Vamos falar sobre o academachismo nos estudos sobre futebol?

Foto: Freepik

Desde a minha distante dissertação de mestrado defendida em 2009, sempre utilizei a definição do Arlei Damo (2006) sobre os atores do futebol de espetáculo. Ele dividia esses atores entre os profissionais, os torcedores, os dirigentes e os mediadores especializados. Se multiplicarmos os futebóis um número maior de atores certamente apareceria. Com um campo de conhecimento consolidado, nós, estudiosos do (ou no) futebol também poderíamos ser entendidos como um dos atores desse espaço. Logo tentarei retomar a linha de raciocínio.

No final de outubro de 2025 tive a alegria de participar do IV Colóquio Internacional do INCT Futebol que aconteceu nas cidades de La Plata, San Martín e Buenos Aires, na Argentina. Foi a primeira vez que estive em um evento do INCT Futebol e ainda consegui retornar a Buenos Aires que é uma cidade muito especial para minha trajetória de afetos acadêmicos. No primeiro dia de colóquio fomos ao “Bosque” do glorioso Gimnasia y Esgrima, equipe que tem o meu amigo Alejo Levoratti, que me acolheu em San Telmo naquela semana, entre os seus torcedores. Também visitamos o estádio do outro time de La Plata, mas ninguém se interessa por outros times vermelhos de cidades como La Plata ou Porto Alegre…

Os demais dias de mesas e simpósios temáticos aconteceram na simpática Universidad Nacional de San Martin. Durante a segunda mesa da manhã, chamada Direitos humanos, gêneros e memória. O futebol como território de disputa e construção política coordenada por Mariane Pisani, Vice-Coordenadora do INCT Futebol, e com as apresentações de Julia Hang, Caroline Soares de Almeida, Livia Gonçalves Magalhães e Mónica Santino notei uma movimentação de esvaziamento do auditório. Além disso, foi possível perceber diálogos altos em que o tom grave prevalecia. Essas conversas competiam com a mesa e dificultavam a compreensão das exposições, especialmente em um evento bilíngue com o ‘portunhol’ como idioma oficial. Ao final da mesa sem eu possuir mérito algum, minha querida amiga Nemésia Hijós veio me agradecer por não ter me comportado como ‘eles’.

Durante a tarde, no ST Futebol, narrativa e mídia, Bárbara Santos Sarinho da Universidade Federal de Pernambuco apresentou o trabalho A narração feminina tem que acabar: gestualidades vocais e os discursos de ódio no futebol. No trabalho, Bárbara mostrava os comentários masculinos sobre as mulheres narrando futebol. Se elas “imitassem” os homens estavam erradas por tentarem os imitar. Se elas narrassem com muito agudo, o problema era serem femininas demais. Se gritavam era porque gritavam, se não gritavam era porque não gritavam. Evidentemente que a Bárbara vai nos mostrar em seu trabalho de que forma isso acontece, mas esses comentários depreciativos se sustentam exclusivamente na misoginia. Não há o que as mulheres narradoras poderiam fazer para serem “toleradas” por esses homens que as odeiam. Na rodada de comentários fiz uma breve associação com o que tínhamos vivido naquela manhã. Em uma mesa exclusivamente composta por mulheres, vários de nós, homens pesquisadores, nos levantamos e fomos conversar alto trazendo ruído para aqueles e aquelas que estavam acompanhando a mesa.

No dia seguinte, Mariane Pisani em sua fala de encerramento do evento fez uma reflexão sobre o que foi possível acompanhar naqueles dias de colóquio. Destaco alguns pontos que dialogam com o que venho tratando: 

(…) o que eu quero mesmo, como feminista, é destacar a presença massiva das mulheres neste evento. Se a modalidade nos foi proibida por tanto tempo, aqui estamos retomando o que sempre foi nosso. Aqui fomos a maioria no comitê organizador, nos GTs, nas mesas redondas, conduzindo debates fundamentais. E não apenas falando sobre gênero ou futebol feminino, viu? Nós falamos sobre tudo! Essa presença é política. Porque há vinte anos, éramos poucas circulando em espaços como este. (…) Ver novas pesquisadoras chegando, propondo, questionando e transformando este campo é, pra mim, uma das maiores alegrias deste evento. Como antropóloga, também observo que as movimentações, os corpos e os silêncios dizem tanto quanto as nossas falas. As formas de estar, de ouvir, de ocupar o espaço — são linguagens poderosas. E, infelizmente, o machismo — tão presente no futebol jogado e tão bem discutido aqui — também atravessa o ambiente universitário. Ele aparece no desrespeito ao tempo de fala das colegas, nas ‘perguntas’ que não são perguntas – mas grandes aulas de assuntos que dominamos –, na ausência dos nossos textos em disciplinas que tratam do tema, nas conversas altas nos corredores enquanto mulheres discutem memória e direitos humanos… Nos grupos de homens se levantam e saem das salas enquanto expositoras ainda estão apresentando. Esses gestos, por mais insignificantes que pareçam, revelam o quanto ainda precisamos transformar nossas práticas acadêmicas. Mas se aprendemos que as mulheres não são todas iguais, os homens também não são. Felizmente temos companheiros generosos, pesquisadores conscientes, parceiros de trabalho imprescindíveis, que nomeiam essas práticas e mostram que mudar é possível — e, por isso, necessário. A esses companheiros, e aqui vejo alguns deles, minha profunda admiração (…).

