O retrato de um mito: Pichichi e as interseções entre futebol e arte na Espanha

O berço dos primeiros destaques do futebol espanhol, para alguns, pode ser inusitado: o País Basco. A região, de cerca de 20km², localizada entre a Espanha e a França, tem longo histórico de movimentos separatistas e forte cultura local. Ainda assim, foi no País Basco que se produziram os primeiros times de destaque do país, com o Athletic Bilbao despontando como o grande time das décadas iniciais do século XX.

Nesse cenário, os primeiros ídolos do esporte começaram a surgir, e uma dessas figuras era Rafael Moreno Aranzadi, o Pichichi. Para além do campo, Moreno ficaria marcado não só pela sua figura em campo. O jogador foi protagonista em uma pintura de Aurelio Arteta, um pintor também basco. O quadro pode ser entendido como um dispositivo integrado ao processo de construção simbólica do futebol como fenômeno social. Em um contexto no qual o esporte ganhava status de espetáculo e atraía artistas, cronistas e fotógrafos, o gesto de retratar um jogador em tela assume significado particular, conferindo ao futebol uma importância no cenário social.

 

 

A breve década de Pichichi

Nascido em 1872, na vizinhança de Casco Viejo, era sobrinho de um famoso escritor basco e seu pai chegou a ser prefeito. A família de Pichichi – apelido que deriva de pitxitxi, que significa “mínimo” em basco – incentivou que ele seguisse a carreira acadêmica, mas após um ano, largou a faculdade de direito e nada o impediria de seguir sua verdadeira paixão: o futebol.  

Seu jogo de estreia com a camisa do Athletic Bilbao foi em 1913, nas semifinais da Copa del Rey contra o Real Madrid. Logo no primeiro jogo, Pichichi marcou um gol, ajudando a garantir a vitória por 3×0. No mesmo ano, se tornaria o primeiro jogador a marcar no lendário estádio de San Mámes, em Bilbao, na partida inaugural, um amistoso contra o Racing Irun. 

O grande momento do jogador aconteceria em 1914, quando marcou um hat-trick e deu uma assistência na vitória de 5×0 do Athletic Bilbao contra o RCD Espanyol. Segundo jornais da época, o público do estádio aplaudia Pichichi a cada gol e cada drible que realizava em cima dos adversários. A partir desse momento, ele não era apenas um jogador de futebol: alcançou o estrelato do esporte no esporte, sendo entendido como o primeiro jogador celebridade na Espanha. Mas com a ascensão, vieram também as críticas. Moreno era um jogador egoísta, ressaltando seu individualismo dentro de campo.

Em 1920, fez parte do grupo que jogou as Olimpíadas da Antuérpia, e gerou a Espanha o apelido de “fúria”, criado por um jornal francês. No torneio, a seleção espanhola fez uma ótima campanha, chegando a final e ficando com a medalha de prata, após ser derrotada pela Bélgica. 

Durante os 12 anos que jogou pelo time basco, Pichichi conquistou quatro Copas del Rey antes de se aposentar, aos 29 anos, em 1921. Teve uma morte repentina em 1922, logo antes de seu aniversário, e apesar da causa da morte nunca ter sido confirmada, a suspeita é de febre tifoide.  

Mesmo depois do falecimento, Pichichi se tornou uma das principais lendas do clube Athletic Bilbao. Alguns anos depois, em 1926, foi encomendado um busto do jogador ao artista Quintin de Torre Berástegui, e a obra foi instalada no estádio de San Mámes. Até hoje, é tradição que quando um time visite o estádio pela primeira vez deposite flores ao pé da homenagem a Pichichi, em um gesto de respeito ao atleta e ao clube. Além disso, desde 1929, o Trofeo Pichichi é o nome do prêmio que o jornal Marca concede ao melhor jogador da temporada espanhola. 

O retrato e a lenda 

Em 1920, Pichichi e sua futura esposa, Avelina Rodriguez, foram destaques na pintura “Idilios en los Campos de Sport” (Romance nos campos esportivos), feita pelo artista Aurelio Arteta.  

Arteta foi um importante pintor basco, que transitou por diferentes estilos, como simbolismo, realismo e cubismo. Estudou na França e Itália antes de abrir um estúdio em Bilbao, em 1911. Durante a Guerra Civil, precisou sair do cargo que ocupava como pintor na Escuela Técnica Superior de Madrid de Pintura, já que era conhecido por ser republicano, fugindo para Barcelona, depois Valência e por fim para a França. Quando a França foi invadida pelos nazistas em 1940, escolheu exilar-se mais uma vez, agora no México, onde faleceu junto a sua esposa.

Até 1920, Arteta ainda atuava como artista em Bilbao, pintando cenas cotidianas da cidade. Em uma dessas ocasiões, para tela encomendada pelo Athletic Bilbao, escolheu a cena de Pichichi conversando com uma mulher, que curiosamente viria a se tornar sua esposa. O jogador aparece usando o uniforme com listras vermelhas e brancas do clube basco, e com os calções azuis, gerando discussões sobre quando teria sido pintada. O uniforme do clube com calções azuis indica que a obra foi feita antes de 1915, quando o calção preto foi introduzido no uniforme do time.

A pintura se tornou uma das mais famosas contribuições da interseção entre arte e futebol na Espanha. Criada em período próspero do País Basco, o quadro representava mais do que um jogador e sua fã: era uma representação do sucesso e a consolidação da figura de uma das primeiras lendas do futebol espanhol. A pose do jogador, combinada com a da figura feminina, cria um cenário de que a conversa dos dois não seria apropriada para o intervalo de um jogo.

Durante décadas, a imagem alimentou a imaginação do país. De tão marcante, foram feitas até tentativas de recriá-la, como por exemplo em 1998, às vésperas da Copa do Mundo, quando o jogador Julen Guerrero, do Athletic, foi fotografado deliberadamente em pose parecida, acompanhado de sua namora, com o Museu de Guggenheim, em Bilbao, no fundo. A falta de naturalidade na foto posada apenas reforça o valor do quadro original, que após passar anos na sala do presidente do Athletic Bilbao, hoje é parte da coleção de um museu na cidade.

 

 

“Idilios en los Campos de Sport” revela como o futebol, ainda em suas primeiras décadas, já mobilizava dispositivos culturais capazes de produzir identidade e mitificação. Ao representar o atleta segundo códigos estéticos da arte da época, Arteta não apenas eternizou uma figura esportiva, mas contribui para construir um imaginário visual que ultrapassa o campo de jogo e se insere na história cultural da região, confirmando o papel de Pichichi como de um mito fundador do futebol espanhol.  

 


Referências 

RFEF. 123 años del nacimiento de Pichichi – pioneros de la selección. RFEF. Disponível em: https://rfef.es/es/noticias/123-anos-del-nacimiento-pichichi-pionerosseleccion. Acesso em: 02 dez. 2025.

ATHLETIC-CLUB. Rafael Moreno Aranzadi: the Athletic player who became Pichichi. Athletic-Club. Disponível em: https://www.athletic-club.eus/en/news/2021/03/17/rafael-moreno-aranzadi-the-athletic-player-who-becamepichichi/. Acesso em: 02 dez. 2025. 

BALL, Phil. Morbo: The story of Spanish football. WSC Books Limited, 2003.

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