A contratação de Virginia Fonseca reacendeu um debate importante, mas os desafios do jornalismo esportivo são mais profundos.
Tão logo a influenciadora Virginia Fonseca foi anunciada como contratação da Globo para a cobertura da Copa do Mundo de 2026, as redes sociais se dividiram em duas partes: aqueles que viam a decisão com olhar positivo e aqueles que repudiavam a participação dela.
Contra a decisão, ficaram aqueles que defendiam que seria uma substituição injusta de jornalistas qualificados. Além disso, vale citar as críticas ao fato de Virginia promover casas de apostas. Do lado da blogueira ficaram os que enxergaram o fato como inovação e possibilidade de audiências maiores (Carvalho, 2026).
Uma colunista da Folha de S.Paulo chegou a publicar no jornal que querer especialistas cobrindo um tema é “uma ilusão perigosa” e que audiência vale mais que “currículo bonito” (Beauty, 2026).
A discussão nessa área poderia render muito, principalmente levando em consideração que jornalismo não é só um negócio qualquer, é uma atividade que requer responsabilidade social, ética, apuração dos fatos e linguagem precisa e adequada. Além disso, pesquisas mostram que as redes sociais se consolidaram como local de consumo de informação, com muita gente afirmando, inclusive, se informar por meio de perfis de influenciadores (Spagnuolo, 2025).
Com isso, a confiança nos jornalistas diminuiu, bem como a audiência dos veículos de mídia. Dessa forma, há um claro problema nessa suposta substituição de profissionais do jornalismo por influenciadores, principalmente se forem considerados aspectos como fake news e inteligência artificial, mas os obstáculos para um jornalismo esportivo de qualidade não nascem aí.
Primeiro, vale lembrar que muitos veículos estão migrando o esporte do setor de jornalismo para o setor de entretenimento, permitindo que os jornalistas esportivos façam até mesmo publicidade (Sacchitiello, 2018; Sousa; Santos, 2019). Isso também vira um problema de credibilidade. Afinal, se for necessário fazer críticas a uma equipe patrocinada por uma empresa promovida por esse profissional, qual seria a postura dele?
Outra questão é a chamada “leifertização” da área. O tom humorístico ganhou força e a notícia está sendo deixada de lado para que o foco passe a ser o curioso, o engraçado. E isso não é feito por influenciadores, mas pelos próprios jornalistas (Santos, Mezzaroba e Souza, 2017). Em vez de usar a seu favor o que o jornalista tem de melhor, o profissional deixa de lado a credibilidade e a seriedade (que não são sinônimos de algo tedioso e monótono) para imitar o conteúdo das redes sociais e de blogueiros como Virginia.
Outros pontos que podemos citar são a falta de representatividade na cobertura, a ausência de pautas mais aprofundadas e investigativas e o reforço de estereótipos (Bezerra, 2025).
Assim, de fato, pode ser problemática a contratação de uma influenciadora para cobertura esportiva. Mas a questão é que o jornalismo esportivo não vai entrar em crise de informação, credibilidade ou cometer erros por causa disso. Esses problemas já existiam muito antes da contratação de Virginia Fonseca. Ela é um sintoma do problema, não o problema em si.
Para Zart (2023), os arranjos da produção noticiosa são afetados com a diminuição do controle sobre eles dentro do contexto de mudança contínua da área. Novas lógicas vão aparecendo e mudam-se as maneiras de organização profissional. Dentro desse ecossistema reformulado, existe uma espécie de negociação da identidade profissional, pois “a fronteira entre quem faz e quem consome conteúdos jornalísticos é borrada, alterando procedimentos de apuração, interpretação e distribuição de informações” (Zart, 2023, p. 10).
Em texto no Observatório da Imprensa, Rafael Simi relembra, inclusive, muitos outros casos em que pessoas do entretenimento participaram de coberturas esportivas (ou de outras áreas) e que, na situação atual, não é precisamente a falta de diploma da influenciadora que mancha a cobertura esportiva, mas sim a conexão dela com casas de apostas e o fato de “beijar um macaco logo após terminar o namoro com um jogador de futebol que frequentemente é vítima de racismo” (Simi, 2026).
O fortalecimento do jornalismo (em todas as suas editorias) virá não da tentativa de impedir a participação de influenciadores em coberturas, mas da valorização daquilo que torna o jornalismo uma atividade socialmente relevante e que a diferencia do entretenimento rápido e raso das redes: apuração rigorosa, contextualização, independência editorial, diversidade de vozes e compromisso com o interesse público.
