Quando a experiência vale mais que o papel: legitimidade e patrimonialização do voo livre do Parque da Cidade de Niterói

Do alto do Parque da Cidade, em Niterói, o cenário é ao mesmo tempo técnico e poético. Entre deques de madeira, fauna e flora em abundância e bancos para contemplação de uma paisagem única da Baía de Guanabara e do Rio de Janeiro, estão duas rampas para voo livre (de modalidades que contemplam a Asa Delta e o Parapente), em um entrelaçamento que conecta a história do Parque (uma unidade de conservação integral) com pelo menos 30 anos da vivência esportiva naquele lugar. Pilotos observam o vento com ajuda de elementos como a Lagoa de Piratininga e os galhos de árvores ao redor da rampa, ajustam seus equipamentos e aguardam o momento certo para decolar, muitas vezes com outro corpo colado aos seus corpos, em voos duplos. 

Em poucos passos, em uma corrida em direção ao “nada”, deixam o chão e passam a flutuar sobre o mar, a cidade e a paisagem. Para quem assiste, é um espetáculo. Para quem voa — e especialmente para quem ensina a voar —, é também uma profissão construída entre experiência prática, riscos calculados e, cada vez mais, exigências institucionais.

Mas, ao contrário do que muitos imaginam, tornar-se instrutor de parapente no Brasil não é apenas uma questão de saber voar bem. É um processo atravessado por regulamentações, certificações, disputas e lacunas que colocam esses profissionais em uma posição ambígua: ao mesmo tempo reconhecidos e invisíveis, regulamentados e desamparados.

Foto 1: Parapente prestes a decolar na rampa sul no Parque da Cidade de Niterói

 

Acervo da autora, 19. Dez. 2024 

 

No cotidiano das rampas em Niterói, a legitimidade de um instrutor é construída de múltiplas formas. A experiência prática, a habilidade técnica, a didática e a reputação entre colegas são elementos tão importantes quanto qualquer documento formal que obtêm através das instituições reguladoras do esporte. Muitos instrutores valorizam a existência de parâmetros institucionais e reconhecem sua importância para a segurança e a profissionalização do esporte. No entanto, há uma percepção recorrente de que as normas existentes nem sempre refletem a realidade da prática cotidiana.

Nesse contexto, o reconhecimento profissional passa a ser negociado constantemente. Um instrutor pode não possuir todos os certificados formais, mas ser amplamente respeitado por sua experiência. Outro, pode ter toda a documentação exigida, mas ainda precisar conquistar seus pares no convívio diário com outros pilotos. Essa legitimidade, portanto, não é definida apenas por instituições, mas também por relações sociais e interpessoais.

Entre duas instituições

Hoje, dois órgãos são centrais na organização do voo livre no Brasil: a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), responsável pela regulamentação do espaço aéreo, e a Confederação Brasileira de Voo Livre (CBVL), que organiza o sistema de formação e progressão técnica dos pilotos (ANAC, 2021; CBVL, 2025).

Na prática, essas duas instituições desempenham papéis distintos. A ANAC estabelece normas gerais e exige que pilotos obtenham um certificado por meio de uma prova teórica online, além de obterem um seguro contra danos a terceiros, conforme definido no Regulamento Brasileiro da Aviação Civil n.103 (RBAC-103). Já a CBVL organiza um sistema de níveis, no qual os pilotos acumulam experiência, horas de voo e participação em atividades específicas para progredir até se tornarem instrutores (CBVL, 2025).

Esse processo pode levar anos. Para alcançar o nível mais alto, necessário para atuar formalmente e legalmente como instrutor, é preciso comprovar centenas de horas de voo, milhares de quilômetros percorridos e experiência acumulada ao longo do tempo. Trata-se, portanto, de uma formação baseada não apenas em conhecimento técnico, mas em prática continuada (Machado et al, 2021).

No entanto, no cotidiano das rampas Sul e Norte do Parque da Cidade de Niterói, a realidade é mais complexa do que o que está previsto nas normas.

