Para encerrar o bloco de respostas e comentários no Café Intercom sobre “O futebol de mulheres antes da Copa 2027: Relatos de Observatórios”, no dia 18 de junho, perguntei às colegas Alicia Soares (Observatório das Transmissões de Futebóis), Carol Vimieiro (Coletivo Marta) e Leda Costa (Observatório Social de Futebol/LEME) sobre propostas de pesquisa sobre o mundial. Recebemos um spoiler de evento do INCT Futebol. Usarei este espaço no site do LEME para fazer algo semelhante.
Apresentarei os elementos gerais do projeto de pesquisa de iniciação científica planejado pelo grupo de pesquisa CEPCOM (Crítica da Economia Política da Comunicação) para trabalhar sobre o megaevento, de setembro de 2026 a agosto de 2027.
“Estruturação, mercantilização e espacialização em tempos de Copa do Mundo no Brasil: Análise do investimento para o futebol de mulheres e da cobertura da Copa em Alagoas” foi enviado no edital PIBIC/PIBIC-AF ciclo 2026-2027 da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), onde o grupo é lotado.
Objetivos e metodologia
O projeto foi estabelecido para ser desenvolvido em quatro planos de trabalhos, cujo objetivo geral é avaliar o possível impacto deste megaevento no Brasil nos investimentos da modalidade e na cobertura midiática em Alagoas. A opção por esse duplo caminho se dá pela minha atuação enquanto professor em dois cursos de gestão, Economia e Ciências Contábeis, com orientações de graduação no Jornalismo.
A partir disso, nos propomos a, em termos de objetivos específicos:
– Levantar o investimento do futebol de mulheres a partir dos balanços da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Federação Alagoana de Futebol (FAF) nos anos anteriores do ciclo da Copa do Mundo FIFA (2024-2026);
– Analisar a cobertura midiática da Copa do Mundo FIFA Brasil 2027 de futebol de mulheres nos programas esportivos de emissoras de TV aberta de Alagoas do sorteio das chaves à repercussão da final;
– Realizar análise de conteúdo da cobertura realizada por sites noticiosos de Alagoas sobre a Copa do Mundo FIFA Brasil 2027 de futebol de mulheres do sorteio das chaves à repercussão da final;
– Fazer levantamento e análise de conteúdo a partir do perfil na mídia social Instagram da “Seleção Feminina de Futebol” e da “FAF Alagoas” sobre a Copa do Mundo FIFA Brasil 2027 de futebol de mulheres do sorteio das chaves à repercussão da final.
Para isso, desenvolve-se pesquisa quali quantitativa a partir de métodos histórico, descritivo, comparativo e estatístico, tendo como base teórico-metodológica principal da revisão de literatura e para análise a Economia Política da Comunicação (EPC), especialmente seus estudos sobre o futebol e as publicações sobre gênero.
Estruturação e mercantilização
Estudar estruturação, espacialização e mercantilização do futebol de mulheres a partir de um megaevento esportivo é aplicar conceitos criados em determinado nível de abstração para a análise de um elemento cultural e de entretenimento popular, a partir da construção teórica da EPC (Santos, A., 2014).
Enquanto modalidade estruturada décadas depois da modalidade masculina, o futebol de mulheres carrega o peso dos efeitos das desigualdades de uma sociedade patriarcal capitalista (Souza, R.; Bastos, 2025), de maneira que nos interessa neste momento histórico de Copa do Mundo FIFA de futebol de mulheres compreender como se deu o investimento de entidades paraestatais de organização, incentivo e desenvolvimento da modalidade.
Assim, pretende-se seguir trajetória das pesquisas anteriores do CEPCOM quanto à análise de ao menos parte das evidenciações contábeis de clubes e federações de futebóis, especialmente quando se trata de receitas (Araújo; Ferreira; Brandão, 2022; Souza, V.; Santos, A., 2023; Souza, 2024). Aqui, nos interessará especialmente os registros de investimentos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Federação Alagoana de Futebol (FAF) na modalidade.
