Foto extraída da tese do autor
O Botafogo da Paraíba foi campeão paraibano de futebol em 21 de março de 2026 num dia que foi preparado para ser de festas e empolgações coletivas. Havia muitos motivos para isso, mas a comemoração acabou sendo marcada por mais ações truculentas da Polícia Militar paraibana, uma instituição que, ao longo das décadas vem se notabilizando pelo racismo institucional de seus atos.
Vamos por partes, começando pelos motivos de tanta comemoração.
Em primeiro lugar, o Belo, apelido do clube paraibano, estava há sete anos sem conquistar um único título sequer e o jejum começava a incomodar os seus torcedores.
Depois, a final era mais uma vez contra o Sousa, clube do Sertão paraibano que se tornara nos anos anteriores um recorrente algoz botafoguense, eliminando o clube nas semifinais do estadual de 2023 e vencendo as finais de 2024 e 2025.
Pelo quarto ano consecutivo, portanto, os dois clubes se enfrentavam em uma fase decisiva e pela terceira vez a final era entre Belo e Sousa. Dessa vez, entretanto, o título do clube pessoense encerrava uma preocupante sequência de superioridade sousense.
Finalmente, o jogo decisivo foi realizado no Estádio Almeidão, a casa do Belo, com um público de mais de 20 mil torcedores presentes nas arquibancadas. O Botafogo venceu a partida de ida por 2 a 1, fora de casa, e segurou um empate em 0 a 0 após ficar mais de vinte minutos com um jogador a menos.
Ao apito final, a festa, o grito, o êxtase. Mas apenas por pouco tempo, principalmente se você estava – como eu – na Arquibancada Sol da praça esportiva.
O Almeidão tem uma curiosa divisão de arquibancadas. A Sombra é um espaço mais confortável, com ingressos mais caros, reduto da classe média. O Sol é um espaço mais popular, desconfortável, ingressos mais baratos, reduto majoritário da população pobre e periférica da cidade.
Naquele dia, pois, a mesma Polícia Militar teve posturas completamente distintas nas diferentes arquibancadas, como vem sendo regra nos últimos anos.
No curso de minha pesquisa, por sinal, eu já tratava dessa questão (Carvalho, 2024), a partir de diálogos com uma série de outros autores. Por exemplo, nomes como Tsoukala (2014), que vai falar de estratégias de controle que forças policiais adotam contra perfis específicos de torcedores, Lannes-Fernandes (2012), que denuncia a criminalização da pobreza em sociedades como a brasileira, e Boiteux (2009), que em termos muito próximos critica um modelo criminalizador da pobreza no Brasil.
Não vou aqui me prolongar demais nesse debate, mas ao menos um questionamento é inevitável. Se esse problema já está sendo identificável há tanto tempo no país, por que nada é feito para modificar essa realidade?
Pois, ao término da final entre Botafogo e Sousa, dois episódios foram registrados nas arquibancadas do Estádio Almeidão.
Na Sombra, um homem puxou um revólver e ameaçou um outro torcedor em meio a um início de briga. No Sol, torcedores empolgados com o título se debruçaram no alambrado para tornar a festa mais arrebatadora. Alguns torcedores mais afoitos, tentaram entrar no campo de jogo para comemorar junto aos jogadores.
O que aconteceu a partir daí?
Absolutamente nada na Arquibancada Sombra. Nenhuma reação policial, nenhuma preocupação, nenhuma tentativa de repressão de um homem armado apontando uma pistola para a multidão.
Na Arquibancada Sol, tiros de bala de borracha, bombas de gás lacrimogêneo, agressões com uso de cassetetes. Não contra uma pessoa específica, mas aleatoriamente, indiscriminadamente em direção à arquibancada, pegando em quem pegasse de forma indiferente.
Homens, mulheres, mulheres grávidas, crianças, todos transformados em alvos em potencial.
Nos dias seguintes, o Ministério Público da Paraíba abriu uma investigação. Mas apenas para apurar o episódio de um homem armado na Arquibancada Sombra. Sobre a Polícia Militar da Paraíba, ao que parece, não tem nada de errado a ser apurado.

