Me van a tener que disculpar

Esse texto inicia com uma alusão direta ao pequeno texto Me van a tener que disculpar do argentino Eduardo Saccheri, importante autor do país vizinho (escreveu dentre outros, a novela La pregunta de tus ojos que originou o filme ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, O segredo dos seus olhos). Tive acesso a esse texto pela primeira vez acompanhando a disciplina do professor César Guazzelli sobre a história social do futebol. Para essa escrita apenas busquei no Google1 o que me impede de colocar uma melhor referência ao final do texto. Coloco alguns trechos mal traduzidos por mim:

Se uma pessoa quer ser coerente, ela deve medir a sua conduta e a dos seus semelhantes sempre com a mesma e idêntica vara. Não pode fazer exceções, pois do contrário declara bastardo seu juízo ético, sua consciência crítica, seu critério legítimo. (…). Porém, vocês terão que me desculpar, senhores. Há uma pessoa que eu não posso. E olha que eu tento. Me digo: não pode haver exceções, não deve haver. E a desculpa que solicito a vocês é ainda maior porque a pessoa de quem falo não é um benfeitor da humanidade, nem um santo homem, nem um valente guerreiro que tenha consolidado a integridade da minha pátria. Não, nada disso. O sujeito tem uma atividade muito menos importante, muito menos transcendente, muito mais profana. Lhes adianto que o tipo é um esportista. (…). Pese a tudo, senhores, sigo me sentindo incapaz de julgá-lo. Meu juízo crítico se detém ante ele e se dispensa. Não é um capricho, cuidado. Não é um simples capricho. É algo um pouco mais profundo, se me permitem classificá-lo desse modo. Serei mais explícito. Eu o desculpo porque sinto que lhe devo alguma coisa. Lhe devo algo e sei que não tenho formas de pagá-lo. Ou talvez esta seja a peculiar moeda que eu encontrei para lhe pagar. Digamos que minha dúvida se acalme neste hábito de evitar sempre qualquer eventual reprovação. (…) Por isso não é só futebol. E com semelhantes antecedentes de tarde turbulenta, com semelhante prólogo de tragédia, esse tipo se pendura para sempre no céu dos nossos. Porque se coloca frente aos contrários e os humilha. Porque os rouba. Porque diante dos seus olhos, os afana. Y ainda que seja lhes devolve esse roubo pelo outro, pelo maior, pelo infinitamente mais enorme e ultrajante. (…). Porém tem mais. Ainda que alguém diga que bom, já é suficiente, me dou por satisfeito. Tem mais. Porque o sujeito, além de malandro é um artista. É muito mais que os outros. Arranca desde o meio, desde seu campo, para que não fiquem dúvidas de que o que está por fazer nunca foi feito por ninguém. E ainda que vá de azul, vai com a bandeira. Ela a leva em uma mão, mesmo que ninguém a veja. Começa a espalha-los para sempre. E os vai liquidando, um por um, movendo-se ao calor de uma música que eles, pobres otários, não entendem. Não sentem a música, porém sentem uma leve ardência, algo que os diz que aí vem a noite. E o tipo segue adiante. Para que comecem a não poder acreditar. Para que não se esqueçam nunca. Para que lá longe, os sujeitos deixem as cervejas e qualquer outra coisa que tenham na mão. Para que fiquem com a boca aberta e com a expressão de tontos, pensando que não, que não vai acontecer, que alguém vai pará-lo, que esse moreninho vestido de azul e de argentino não vai entrar na área com a bola mansinha como sua recompensa, que alguém vai fazer algo antes que engane o goleiro e passe ao seu lado, de que algo vai acontecer para colocar ordem na história e que as coisas sejam como Deus e a rainha mandam, porque no futebol tem que ser como na vida, onde os que têm vontade de ganhar, ganham, e os que tenha as de perder, perdem. (…). Por isso não me perturbem querendo que o meça com a mesma vara que se supõe que devo julgar os demais mortais. Porque eu lhe devo esses dois gols contra a Inglaterra. E o único modo que tenho de agradecê-lo é deixá-lo em paz com as suas coisas. Porque já que o tempo cometeu a estupidez de seguir transcorrendo, já que optou por acumular um monte de presentes vulgares em cima desse presente perfeito, ao menos eu devo ter a honestidade de recordá-lo por toda a vida. Eu conservo o dever da memória.