Compreende-se que o ciclo de Copa é a grande oportunidade de um investimento maior na modalidade, observar isso na entidade nacional deve ser comum não só no âmbito da pesquisa acadêmica, mas também do ponto de vista jornalístico. Porém, faz-se necessário observar como isso se dá também na escala micro, com a nossa escolha pela FAF demarcando o interesse de observação sobre a nossa localidade também neste projeto.
Afinal, se não é estranho que também no futebol de mulheres sejam os clubes destes estados a terem maior visibilidade, com São Paulo com torneio local mais bem estruturado no país, o que indica também mais títulos nacionais e sul-americanos de equipes deste local, torna-se fundamental acompanhar quem está possivelmente no caminho inverso para pensar o pleno desenvolvimento e estruturação da modalidade no Brasil.
Espacialização
Em paralelo, seguiremos no desenvolvimento de procedimentos analíticos para análise de conteúdo de postagens do Instagram a partir de agentes envolvidos no jogo, sejam clubes e federações (Lima; Santos, 2025; Carvalho; Santos, 2026). Neste caso, a CBF tem um perfil próprio para a “Seleção Feminina”, o que demonstra preocupação específica com a divulgação das informações da modalidade. Enquanto a FAF tem um perfil para tudo “FAFOficial”.
Além desse tipo de espacialização, a cobertura midiática é importante para este objeto de estudo ao se considerar a difusão de ideias, valores e naturalização de aspectos socioculturais ainda prejudicados por certa visão conservadora da sociedade (brasileira).
A Indústria Cultural foi um elemento importante para a constituição da força socioeconômica do futebol profissional masculino e de outros esportes e modalidades.
Esse futebol aumentava o interesse de empresas para acelerar a circulação de mercadorias (função publicidade) e do Estado para chegar aos cidadãos e cidadãs (função propaganda) sobre ele, ao mesmo tempo em que se torna um programa (terceira função da Indústria Cultural) midiático importante para atrair a mercadoria audiência para as empresas infocomunicacionais, que a usam para gerar recursos com a publicidade (Santos, 2021). Trata-se de algo importante para múltiplas ofertas de diferentes indústrias.
Se mercantilização é um ponto de entrada entendível, por ser a produção de mercadoria (aqui, referentes às que o futebol de mulheres pode mobilizar), a espacialização é uma categoria de análise que auxilia a entender “como a Indústria Cultural auxilia a reprodução do capitalismo e, em seguida, para tratar da forma globalizada das trocas financeiras e culturais que funcionam no início do século XXI” (Santos, 2021, p. 102).
Januário (2019) explica que mesmo a mudança de cenário sobre a modalidade se deu a partir de uma “primavera feminista” no Brasil, em meados da década de 2010, que avançou também para o campo esportivo. Porém, a própria autora destaca anos depois que: “Mesmo com avanços recentes, o futebol de mulheres ainda enfrenta barreiras estruturais resultantes desse longo período de invisibilização e marginalização” (Januário, 2026, p. 38).
Além disso, concordando com o que apontam Bolaño et al. (2024, p. 79) ao tratarem da maior presença de mulheres (e pessoas negras) na TV:
Do ponto de vista dessas funções (publicidade, propaganda e programa), a presença da figura feminina cumpre o papel de atender às necessidades de comunicação dos capitais individuais e do Estado, de um lado, e às necessidades de reprodução simbólica do público, de outro lado, sempre de acordo com o momento histórico contingente das articulações entre esfera da circulação mercantil, da produção de mercadorias e a esfera privada doméstica. Trata-se, em todo caso, não só de uma permanência como de reforço da dominação, visto que a própria reprodução simbólica do mundo da vida se apresenta como funcional ao sistema que a coloniza.
Assim, a opção aqui é compreender a cobertura jornalística de programas esportivos de TV aberta e sites noticiosos alagoanos, considerando especialmente uma categoria analítica que Januário, Veloso e Cardoso (2016) denominaram de “Marta e cia.”: “[…] regida pelo uso da imagem de Marta como protagonista das notícias, seja em entrevistas com a atleta ou com o uso da expressão Marta e cia substituindo o termo seleção brasileira. […] Pode ser percebida uma tendência de utilizar a jogadora como estrela da seleção” (p. 178).
