Um parque para todos? O que a antropologia pode nos ensinar sobre inclusão no esporte

Quando um parque esportivo é inaugurado, costuma vir acompanhado de promessas que parecem difíceis de contestar: mais esporte, mais lazer, mais saúde e mais inclusão. Quadras novas, professores, aulas gratuitas e espaços modernos costumam simbolizar um investimento no bem-estar da população. Mas basta perguntar quem consegue, de fato, ocupar esses espaços para que a ideia de inclusão se torne menos simples do que parece. Foi essa pergunta que me levou ao Parque Poliesportivo da Concha Acústica, em Niterói.

Inaugurado em novembro de 2024, o complexo reúne quadras, arenas e espaços destinados a modalidades como futebol, voleibol, basquete, tênis, beach tennis e treinamento funcional. O projeto é administrado pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer e atende gratuitamente crianças, adolescentes, adultos e idosos. Em seus materiais institucionais, a proposta é clara: democratizar o acesso ao esporte, promover saúde e fortalecer a convivência comunitária. Entre esses objetivos, uma palavra aparece repetidamente: inclusão.

Mas o que significa, na prática, afirmar que um espaço esportivo é inclusivo?

Essa questão surgiu nas visitas de campo. Conversando com um dos gestores do projeto, perguntei como acontecia a participação de pessoas com deficiência. A resposta foi imediata:

O projeto é inclusivo. Todos podem participar.

À primeira vista, a resposta parecia coerente com aquilo que aparecia nos documentos oficiais. Mas, conforme a conversa avançava, percebi que a palavra “inclusão” escondia significados bastante específicos. Perguntei, por exemplo, como uma pessoa cega conseguiria encontrar a entrada do parque ou circular pelos diferentes equipamentos esportivos. Não existe piso tátil orientando os caminhos, as placas não possuem braille e também não há sinalizações sonoras que auxiliem a localização dos espaços. Como seriam adaptadas as aulas para alguém que não pudesse utilizar essas referências visuais?

Foi então que o próprio gestor reformulou sua resposta. Quando dizia que o projeto era inclusivo, explicou, estava pensando principalmente em pessoas autistas, que, segundo ele, “conseguem participar normalmente entre os neurotípicos“. A categoria “pessoa com deficiência”, inicialmente apresentada como universal, tornava-se então, muito mais restrita. Essa conversa mudou completamente meu olhar sobre o parque.

Fotos 1 e 2: Estruturas ainda em construção, mal sinalizadas, pelo Parque Poliesportivo. Acervo da autora, 28.11.2025.

Durante as duas semanas seguintes, passei a observar não apenas quem frequentava o espaço, mas também quais corpos pareciam ter sido imaginados quando aquele equipamento foi planejado. Não demorou para perceber que grande parte da estrutura pressupõe um usuário específico: alguém que enxerga, caminha sem dificuldades, identifica facilmente placas visuais e consegue se deslocar de maneira autônoma.

Para uma pessoa com deficiência visual, as dificuldades começam antes mesmo da prática esportiva. Encontrar a entrada do parque ou circular entre as quadras já pode depender da ajuda de terceiros. Para uma pessoa cadeirante, algumas modalidades, como beach tennis, permanecem inacessíveis e até assistir às atividades pode ser um desafio, pela ausência de espaços adequados. 

Ninguém impede essas pessoas de entrar, mas a exclusão acontece de forma silenciosa. Ela está na ausência de adaptações, na forma como o espaço foi desenhado e nas escolhas feitas durante seu planejamento. São barreiras silenciosas, que não aparecem em placas proibindo a entrada, mas tornam determinadas experiências praticamente inviáveis.

Fotos 3 e 4: Arquiteturas de arquibancada no Parque Poliesportivo. Acervo da autora, 28.11.2025.

Esse tipo de situação ajuda a compreender uma ideia importante desenvolvida pelos estudos sobre deficiência: muitas vezes, ela não está apenas no corpo da pessoa, mas também na maneira como a sociedade organiza seus espaços. Autoras como Diniz Mello (2009) e Espinosa (2021) mostram que acessibilidade não depende exclusivamente das características individuais, mas das relações entre corpos, arquitetura, equipamentos e políticas públicas. Um ambiente pode ampliar possibilidades de participação ou produzir novas formas de exclusão.

A antropologia também oferece outra pista interessante para pensar essa questão. Marcel Mauss (2003) argumenta que aprendemos socialmente a usar nossos corpos. Ninguém nasce sabendo nadar, jogar basquete ou correr, essas capacidades são construídas por meio de processos de aprendizagem. Mas existe um passo anterior a qualquer aprendizagem esportiva: conseguir acessar o espaço onde ela acontece. Se uma pessoa não consegue circular com autonomia por um equipamento esportivo, parte dessa experiência já lhe foi negada antes mesmo do primeiro treino.

Ao mesmo tempo, a pesquisa mostrou que inclusão nunca é uma condição absoluta. Durante uma visita ao parque, uma conversa com um corredor surdo que utilizava o espaço regularmente me foi descrita por meu orientador. Diferentemente das dificuldades observadas, ele descreveu que correr dentro do Parque era muito mais seguro do que utilizar as calçadas e ruas da cidade. Como não consegue perceber auditivamente a aproximação de carros, motocicletas ou bicicletas, o ambiente fechado reduzia significativamente os riscos da atividade. A mesma configuração espacial que excluía algumas corporalidades produzia, para aquele corredor, uma sensação de proteção.

Fotos 5 e 6: Espaços múltiplos do Parque Poliesportivo em Niterói. Acervo da autora, 28.11.2025.

Ele mostra que não existe um espaço absolutamente acessível ou absolutamente inacessível. A acessibilidade é construída na relação entre diferentes corpos e diferentes ambientes. Um mesmo equipamento pode ampliar as possibilidades de participação de algumas pessoas e restringir profundamente as de outras. Isso nos leva de volta à pergunta inicial. O que significa, afinal, dizer que um parque esportivo é inclusivo?

Talvez a resposta não esteja apenas em permitir que qualquer pessoa faça sua inscrição em uma atividade. Inclusão envolve pensar quais corpos foram considerados durante o planejamento do espaço, quais experiências se pretende tornar possíveis e quais continuam sendo invisibilizadas. Responder a essa pergunta não significa desqualificar iniciativas importantes de democratização do esporte. Pelo contrário, significa reconhecer que a inclusão é um processo permanente, que exige revisões constantes, escuta dos diferentes sujeitos e disposição para transformar os próprios espaços.

A antropologia nos lembra justamente disso: cidades, equipamentos esportivos e políticas públicas nunca são neutros. Eles carregam concepções sobre quais corpos pertencem a determinados lugares e sobre quais formas de participação são consideradas legítimas.

Talvez o maior desafio não seja construir parques esportivos maiores ou mais modernos, mas criar espaços capazes de acolher a diversidade de corpos que compõem a vida urbana. Porque inclusão é garantir que diferentes pessoas possam chegar, permanecer, aprender e fazer daquele espaço um lugar de pertencimento.

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