Quando a regulamentação não alcança a prática

Apesar da existência dessas exigências formais, a fiscalização no local é rara. Durante os cinco meses de 2024 que passei junto de um grupo de 15 instrutores de parapente, que ativamente utilizavam as rampas do Parque, em observação de campo, registrei apenas duas visitas de agentes reguladores. Nessas ocasiões, as verificações concentraram-se em documentos básicos, como o certificado emitido pela ANAC e o seguro obrigatório. A qualificação técnica dos instrutores, por outro lado, não foi objeto de avaliação direta (Camolesi, 2025).

Isso cria uma situação paradoxal. Por um lado, existe um sistema estruturado de formação e certificação. Por outro, sua aplicação prática é irregular. Como resultado, pilotos com diferentes níveis de experiência e formação coexistem no mesmo espaço, oferecendo voos de instrução. Isto ocorre, pois, o Parque da Cidade de Niterói, gerenciado pela Prefeitura de Niterói, é um espaço público, diferente de outras rampas direcionadas também à esta prática esportiva, como a de São Conrado, que atualmente é a sede da CBVL e, por isso, é uma das rampas mais fiscalizadas e taxadas do Estado.

Essa lacuna entre regulamentação e prática afeta diretamente a forma como os próprios instrutores percebem sua profissão. Muitos relatam que, embora tenham investido anos de dedicação e recursos financeiros para cumprir exigências institucionais, isso nem sempre se traduz em reconhecimento concreto, tanto no âmbito profissional quanto no pessoal, já que muitos deles relatam não observar um retorno real ao desenvolvimento do esporte que tanto amam praticar. 

Ao mesmo tempo, pilotos com menos experiência podem atuar de maneira semelhante, desde que cumpram os requisitos mínimos exigidos formalmente. Isso gera conflitos diversos na dinâmica do esporte, que neste contexto, se mistura ao turismo e ao trabalho. Entre certificados e experiência, entre regulamentação e prática, esses instrutores seguem construindo suas trajetórias.

 

Foto 2: Instrutores decolando em voo duplo na rampa norte do Parque da Cidade. Acervo da autora. 12. Abril. 2024.

 

O Parque da Cidade como espaço esportivo singular 

A condição do Parque da Cidade de Niterói como espaço público contribui decisivamente para a forma como o parapente é praticado e organizado ali. Localizado em uma unidade de conservação ambiental e administrado pelo poder público municipal, o Parque é, ao mesmo tempo, um espaço de acesso aberto e um ponto central da economia do voo livre na cidade, com instrutores que trabalham ali diariamente, formando novos pilotos e realizando voos duplos com turistas e visitantes. O Parque não é apenas um cenário natural onde o esporte acontece, mas uma infraestrutura que torna possível a existência de uma rede de relações sociais, profissionais e econômicas. Ali, o voo livre (por meio da modalidade do parapente, mais frequentemente inserida naquela localidade) se sustenta não apenas como prática esportiva, mas como atividade que articula turismo, formação técnica e modos de vida.

Ao longo das últimas décadas, essa relação entre o Parque e o parapente tornou-se tão estreita que ambos passaram a ser identificados um ao outro. O local consolidou-se como um dos principais pontos de prática do esporte no Brasil e como um dos destinos turísticos mais conhecidos da cidade (Enfoco, 2023). Muitos visitantes chegam ao Parque motivados pelo desejo de voar, enquanto outros passam a conhecer o parapente justamente por “turistarem” aquele espaço.

Recentemente, essa conexão histórica ganhou um novo enquadramento institucional. Um projeto de lei propôs reconhecer o voo livre no Parque da Cidade como patrimônio cultural e turístico imaterial do município de Niterói. Esse tipo de reconhecimento não apenas valoriza a prática, mas também transforma seu significado, reposicionando-a como símbolo oficial da cidade.

Então o voo se tornou patrimônio

A patrimonialização é um processo que vai além da simples preservação. Como apontam estudos antropológicos, ela envolve a produção de valores, identidades e narrativas que atribuem novos significados a práticas e espaços (Gonçalves, 2007; Londres, 2009; Leal, 2013). No entanto, esse processo também simplifica a complexidade existente. 

