump-peace-prize-football-unites-the-world ACESSO EM: 16/06/2026
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cewnpjqzy5qo ACESSO EM: 16/06/2026
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/06/14/vetados-na-copa-torcedores-de-duas-selecoes-estao-proibidos-de-entrar-nos-eua.ghtml ACESSO EM: 15/06/2026
https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/copa-do-mundo/selecao-do-ira-nao-podera-permanecer-nos-eua-entre-partidas-da-copa/ ACESSO EM: 10/06/2026
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cewnpjqzy5qo ACESSO EM: 16/06/2026 ↩︎
- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/06/14/vetados-na-copa-torcedores-de-duas-selecoes-estao-proibidos-de-entrar-nos-eua.ghtml ACESSO EM: 15/06/2026 ↩︎
- https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/copa-do-mundo/selecao-do-ira-nao-podera-permanecer-nos-eua-entre-partidas-da-copa/ ACESSO EM: 10/06/2026 ↩︎
- https://inside.fifa.com/campaigns/football-unites-the-world/news/president-trump-peace-prize-football-unites-the-world ACESSO EM: 16/06/2026
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