Ao contrário de Saccheri e dos argentinos, os gols de Romário e Ronaldo que me fizeram campeão do mundo com 11 e, depois, com 19 anos não vingaram nenhuma derrota em outro plano. O Brasil tetra em 1994 e penta em 2002 colocavam o futebol brasileiro no seu lugar de melhor futebol do planeta. Aqui se tratava de futebol e nisso éramos os melhores. É possível que meu único gol de vingança tenha sido o do atacante Maurílio, de letra, em um Juventude e Flamengo pelo campeonato brasileiro de 1997. O Juventude foi mais longe que o Grêmio naquela competição e mandou seus jogos da segunda fase no estádio Olímpico, uma vez que seu estádio não atendia as exigências para aquela fase do campeonato. Como a menina que eu gostava tinha um namorado que torcia para o Flamengo, Maurílio ajudou a restabelecer um pouco da dignidade daquele jovem rejeitado de 14 anos…

Mas o que me interessa do texto de Saccheri não é a vingança. De seu texto eu quero o perdão. Também preciso que vocês me desculpem. Eu sei que a Copa do Mundo da FIFA é um negócio bastante problemático. A tal federação que não se metia com política deixou bastante explicitado o seu lugar político. Não se trata de caso inédito. A Itália fascista recebeu o torneio na década de 1930. A ditadura argentina também recebeu o torneio em 1978. Antes de ser banida, a Rússia e sua criminalização da homossexualidade, receberam o torneio em 2018. O banimento da Rússia por ter declarado guerra contra a Ucrânia não tocou nos Estados Unidos de Donald Trump que manteve ações bélicas contra o Irã durante o torneio, além de ter adotado uma série de procedimentos de diferenciação com as delegações e tendo, inclusive, barrado um árbitro selecionado pela FIFA para atuar na Copa.

A FIFA, inclusive, apresenta hoje, talvez, o melhor exemplo de nosso capitalismo contemporâneo. Ela é dissimulada e tem princípios que duram o exato tempo da conveniência. Ela não produz absolutamente nada, apenas concentra o lucro do trabalho de toda uma rede, além de proteger os interesses das empresas já consolidadas.

A lista de críticas e problemas do torneio poderiam seguir longamente, mas é aqui que eu quero pedir desculpas. Quando o Paraguai eliminou a Alemanha eu comemorei como se fosse a Larissa Riquelme. Os últimos vinte minutos de Egito e Argentina e a atuação de Messi são daqueles momentos em que parece que o campo, apesar de tudo, tem o seu espaço para o sublime, para a tensão e para a alegria. Como todo apaixonado por futebol, esses momentos nos autorizam a olhar para esse fenômeno com a inocência infantil.

As Copas do Mundo nos ajudam a contar o tempo. A primeira que eu prestei atenção foi a de 1990 na Itália. Tenho viva na memória uma conversa com meu pai no carro enquanto esperávamos minha mãe retornar de algum lugar que eu não tenho ideia de qual fosse. Antes da final entre Alemanha e Argentina, disse a ele que torceria pela Alemanha, uma vez que a Argentina havia nos eliminado (aqui estava o desejo de vingança). Não sei se era um conceito interessante para ensinar ao seu filho, mas ele me disse que deveríamos torcer pelos nossos vizinhos, ao contrário da rivalidade clubística, ele me ensinou que quanto mais próximos, mais deveríamos torcer para nossos adversários-rivais.

