Esporte, masculinidade e internet: o avanço silencioso da cultura redpill

       O esporte sempre foi um dos principais espaços de construção da masculinidade e, com o avanço das redes sociais, essa construção ganhou novos contornos. Hoje, não são apenas técnicos, clubes ou ídolos que influenciam o comportamento de atletas e torcedores, mas também algoritmos, influenciadores digitais e comunidades online. É nesse ambiente que a chamada cultura redpill vem se expandindo de forma silenciosa, mas crescente, no universo esportivo.

        A cultura redpill, originada de fóruns da internet, se baseia na ideia do “despertar” dos homens para uma masculinidade fundamentada na misoginia. Na prática, ela se sustenta em narrativas que colocam homens como vítimas de uma sociedade dominada por mulheres e pelo feminismo. Esse discurso, muitas vezes disfarçado de desenvolvimento pessoal, encontra no esporte um terreno fértil para crescer. Dados recentes mostram que esse não é um fenômeno isolado. Um relatório do NetLab/UFRJ identificou milhares de vídeos e canais no YouTube que promovem conteúdos misóginos e masculinistas, acumulando bilhões de visualizações. Grande parte desses conteúdos se apoia na ideia de que homens precisam retomar uma posição de controle e domínio. Mais do que opiniões, trata-se de um ecossistema estruturado e, também, muito lucrativo.

         No campo esportivo, essas narrativas se manifestam de diferentes formas. Uma delas é a valorização de um modelo específico de atleta: aquele que não demonstra fragilidade, evita debates sociais e reforça uma imagem de superioridade. Emoções ou posicionamentos críticos passam a ser vistos como sinais de fraqueza. Outro ponto está na relação com o esporte e à arbitragem feminina. Comentários que deslegitimam competições femininas, comparações constantes com o desempenho masculino, ataques à aparência de atletas e a profissionais de arbitragem são exemplos recorrentes. Esse tipo de discurso dialoga diretamente com a lógica redpill, ao reforçar hierarquias de gênero e questionar avanços relacionados à igualdade.

         As redes sociais desempenham um papel central nesse processo. Plataformas como Instagram e TikTok favorecem conteúdos que geram engajamento e polêmica. Influenciadores que misturam estilo de vida e discursos sobre masculinidade acabam funcionando como pontes entre o universo esportivo e a cultura redpill. Em um ambiente competitivo como o esporte, ideias que prometem controle, disciplina e sucesso têm forte apelo. Com uma linguagem acessível, uso de humor e frases de efeito, esses conteúdos atingem, principalmente, um público jovem e ainda em formação. 

        Apesar de não serem abertamente declarados como “redpills”, casos recentes ilustram esse movimento no esporte brasileiro. O caso recente do zagueiro Gustavo Marques, por exemplo, que afirmou após uma partida do Campeonato Paulista, que não deveriam escalar mulheres para apitar jogos de grande porte, reforça esses padrões rígidos de masculinidade, limitando o espaço para discussões fundamentais dentro do esporte. O esporte é um espaço extremamente masculinista que gera conforto nos homens em reproduzir pensamentos machistas de forma naturalizada. Situações semelhantes também envolvem o técnico Ramón Díaz, que teve falas machistas em diferentes clubes sobre a arbitragem feminina, e apenas na mais recente, ele sofreu punição. 

(Foto: Donaldo Hadlich / Código19 / Gazeta Press)

       Além de reprimir pautas essenciais, essa cultura contribui para a normalização de discursos como do zagueiro e do técnico, que deslegitimam mulheres e dificultam a construção de ambientes esportivos mais igualitários. Discutir o avanço da cultura redpill no esporte é, portanto, mais do que analisar uma tendência da internet. É refletir sobre quais valores estão sendo reforçados dentro e fora dos campos, e que tipo de referência está sendo construída para as próximas gerações. Especialmente, em um cenário em que o consumo esportivo está cada vez mais conectado ao ambiente digital, entender essas disputas simbólicas se torna fundamental.

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