Além desse destaque por se tratar da única jogadora brasileira a conquistar o título de melhor atleta da modalidade do mundo pela FIFA (e por seis vezes), Marta é nascida na cidade de Dois Riachos, no sertão alagoano. Trabalha-se com a hipótese de ainda maior destaque a ela, em sua possível última disputa internacional com a Seleção, pelos veículos de comunicação local.
A partir desse panorama, aguardamos o resultado da avaliação do projeto de pesquisa, mas nos colocamos à disposição para parcerias de quem pretende estudar outras questões relacionadas, inclusive, sobre a exibição da competição, algo que o CEPCOM constrói desde o Observatório das Transmissões de Futebóis, projeto em parceria com o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.
Referências
ARAÚJO, R. A.; FERREIRA, E. da; BRANDÃO, L. C. G. Evidenciação contábil nas entidades desportivas: análise dos clubes alagoanos de futebol profissional. 51 f. 2022. Trabalho de Conclusão de Curso Parcial (Bacharelado/ Licenciatura em Ciências Contábeis) – Unidade Santana do Ipanema, Curso de Ciências Contábeis, Universidade Federal de Alagoas, Santana do Ipanema, 2022.
BOLAÑO, C. R. S. et al. Patriarcado, valor e comunicação. Modos de vida, Trabalho e as relações de Gênero sob o capitalismo. Revista Latino-Americana de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 21, n. 39, p. 67-82, 2022. DOI: 10.55738/alaic.v21i39.815.
CARVALHO, M. de; SANTOS, A. D. G. dos. Observação inicial do perfil de Instagram da UDA na Série A2. Ludopédio, São Paulo, v. 203, n. 1, 2026.
JANUÁRIO, S. B. M. B. A mídia esportiva e as Copas do Mundo do Futebol de Mulheres: da invisibilidade à visibilidade. ILUMINURAS, Porto Alegre, v. 26, n. 72/2, p. 36–72, 2026. DOI: 10.22456/1984-1191.147183. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/iluminuras/article/view/147183. Acesso em: 18 maio. 2026.
JANUÁRIO, S. B. Mulheres no campo: o ethos da torcedora pernambucana. São Paulo: Fontenele, 2019.
JANUÁRIO, S. B.; VELOSO, A. M. da C.; CARDOSO, L. C. F. Mulher, Mídia e Esportes: A Copa do Mundo de Futebol Feminino Sob a ótica dos portais de notícias pernambucanos. Revista Eptic, São Cristóvão, v. 18, n. 1, p. 168-184, jan./abr. 2016.
LIMA, E. R.; SANTOS, A. D. G. dos. Análise da representação do Campeonato Alagoano de Futebol de Mulheres nas postagens da FAF No Instagram (2021/2024). In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE ESTUDOS CRÍTICOS DE FEMINISMOS, GÊNERO, CONSUMO E CAPITALISMO, 3., 2025, Recife. Anais… Recife: UFPE, 2025.
SANTOS, A. D. G. dos. Os três pontos de entrada da economia política no futebol. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 36, p. 561-575, 2014.
SANTOS, A. D. G. dos. Um modelo para regulação dos direitos de transmissão de futebol. 461 f. 2021. Tese (Doutorado em Comunicação) — Universidade de Brasília, Brasília, 2021.
SOUZA, R. M. de.; BASTOS, M. D. Patriarcado de mídia como síntese categorial para os Estudos Feministas de Mídia. Mediação, Belo Horizonte, v. 26, n. 37, p. 124-134, jul./dez. 2024.
SOUZA, V. S. Transparência e governança financeira no futebol: análise das demonstrações contábeis da Federação Alagoana de Futebol (2018-2022). 60 f. 2024. TCC (Bacharelado em Ciências Contábeis) – Unidade Educacional Santana do Ipanema, Curso de Ciências Contábeis, Santana do Ipanema, 2024.
SOUZA, V. S. de; SANTOS, A. D. G. dos. Apontamentos para analisar evidenciações contábeis nos clubes de futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 164, n. 7, 2023.