A construção da notícia é um processo complexo de seleção, hierarquização e tematização da informação (não importa o tema). Não se pode simplificar esse processo ou achar que um meio de comunicação é um mero transmissor de informações (Borges e Santos, 2025).
Conforme trazido por Zart (2023), a imprensa deveria retomar técnicas consideradas essenciais na produção de conteúdo jornalístico de qualidade, mas tem preferido o superficial e rápido diante da demanda on-line. E o caminho para um jornalismo melhor estaria na contextualização, trabalho crítico, representatividade.
Quando essas características são deixadas de lado e quando há precarização da profissão, a presença de Virginia vira apenas mais um capítulo de um processo de enfraquecimento que já está em curso há tempos.
Ao pesquisar “casas de apostas” na seção de notícias do Google, entre os principais resultados estão publicações como:
“14 Plataformas com bônus de cadastro em junho de 2026”
“Quais as favoritas a vencer na primeira rodada da Copa do Mundo, segundo casas de apostas”
“Melhores Sites de Apostas para Copa do Mundo 2026: Top 15”
“Copa do Mundo de 2026 deve atrair onda recorde de apostas; gols, passes e até pé usado para marcar entram nos palpites”
“Novas casas de apostas 2026: top 10 bets novas no Brasil”
Todas as “notícias” são de sites jornalísticos. Na TV e nas redes sociais não é diferente. Veículos de comunicação e jornalistas divulgam casas de apostas o tempo todo. Então, é possível retornar ao ponto: o jornalismo está fazendo algo diferente dos influenciadores, mesmo sabendo que as bets estão gerando dívidas, vício e tantos outros problemas aos brasileiros?
Referências:
BEAUTY, Natalia. Odeiam Virginia na Copa porque ela revela verdade humilhante: audiência vale mais que currículo. Folha de S.Paulo, 27 de maio de 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/natalia-beauty/2026/05/odeiam-virginia-na-copa-porque-ela-revela-verdade-humilhante-audiencia-vale-mais-que-curriculo.shtml. Acesso em: 10 jun. 2026.
BEZERRA, Larissa. A ausência de vozes qualificadas na cobertura esportiva. Leme, 2025. Disponível em: https://www.leme.uerj.br/a-ausencia-de-vozes-qualificadas-na-cobertura-esportiva. Acesso em: 11 jun. 2025.
BORGES, Mariana de Mello; SANTOS, Aline Katielle Reis. Tem um feto no meu batom? Uma reflexão sobre fake news e sensacionalismo. R. Dito Efeito, Curitiba, v. 16, n. 27, p. 1-17, jan./jun. 2025.
CARVALHO, Gabriela. Virgina na Copa pela Globo: entenda a polêmica e reações. CNN Brasil, 22 de maio de 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/pop/virgina-na-copa-pela-globo-entenda-a-polemica-e-reacoes/. Acesso em: 10 jun. 2026.
SACCHITIELLO, Bárbara. Com elenco do Esporte, Globo estreita laços com a publicidade. Meio&Mensagem, 4 de julho de 2018. Disponível em: https://www.meioemensagem.com.br/midia/com-elenco-do-esporte-globo-estreita-lacos-com-a-publicidade. Acesso em: 27 ago. 2025.
SANTOS, Silvan Menezes; MEZZAROBA, Cristiano; SOUZA, Doralice Lange de. Jornalismo esportivo e infotenimento: a (possível) sobreposição do entretenimento à informação no conteúdo jornalístico do esporte. Corpoconsciência, Cuiabá-MT, vol. 21, n. 02, p. 93-106, mai./ago., 2017.
SIMI, Rafael. A falta de diploma de Virgínia não mancha a cobertura da Copa. Tigrinho e racismo sim. Observatório da Imprensa, 11 de junho de 2026. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/jornalismo/a-falta-de-diploma-de-virginia-nao-mancha-a-cobertura-da-copa-tigrinho-e-racismo-sim/. Acesso em: 11 jun. 2026.
SPAGNUOLO, Sérgio. Confiança em jornalismo no Brasil é a pior em uma década. Núcleo, 18 de junho de 2025. Disponível em: https://nucleo.jor.br/linhafina/2025/06/18/confianca-em-jornalismo-no-brasil-e-a-pior-em-uma-decada/. Acesso em: 10 jun. 2026.
ZART, Luiz Henrique. As regras mudaram e o jogo segue: impactos da tecnologia na prática do jornalismo esportivo. Esporte e Sociedade, ano 16, n 38, junho de 2023.
