Há muito tempo que esporte, política e negócios se misturam. Desde a Antiguidade até hoje, competições esportivas são usadas como palco de disputas simbólicas. Estudos acadêmicos já esmiuçaram o papel diplomático e político dos eventos esportivos e as relações existentes entre governos, associações esportivas e a mídia global. Nunca faltam tensões a serem analisadas, como as que foram registradas no último dia 8 de fevereiro em Santa Clara, na Califórnia. Durante o Super Bowl LX o Seattle Seahawks venceu o New England Patriots por 29 a 13 terminando a temporada como campeão da NFL (National Football League), principal campeonato de futebol dos Estados Unidos. Mas, apesar da vitória e do sistema defensivo usado para a conquista do segundo título da história do Seattle Seahawks, a principal atração do Super Bowl, evento de maior audiência televisiva do país norte-americano, foi o show do intervalo. Pela primeira vez na história, o cantor e rapper porto-riquenho Benito Antonio Martinez Ocasio, conhecido profissionalmente como Bad Bunny, comandou o show do intervalo em espanhol.

Dessa vez, o evento, que reforça narrativas de identidade nacional, não contou com a participação do presidente Donald Trump, que preferiu marcar a simbologia patriótica com postagens em suas redes sociais.
Absolutamente terrível, um dos piores de todos os tempos! Não faz sentido nenhum, é uma afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência, publicou Trump na postagem.
Anteriormente, em 2016, Donald Trump já tinha feito críticas indiretas à NFL e aos atletas, quando o quarterback Colin Kaepernick ajoelhou durante o hino nacional contra a violência policial.
Mais uma vez a final esportiva se desdobrou em espetáculo midiático, plataforma política e comercial mostrando que de neutro o esporte tem muito pouco. Como mobiliza emoções coletivas, identidade nacional e visibilidade global dá para entender porque Bad Bunny, especialista no perreo do reggaeton, marcou um touchdown no intervalo do Super Bowl 2026 transformando o Levi’s Stadium em uma arena ideológica.
Uma semana antes, já tinha feito história no Grammy 2026 ao vencer o cobiçado Álbum do Ano com “Debi Tirar Más Fotos”, o primeiro em espanhol a ganhar. Durante o discurso, feito em espanhol, Bad Bunny exaltou Porto Rico e a cultura dos latinos em um momento em que eles são o principal alvo da política contra imigração do governo Donald Trump:
Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas, somos humanos e somos americanos. O ódio se torna mais poderoso com mais ódio. A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor. Então, por favor, precisamos ser diferentes.
O porto-riquenho não foi o único artista a se manifestar durante o Grammy contra o ICE- Immigration and Customs Enforcement, serviço de Imigração e Alfândega dos EUA. No Super Bowl, Bad Bunny, que se prepara para estrear também na telona no filme Porto Rico, preferiu usar a música, os requebros e as imagens de latinos trabalhando em várias frentes para ressaltar a importância deles na economia norte-americana. E, com um desfile de bandeiras de países das três Américas, o El Conejo Malo, principal apelido de Bad Bunny, mostrou que para além de Porto Rico, ilha que é território dos EUA desde o século XIX, 35 países independentes e 18 territórios dependentes do continente americano merecem ser celebrados e tratados com amor.

Vale lembrar que, embora o voto dos eleitores latinos de uma maneira geral seja importante nas eleições presidenciais estadunidenses, ter nascido em Porto Rico, não dá aos cidadãos porto-riquenhos o direito de votar para eleger o presidente do país, como explicou matéria publicada no fim de 2024 pela CNN Brasil sobre uma eleição simulada em que a candidata democrata Kamala Harris, derrotada por Trump, aparecia como vencedora na ilha.
Mas, se as relações nacionais e internacionais são limitadas, nos esportes olímpicos Porto Rico compete como nação independente e busca sua “soberania esportiva”. (CASTRO, 2004)
Tem destaque em modalidades como o basquete e o boxe. O beisebol também é bastante popular em Porto Rico. O país adota o azul-marinho nos uniformes esportivos, mas o tom azul-celeste ainda é um símbolo de resistência por representar o antigo movimento de independência. Foi exatamente esse o tom do vestido usado por Lady Gaga, que assim como Ricky Martin, foi convidada por Bad Bunny a participar do show do intervalo. E, mesmo cantando “Die With a Smile” em inglês, adotou um ritmo de salsa no Super Bowl destacando a cultura latina. Bunny desfilou várias vezes com a bandeira azul clara revolucionária, o que deu ainda mais motivos para os republicanos ficarem incomodados com o convite feito pela NFL a Bad Bunny.