O machismo privilegia a todos nós, homens. Fui elogiado por ficar sentado assistindo a uma mesa com expositoras mulheres? É elogioso ficar em silêncio quando mulheres estão falando? Dada a dificuldade que nós homens temos de ficar em silêncio quando mulheres estão falando, parece que sim…

Em 2022 junto com meu orientador do doutorado, Fernando Seffner (BANDEIRA; SEFFNER, 2022), publicamos um artigo no dossiê 40 anos do livro Universo do Futebol organizado por Antônio Jorge Soares e Alejo Levoratti. Ali procuramos mostrar como nosso futebol acadêmico e os torcedores têm no androcentrismo um conteúdo importante. Da Matta escreveu:

No Brasil, discutir é falar de um modo sério.  É ter que tomar um partido e não poder assumir uma atitude neutra quando se trata de um certo assunto. Assim, existem coisas, eventos e fenômenos que só  podem  ser  discutidos.   Entre  eles, cito como dos mais característicos, política e futebol que, muito significativamente, não são considerados assuntos que possam ser   apreciados por mulheres. […] no Brasil fala-se de dinheiro e de mulheres, mas se discute política e futebol (DAMATTA, 1982, p. 27).

Nessa origem de nossos estudos sociais sobre futebol se fez um grande esforço para tratar a nação através do futebol. Aqui era um futebol não somente jogado como narrado e pensado por e sobre homens. Com várias contextualizações possíveis e tentando evitar um anacronismo, aparentemente, a ausência de aproximadamente metade da população não constrangeu ninguém que pensou nesse fenômeno esportivo como representante da identidade brasileira. Esses estudos que nos abriram tantas portas não procuravam a identidade brasileira, mas a identidade masculina brasileira.

Se o androcentrismo ou o machismo de nosso ambiente acadêmico por vezes vêm disfarçados, em outro evento ele é um tanto mais explícito. Em 2018 (se a memória não me trai) estive com a colega Mariane Pisani na UFF em Niterói para um evento do Nepess. Durante uma mesa coordenada pela Livia Gonçalves Magalhães (a quem conheci nessa oportunidade), um pesquisador sugeriu que para auxiliar na militância do futebol de mulheres, elas, as pesquisadoras mulheres, deveriam estudar o futebol jogado por mulheres. Ou seja, para “empoderar” mulheres, um homem se autorizou a sugerir o que as mulheres deveriam fazer. Um tanto contrariado, questionei se era isso mesmo o que ele queria dizer (e, sim, era isso mesmo…). Mariane fez uma pergunta semelhante à minha, certamente com mais qualidade e robustez teórica, e as respostas foram muito diferentes. Ali o machismo e a misoginia não foram disfarçados ou dissimulados. Foram explícitos. Ele tratou minha pergunta como acadêmica. O questionamento de Mariane foi pessoal. Minha resposta veio com argumentos. A resposta de Mariane veio com ofensas.

Ao final do encontro, fizemos um brinde em um bar de Palermo, em Buenos Aires. Tanto ali quanto no sábado, em que continuei conversando com alguns colegas, homens e, também, mulheres, que estiveram no colóquio, ficou evidente que a fala de Mariane gerou desconforto ou, no mínimo, estranhamento. Esse desconforto de homens e mulheres foi maior com a reclamação do machismo do que com o próprio machismo. Aparentemente, todos os que saíram do auditório naquele momento tinham um motivo justo… Outra lógica que criticava a fala da Vice-Coordenadora do INCT usava um jargão um tanto semelhante aos usados pelas torcidas organizadas no Brasil: “é preciso punir o CPF, não o CNPJ”. Na lógica das organizadas, aqueles que se envolvem em brigas deveriam ser penalizados, não as torcidas. Na lógica dos que criticavam a manifestação de Mariane, ela deveria nominar os machistas e não o machismo. Será? Como os homens tiveram facilidade em se entender como aqueles que não respeitaram as colegas e se sentiram ofendidos… Como dito anteriormente, quem conhece o funcionamento do machismo sabe que ele nos beneficia a todos nós, homens. Não seria mais produtivo agirmos quando vemos o machismo (se é que vemos) do que fazer a linha do “nem todo homem”…

Em 2021 eu escrevi aqui mesmo no blog do Leme que o “jormachismo” esportivo precisa acabar. Alguns de nós que tem enfrentado as diferentes formas de discriminação no futebol de espetáculo e em outras formas de futebol temos facilidade em apontar o dedo para os atores categorizados pelo Arlei Damo. Não seria um bom momento para darmos uma olhadinha para esse ator acadêmico “estudiosos e estudiosas do (ou no) futebol” dentro desse ciclo de produção, reprodução e circulação de machismo, racismo, lgbtfobia e outras violências? Quando enfrentaremos o nosso “academachismo” nos estudos sobre futebol? Talvez tenhamos escondido nosso machismo atrás do talento de Simoni, Carmen, Mariane, Verónica, Nemésia, Julia, Caroline, Livia, Bárbara, Soraya, Sibelle, Leda, Silvana, Marina, Luiza e tantas outras mulheres que contribuem com suas produções tão qualificadas. O talento delas seguirá, mas nossas desculpas não precisam. Vamos parar de apenas apontar os outros ou tentar contextualizar nosso machismo. Comecemos a enfrentar o nosso machismo de frente!

Referências

BANDEIRA, Gustavo Andrada; SEFFNER, Fernando. O androcentrismo do torcer: do Universo do Futebol ao estádio contemporâneo. Conexões, Campinas, SP, v. 20,

DAMATTA, Roberto. Esporte na sociedade: um ensaio sobre o futebol brasileiro. In: DAMATTA, Roberto. (Org.). Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Edições Pinakotheke, 1982, p. 19-40.

DAMO, Arlei Sander. O ethos capitalista e o espírito das copas. In: GASTALDO, Édison Luis; GUEDES, Simoni Lahud. (Orgs.). Nações em campo: Copa do Mundo e identidade nacional. Niterói: Intertexto, 2006, p.39-72.

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