Como observam Souza Filho e Andrade (2012), há uma persistência na lógica do patrimônio – uma tendência a quantificar e reduzir a complexidade simbólica –, de forma que a rigidez da normatização não dá conta das dimensões imateriais e simbólicas que compõem as práticas culturais, como crenças, relações pessoais e profissionais. Desse modo, há sempre um risco do que é inventariado e patrimonializado, se tornar a “versão oficial” de práticas continuamente reinventadas no cotidiano, como é o caso da prática do parapente, um esporte de risco que por fundamento lida com o imprevisível: a natureza.

Mais do que valorizar uma experiência construída coletivamente ao longo de décadas, o Projeto de Lei nº 5556/2025 mobiliza uma imagem específica da cidade — associada ao turismo, à segurança e à sustentabilidade — na qual o voo livre passa a ocupar o lugar de símbolo. Nesse contexto, o patrimônio não funciona apenas como forma de preservação de uma prática social, mas também como instrumento de construção de uma narrativa sobre a própria cidade. 

 

Foto 3: A vista da rampa norte do Parque, da cidade de Niterói e do Rio de Janeiro. Acervo da autora. 12 Abril. 2024

 

Esse processo ganha ainda mais significado quando observado em relação ao contexto em que foi produzido. Embora o projeto tenha sido protocolado em junho de 2024, sua publicação ocorreu apenas em junho de 2025, poucos meses após um episódio trágico que marcou profundamente a história do Parque. Em março daquele ano, duas pessoas morreram durante um voo duplo no local, no primeiro acidente fatal registrado na modalidade. A tragédia desencadeou uma resposta imediata do poder público, que interditou temporariamente as rampas e anunciou a criação de processos de licitação para regulamentar o uso do espaço e a atividade dos instrutores, conforme registrado no Diário Oficial do município (2025).

Como observam Bitar (2010) e Carvalho (2004), o patrimônio frequentemente é acionado em contextos de crise, quando eventos disruptivos produzem um sentimento de ruptura ou ameaça. Nessas situações, a patrimonialização funciona como uma forma de reorganizar simbolicamente a experiência da perda (Gonçalves, 2007), transformando-a em fundamento para novas formas de ação política. 

No caso do Parque da Cidade, a fatalidade não apenas gerou debates sobre segurança e regulamentação, mas também contribuiu para fortalecer iniciativas voltadas à redefinição institucional do voo livre, tanto no plano material — com propostas de maior controle e regulamentação — quanto no plano simbólico, por meio de sua elevação à condição de patrimônio. Nesse sentido, a patrimonialização do voo livre no Parque da Cidade pode ser compreendida como parte de um esforço mais amplo de reposicionar o esporte — e o próprio espaço onde ele ocorre — dentro de uma narrativa de valorização urbana.

Esse processo não elimina a complexidade da prática, mas a reorganiza. Como aponta Osorio (2017), o patrimônio é sempre um campo de disputas, onde diferentes atores negociam significados, pertencimentos e formas de reconhecimento. No caso do Parque da Cidade, a patrimonialização torna visível como versões institucionalizadas da memória e da identidade do voo livre podem coexistir — e, por vezes, entrar em tensão — com as experiências concretas daqueles que vivem e trabalham no local.

Mais do que preservar uma prática, a patrimonialização contribui para redefinir seu lugar na cidade. O voo livre passa, nestes próximos passos burocráticos e instrumentais, a existir não apenas como experiência corporal e emocional vivida, mas também como representação oficial, integrada a projetos mais amplos de gestão urbana e governabilidade.

Referências bibliográficas 

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BITAR, Nina Pinheiro. “Agora que somos patrimônio…”: Um estudo antropológico sobre as baianas de Acarajé. Dissertação. Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2010. 

CAMOLESI, Emanuelle de Oliveira. Para além do risco: corpo, emoção e as construções de relações sociais na prática de instrutores de parapente no Parque da Cidade de Niterói/RJ. Dissertação. Programa de Pós-graduação em Antropologia, Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2025.

CARVALHO, Luciana Gonçalves de. Inventariando Saberes, Criando Patrimônios. Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, vol. 1, n. 1, 2004. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/tecap/article/view/12640/9816

CBVL – Confederação Brasileira de Voo Livre. O que é a CBVL. 2025. Disponível em: https://www.cbvl.esp.br/institucional/o-que-e-a-cbvl/. Acesso em: 20 fev. 2025.

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