Se a ideia da liga esportiva profissional de futebol americano dos Estados Unidos era ampliar o alcance global do evento, o objetivo foi atingido. O show do intervalo gerou bilhões de visualizações nas redes sociais de todo mundo segundo a plataforma Google Trends.
E, apesar de todas as polêmicas, o sistema de análise da Nielsen Media Research mostrou que a transmissão do Super Bowl LX pela NBC Sports esteve entre as maiores audiências televisivas da história dos EUA, 124,9 milhões de espectadores e 137,8 milhões no segundo quarto. A performance também gerou um alto engajamento no Google e um salto nas buscas por Porto Rico e por Bad Bunny, o que certamente agradou em cheio as emissoras, que alternadamente pagam bilhões de dólares pelos direitos de transmissão do jogo. Sem falar, é claro, dos anunciantes que reconhecem o potencial desse espaço publicitário, um dos mais caros do mundo, como vitrine internacional. Grandes empresas chegam a pagar milhões por cada 30 segundos de exibição de seu comercial no intervalo do Super Bowl. Relatos publicados na mídia revelam que algumas propagandas exibidas no domingo (8) foram comercializadas por valores em torno de US$10 milhões e que ainda assim os espaços publicitários se esgotaram com meses de antecedência. Como tradicionalmente a lista dos melhores e mais criativos comerciais é divulgada logo após o evento, as empresas não poupam esforços nem dinheiro para fazerem campanhas memoráveis.
O Super Bowl também movimenta turismo, hotelaria e infraestrutura. Como a sede do evento é selecionada previamente pela NFL, as cidades competem para serem escolhidas. Governos estaduais e municipais oferecem incentivos públicos e fiscais para atrair o jogo. Em 2027, o Super Bowl volta à Califórnia, mas será no Sofi Stadium, o estádio que vai receber a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028.
A disputa em torno do Super Bowl, portanto, vai bem além do campo. Ela acompanha as da sociedade capitalística, já destacadas por Félix Guattari, que explica que as relações sociais estão ramificadas em “redes de poder, de competências técnicas, de instituições, de equipamentos, de fluxos monetários, de fluxos de saber, de fluxos de mercado, etc”. (GUATTARI, 2011a, p. 43) Todos trabalham para a homogeneização e padronização dos comportamentos humanos em todos os ambientes potenciais de consumo. Afinal, o espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social. Não apenas a relação com a mercadoria é visível, mas não se consegue ver nada além dela: o mundo que se vê é o seu mundo. (DEBORD, 1997, p. 30)
E, enquanto o mundo discutia a polêmica apresentação de Bad Bunny no Super Bowl, um espetáculo teoricamente unicamente esportivo e de entretenimento, um sistema milionário de interesses políticos e comerciais trabalhava ininterruptamente nos bastidores do palco simbólico de disputas políticas e culturais. O Seattle Seahawks foi colocado à venda dez dias após a conquista do título.
Mas a mensagem de união das Américas se espalhou, o esporte mais uma vez foi usado como ferramenta de poder brando (soft power) e Bad Bunny brilhou.
Referências
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
GUATTARI, Félix. Lignes de fuite: pour un autre monde de possibles. La Tours d’Aigues: L’aube, 2011a.
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CASTRO, E. Sports Sovereignty In Puerto Rico. NACLA Report on the Americas, v. 37, n. 5, p. 31–31, jan. 2004.
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Bad Bunny é aplaudido em discurso contra agência de imigração nos EUA: ‘Não somos animais’ | G1
