A representação de atletas refugiados através de Yusra Mardini

“Você deveria nadar por todo mundo que morreu tentando buscar uma vida nova”. Quantos atletas refugiados tiveram suas vidas colocadas à deriva ou seus sonhos interrompidos por uma guerra? Yusra Mardini, nadadora síria, teve sua história e todos os seus desafios retratados no filme The Swimmers, da Netflix. Inspirada em Michael Phelps, Yusra era uma atleta treinada por seu pai na Síria e vivia diariamente entre os treinos e o medo da Guerra Civil Síria, conflito que se intensificou em 2015. A guerra, iniciada em 2011, tornou-se um conflito de grandes proporções, principalmente, em razão das interferências estrangeiras no país. Atualmente, estima-se que a Guerra Civil Síria tenha sido responsável pela morte de cerca de  600 mil pessoas. 

Em um determinado momento, durante uma competição, Yusra se vê cara a cara com uma bomba dentro da piscina. Uma experiência de quase morte, que poderia ter encerrado seus sonhos e sua vida, representa a realidade de muitos atletas até hoje. A crise de refugiados consiste em um fluxo migratório motivado pela fuga de guerras e perseguições sofridas nos países de origem, intensificado no mundo desde 2015, ano em que o filme retrata essa trajetória percorrida pela atleta, a irmã e tantas outras pessoas, cada uma com diferentes destinos. O ápice dessa situação é o investimento que eles fazem para entrar em um barco e seguir rumo a outro país. No entanto, nem sempre esse deslocamento se concretiza. Pessoas como Yusra deixam familiares, casas e  trabalho, para caminhar no escuro em busca de salvação, sem saber o que encontrarão adiante. 

Fonte: Imagem capturada no trailer do filme na plataforma Youtube 

  • O motor desliga e se perde a esperança 

A atleta, contrariando os pais, simplesmente acreditou. Assim como acreditou que jogar todas as suas medalhas ao mar e pular do barco para seguir o restante do caminho nadando, salvaria muitas vidas, vidas de pessoas que não sabiam nadar e se encontraram à deriva em uma embarcação completamente despreparada para aquela viagem. Adultos, bebês e jovens, todos amontoados em um pequeno barco, sem o auxílio de qualquer suporte humanitário. Quantos casos como esse já vimos sendo noticiados nos grandes jornais? Nesses momentos, muitos simplesmente viram as costas para não “sujar as mãos”. A história do filme é contada, claro, sob uma narrativa de superação, reforçando a coragem, resiliência e a esperança dessa atleta, que encontra no esporte sua maior motivação de vida. Mas é preciso pensar: quantos atletas refugiados sequer conseguiram sair do mar? E quantos deles tiveram suas histórias apagadas por uma guerra sem fim? Uma guerra com diferentes interesses e objetivos, mas que atinge principalmente aqueles que apenas suplicam para sobreviver. A trajetória vivida por Yusra é uma entre muitas: excepcional, mas distante da realidade da maioria. 

  • Desigualdades no refúgio esportivo

Uma das cenas mais marcantes do filme é o momento em que eles avistam a terra e chegam à Grécia. A representação dos milhares de coletes salva-vidas espalhados pela areia é impactante e, ao ampliar esse olhar, percebemos a quantidade de pessoas que diariamente abandonam seus países para conseguir sobreviver. Além disso, a diferença entre aqueles que conseguem chegar à Europa e os que permanecem nos campos de refugiados é marcada pelas desigualdades de oportunidades, acesso à direitos e integração social. O clube alemão Bayern de Munique, em  2015, por exemplo, montou um “campo de treinamento” para muitos refugiados que chegaram ao Sul da Alemanha. Diante do crescente número de pessoas desembarcando todos os dias no país e da superlotação dos abrigos temporários, iniciativas como essa beneficiaram muitas vidas, especialmente a de atletas, funcionando como um impulso para que continuassem acreditando. Foi também assim com Yusra, que encontrou oportunidade por meio de um treinador em um centro de treinamento de natação em Berlim, onde ele trabalhava ativamente com refugiados e ajudava em seus processos de integração.

  •  O olhar para além das histórias inspiradoras

Como apresentado no filme, Yusra Mardini teve a oportunidade de integrar a Equipe Olímpica de Refugiados, competindo nos Jogos Olímpicos do Rio 2016. Na ocasião,  venceu uma bateria dos 100 metros borboleta e deixou sua marca na história do esporte. Posteriormente, competiu também nas Olimpíadas de Tóquio em 2020 e foi porta-bandeira na cerimônia de abertura do evento. Hoje, a atleta é Embaixadora da Boa Vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) e uma entre muitos atletas que passaram a representar o Time Olímpico de Refugiados. Não é comum conhecermos de forma tão profunda histórias como essa. A realidade dos atletas refugiados envolve preconceito, sobrevivência, medo, falta de oportunidades e, muitas vezes, é silenciada pela mídia e pelos próprios responsáveis pelos conflitos. Apesar desse paradoxo entre silenciamento e visibilidade, é necessário compreender os motivos que levam tantas pessoas a deixarem suas casas e abandonar tudo para trás, reconhecendo essa história que continua sendo escrita diariamente.

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