A busca por atividades na natureza não é algo novo. Desde o século XIX, especialmente com o avanço da vida urbana, a natureza passou a ser vista como um espaço de refúgio — um lugar de escape do ritmo acelerado das cidades e de reconexão consigo mesmo (Dias, 2009; Campbell, 2001). Montanhas, florestas e o mar deixaram de ser vistos apenas como espaços perigosos ou improdutivos e passaram a ser associados ao lazer, à saúde e ao bem-estar.
Em paralelo, ocorrências de eventos significativos influenciaram a difusão dos esportes de aventura, como grandes desastres ambientais, que tornaram as preocupações ecológicas, pouco a pouco, mais presente na reflexão dos cidadãos, em uma busca por resguardar o que era possível (Oliveira, 2016). No contexto brasileiro, a valorização da natureza também esteve intimamente ligada à formação da identidade nacional.
Estes esportes são fortemente influenciados pela interação com o meio natural, que nestes casos, não compõe apenas um palco ou cenário de uma atividade, mas é um elemento ativo, partícipe, que define a experiência. Estas práticas muitas vezes são atreladas a discursos ambientalistas, que associam esses esportes à preservação ecológica, e permanecem sendo, até hoje, frequentemente associadas a causas sociais (Spink; Spink, 2009). Isso se explica ao considerar que, em muitos casos, o praticante depende mais da natureza do que de uma quadra, de um campo ou de uma pista. O vento, o relevo, a chuva e o sol não são obstáculos: são parte do esporte e devem ser preservados.
Foto 1. Vista de Niterói do alto do Parque da Cidade de Niterói, acervo da autora, 19.04.2024
Esse tipo de experiência ajuda a entender por que os chamados “esportes de aventura” ou “esportes de risco” cresceram tanto nas últimas décadas. Eles não são apenas práticas físicas/corporais, mas também experiências simbólicas, carregadas de sentidos ligados a valores como liberdade, autonomia, desafio e busca por experiências intensas — valores associados à vida contemporânea (Costa, 2009).
Um laboratório de esportes na natureza e de risco
Poucos lugares no mundo combinam o urbano e a natureza como o Rio de Janeiro. Montanhas, praias, florestas e áreas urbanas convivem lado a lado, criando um ambiente singular para práticas como o parapente e o surf. Esta configuração constante permite que práticas ao ar livre sejam incorporadas à paisagem e ao cotidiano dos “cariocas”, em uma permanente tensão entre a busca pela aventura e bem-estar e a necessidade de segurança e infraestrutura.
Algum nível de dominação ou domesticação dos espaços selvagens é pré-requisito para sua coroação como lugar esportivo ou como campo destinado aos negócios. As empresas especializadas na oferta de aventuras em meio à “natureza selvagem” sabem disso e investem em pacotes que conciliem aventura e conforto. (Dias; Junior, 2007, p. 43).
Essa proximidade entre espaços urbanos e naturais não apenas favoreceu o surgimento dessas práticas, como também ajudou a transformá-las em parte intrínseca da própria identidade local. Mais do que um cenário bonito, a paisagem do Rio de Janeiro é um ambiente distinto, que moldou modos de viver, de se exercitar e de ocupar a cidade. Com o decorrer do tempo, essa relação com a natureza deixou de ser apenas contemplativa e passou a ser também esportiva, passando a ocupar esses espaços. Caminhar em trilhas, escalar montanhas, pedalar em estradas de terra, voar de asa delta ou parapente — tudo isso, no Rio, não é exceção. É parte da vida urbana.
Foto 2. Goulart, Juliana. Aventuras matinais junto à beleza natural do Rio. Vida Carioca. 1 Nov 2019. Acesso em 26.03.2026.
O Rio de Janeiro acabou se tornando uma espécie de laboratório natural para os esportes de aventura e de risco. A combinação de montanhas, florestas, praias e ventos favoráveis criou condições ideais para o desenvolvimento de várias modalidades. Trilhas no Parque Nacional da Tijuca, escaladas no Pão de Açúcar, surf em praias como Arpoador e Itacoatiara, mountain bike em áreas de mata — todas essas atividades ajudaram a construir a imagem do Rio como uma cidade onde esporte e natureza estão profundamente conectados.
Dentro desse contexto mais amplo, Niterói ocupa um lugar importante. Pertencente à Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, inserida nessa dinâmica desde o século XIX, diferentes modalidades ajudaram a formar a identidade local niteroiense, funcionando como símbolos de prestígio e pertencimento (Melo, 2020), especialmente os esportes ligados ao mar e aos ventos. A “Cidade Sorriso”, com sua conformação geográfica e espaços privilegiados, ao longo de décadas, sediou grandes eventos, construiu infra estruturas e consagrou diversos atletas do esporte nacional, carregando um rico legado esportivo. (Viana; David, 2024).
