Nicolás Cabrera
Vitória Farias
O futebol não nasceu no Brasil, mas virou paixão nacional. É dessa paixão que nasce a necessidade de estudá-lo como um fenômeno social total (Mauss, 2008), isto é, como uma prática que atravessa, ao mesmo tempo, a economia, a política, a religião e o universo simbólico de uma sociedade (Guedes, 2023). O futebol deixou de ser apenas um esporte: carrega identidades, cultura, política e a história do país.
Com o crescimento do futebol pelo mundo, aumentaram também os casos de violência. Mesmo com os esforços para combatê-la, o Brasil segue entre os países com mais mortes ligadas ao futebol na região (Cabrera, 2024). Daí a necessidade de olhar de perto os conflitos entre torcedores, compreender as dinâmicas das rivalidades e pensar em políticas públicas capazes de administrar o problema da forma mais democrática possível.
É esse cenário que esta pesquisa, ainda em andamento, busca compreender. Ela faz parte da linha “Violências e Convivências” do Observatório Social do Futebol, projeto de extensão e pesquisa do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O trabalho busca quantificar, classificar, mapear e analisar os casos de violência física no futebol masculino e profissional brasileiro entre 2007 e 2023, com base em dados coletados em veículos da mídia tradicional. Neste texto, compartilhamos uma primeira tentativa de sistematização de uma pesquisa ainda em curso.
O banco de dados foi construído a partir de um levantamento realizado no acervo digital do Grupo Globo, escolhido por sua abrangência nacional, pela existência de um acervo digitalizado e por sua relevância na construção da agenda pública.
Entre 2007 e 2023, foram registradas 244 vítimas fatais ligadas ao futebol masculino e profissional no Brasil, um cenário preocupante. Os casos foram divididos em três categorias: mortes violentas intencionais, mortes por fatores externos não intencionais e mortes por causas naturais. Para classificar os casos de mortes violentas, utilizamos o conceito de morte violenta intencional, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial, dentro ou fora de serviço.
As mortes violentas, intencionais ou não, representam a maior parte dos casos: são 229 ocorrências. Desse total, 142 são homicídios, 34 são lesões corporais seguidas de morte, 17 envolvem intervenção policial e 32 são acidentes; nos quatro casos restantes, não foi possível identificar a causa da morte. Em quase 100% dos casos de homicídio, foram utilizadas armas de fogo, o que evidencia a relação entre a violência letal no futebol e a facilidade de acesso a armas no Brasil, além de reforçar a importância de políticas de controle de armamento.
Já as mortes por causas naturais envolvem infarto, mal súbito, parada cardiorrespiratória e asfixia. Mesmo classificadas nessa categoria, muitas poderiam ter sido evitadas com atendimento médico rápido e adequado. O aumento no número de registros a partir de 2017 não significa necessariamente um crescimento no número de mortes, mas pode refletir uma maior cobertura da imprensa sobre o tema ao longo do período.
Ao longo dos 16 anos analisados, o número de casos registrados oscilou, com destaque para 2012, quando foram contabilizados 31 casos. Esse pico coincide com o aumento no número de vítimas relacionadas às rivalidades entre torcidas em Goiás e também em São Paulo. Já em 2020, observa-se uma queda expressiva, possivelmente relacionada aos efeitos da pandemia.
No Rio de Janeiro, a maioria dos casos de violência física está ligada a confrontos entre torcidas rivais, como mostra o gráfico abaixo.

Uma explicação possível vem da “síndrome de beduíno”, conceito da literatura sócio-antropológica que resume essa lógica de identidade coletiva: “o amigo de um amigo é amigo; o inimigo de um inimigo também é amigo; o amigo de um inimigo é inimigo; e o inimigo de um amigo é inimigo” (Dunning, Murphy e Williams, 1995, p. 308 – tradução nossa). Para visualizar melhor essas alianças, pode acessar o mapa abaixo.
Mapa das alianças: https://observatoriosocialfutebol.org/2024/09/30/mapa-das-aliancas-entre-torcidas-organizadas-2024/
Foram encontrados 244 casos entre 2007 e 2023, com predominância de mortes relacionadas a confrontos entre torcidas rivais. Somando todas as mortes, incluindo acidentes e mortes por causas naturais, o uso de armas de fogo aparece de forma expressiva: cerca de 56% do total dos casos. A concentração de casos é regional, com maior incidência nas regiões Nordeste e Sudeste.
Os principais desafios encontrados na pesquisa foram as subnotificações, casos que não chegam a ser noticiados ou registrados oficialmente, a divergência entre as informações trazidas por diferentes notícias sobre um mesmo caso e a dificuldade de classificar alguns casos.
Por fim, essa pesquisa segue em desenvolvimento, e os dados aqui apresentados fazem parte de um recorte inicial dos resultados. Novas análises e atualizações serão incorporadas nas próximas etapas do projeto.
Bibliografia
CABRERA, N. (2024): “Violencias en clave comparativa: juego de espejos entre la “barra brava” argentina Los Piratas y la “torcida organizada” brasilera Ira Jovem”, em Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 17 – no 1 – 2024 CABRERA, N. (2024):
DUNNING, Eric; MURPHY, Patrick; WILLIAMS, John. “La violencia de los espectadores en los partidos de fútbol: hacia una explicación sociológica”. In: ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. Deporte y ocio en el proceso de la civilización. Ciudad de México: Fondo de Cultura Económica, 1995. pp. 295-322.
GUEDES, Simoni Lahud. O futebol brasileiro: instituição zero. São Paulo: Editora Ludopédio, 2023.
Grupo Globo. Acervo digital. Disponível em: https://www.globo.com/.
MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Lisboa: Editora Edições 70, 2008.