O Parque da Cidade, localizado no Morro da Viração, é um dos principais exemplos disso (Camolesi, 2025). O local reúne trilhas, ciclismo de montanha, caminhadas e voo livre, além de ser um dos pontos turísticos mais visitados da cidade (Jornal O Dia, 2024; Enfoco Notícias, 2023). Mais do que isso, é um lugar onde natureza e cidade se encontram de forma intensa. Em poucos metros, é possível estar na mata, avistar o mar, a lagoa e a paisagem urbana tanto de Niterói, quanto do Rio de Janeiro e a ponte que os interliga. Com o aumento da visibilidade e do fluxo de visitantes, o Parque passou a ocupar um lugar central no imaginário da cidade. E, mais recentemente, também nas políticas públicas, com um esforço de patrimonialização do voo livre de Niterói naquele local há mais de 30 anos.
Foto 3. Parapentes voando acima da Baía de Guanabara, acervo da autora, 18.01.2025
Muito além de um escape
No caso do Rio e de Niterói, a paisagem com pessoas voando de asa delta ou parapente se tornou uma imagem clássica, quase um cartão-postal. Isso mostra como um esporte pode deixar de ser apenas uma prática e passar a ser também um símbolo urbano.
Quando se fala em esportes de aventura, é comum pensar em emoções intensas, como adrenalina. Mas, no caso do Rio de Janeiro, eles representam algo maior: uma forma específica de viver a cidade. Isso indica que as cidades do estado não são feitas apenas de ruas, prédios e trânsito, mas também de trilhas, montanhas, ventos e mar. Nos mostra também que a natureza, neste contexto, não está separada da vida urbana — faz parte dela.
Talvez seja por isso que tantos esportes de aventura tenham encontrado no Rio um lugar para se desenvolver. Pois, mais do que em muitos outros lugares, a cidade e a natureza não são opostas. Elas convivem, se misturam e, juntas, criam um cenário onde voar, escalar, correr ou surfar, se torna quase uma continuação natural da vida cotidiana.
Referências bibliográficas
CAMOLESI, Emanuelle de Oliveira. Para além do risco: corpo, emoção e as construções de relações sociais na prática de instrutores de parapente no Parque da Cidade de Niterói/RJ. Dissertação. Programa de Pós-graduação em Antropologia, Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2025.
CAMPBELL, Colin. A ética romântica e o espírito do consumismo moderno. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
COSTA, Vera L. M. O imaginário da aventura. In: DIAS, Cleber; JUNIOR, Edmundo (orgs.). Em busca da aventura: múltiplos olhares sobre esporte, lazer e natureza. Niterói: EDUFF, 2009. p. 53-72.
DIAS, Cleber Augusto Gonçalves. Para uma história do lazer na natureza. In: DIAS, Cleber; JUNIOR, Edmundo (orgs.). Em busca da aventura: múltiplos olhares sobre esporte, lazer e natureza. Niterói: EDUFF, 2009. p. 35-52.
DIAS, Cleber; JUNIOR, Edmundo (orgs.). Entre o mar e a montanha: esporte, aventura e natureza no Rio de Janeiro. Niterói: EDUFF, 2007.
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GOULART, Juliana. Aventuras matinais junto à beleza natural do Rio. Vida Carioca. 1 Nov 2019. Disponível em: https://vidacarioca.net/aventuras-matinais-rio-de-janeiro/ Acesso em 26.03.2026.
JORNAL O DIA. “Parque da Cidade recebe melhorias, com mais acessibilidade e impacto para o turismo.”. Jornal O Dia, Niterói, 09 mai. 2024. Disponível em: https://odia.ig.com.br/niteroi/2024/05/6842471-parque-da-cidade-recebe-melhorias-com-mais-acessibilidade-e-impacto-para-o-turismo.html. Acesso em: 12 ago. 2025.
MELO, Victor Andrade. A vida sportiva de Nictheroy (séc. XIX-1919). Niterói: Niterói Livros, 2020.
OLIVEIRA, Cilene Lima de. Aventura, performance, sofrimento: construção de corporalidades em esportes de aventura. Dissertação de Mestrado em Antropologia: Universidade Federal Fluminense. Pós-graduação em Antropologia: Rio de Janeiro, 2016.
SPINK, Mary Jane; SPINK, Simon Paul P. Aventura esportiva na modernidade tardia. In: DIAS, Cleber; JUNIOR, Edmundo (orgs.). Em busca da aventura: múltiplos olhares sobre esporte, lazer e natureza. Niterói: EDUFF, 2009. p. 21-34.
VIANA, José A. Rodrigues; DAVID, Luiz Antônio. Exposição Niterói: A cidade e o esporte, fatos, lugares e personagens que marcaram a história esportiva da cidade e suas regiões. Niterói, 2024. Visitada em 18 out. 2024.