Em 1994, com 11 anos, só pude comer pipoca no primeiro jogo, já que entre as vitórias do Brasil contra Rússia e Camarões coloquei meu aparelho fixo que me acompanharia por longos três anos. Foi a primeira copa em que meu irmão entendia alguma coisa de futebol. E ganhamos. Até 1994, eu achava que a Argentina era melhor que o Brasil, talvez pela Copa de 1990 e as Copas Américas de 1991 e 1993, além de ser apaixonado pelo Batistuta e pelo uniforme listrado em azul e branco que fazia com que fosse minha seleção favorita para jogar videogame, já que suas cores faziam com que virasse o Grêmio em clássicos empolgantes contra a Polônia/Internacional. Foi Romário, Bebeto, Taffarel e grande elenco, incluindo o injustamente criticado Zinho que eu conheci o grande futebol brasileiro. Foi a vitória de 1994 que me apresentou a nossa tradição de vitórias.

Apesar da derrota em 1998, o mundial da França foi o que assisti com maior entusiasmo. Soberbo achei que ganharíamos de novo, apesar de achar que Edmundo deveria ter sido titular no lugar de Bebeto. Achava o time da França, que acabou campeão, bem mais ou menos. Comemorei a vitória da Croácia contra a Alemanha e a expulsão do Spice Boy David Beckham que naquele momento era somente o namorado de uma das Spice Girls. Aos 15 anos assisti todos os jogos que consegui, além das intermináveis mesas-redondas.

Em 2002, para um jovem gremista, Felipão Scolari era mais importante que Ronaldo e Rivaldo. Mesmo com o pior dos três goleiros convocados como titular, o Brasil surpreendeu a muitos e conquistou o torneio novamente. Os jogos cedo da manhã ou durante a madrugada eram repercutidos ao longo do dia inteiro. Ganhamos da Alemanha ao natural na final. O modelo da seleção copiou o Grêmio campeão da Copa do Brasil de 2001. Com Felipão no comando, o título se confundia com um período em que o Grêmio obteve grandes conquistas. Minha adolescência nesse período pode explicar um torcedor bastante arrogante que sempre acredita que o seu time ou seleção, apesar de tudo jogar contra, ganhará novamente.

O começo do trabalho foi o que me afastou das Copas do Mundo. Em 2006 gostava mais dos reservas que dos titulares da Seleção, especialmente Juninho Pernambucano e Gilberto. Torci muito pelos recordes de Ronaldo, talvez o meu maior ídolo na seleção. Naquela Copa eu fiquei mais irritado com as substituições do Pakermann contra a Alemanha do que com o gol do Henry que tirou o Brasil do torneio. Foi a primeira Copa em 16 anos que o Brasil não fez os sete jogos.

Em 2010 eu tinha convicção que o Brasil seria campeão. Era científico. O Brasil era a única seleção do planeta a vencer o torneio fora de seu continente. O primeiro tempo contra a Holanda nos dava bons indícios de que a vitória viria. O time não era brilhante, mas ajustado. Essa foi a primeira Copa que acompanhei casado e a final entre Espanha e Holanda foi muito divertida de assistir em família falando bobagem, tentando fazer uma narração caseira do Rock e Gol, já que, para nós, o campeão era completamente indiferente.

Fui ao Beira-Rio assistir o Messi. Naquela partida contra a Nigéria na Copa de 2014, foi a primeira vez que ele fez 2 gols em um mesmo jogo de Copa. Com toda a minha formação futebolística, torcer para a Argentina foi uma obviedade. A dimensão do 7 a 1 atrapalha qualquer outra memória da Copa. Aquela derrota fez falir o que se pensava sobre o futebol no Brasil e a minha arrogância conquistada na virada do século, misturada com uma seca de títulos do Grêmio acabou indo embora.

Para 2018 o time do Tite e do Neymar voltou a me dar esperança de título, mas aí eu acho que era mais pelo meu desconhecimento do futebol europeu do que por outro motivo. Se vinte anos antes eu conseguia acompanhar praticamente todas as partidas, agora, com 35 anos as partidas eram raras. O time do Tite era mais ou menos, mas como a arrogância do torcedor é cíclica eu achei que ganharíamos mais uma vez.

As Copas ajudam a contar o tempo e o mundo. Em dezembro de 2022, aí com um pouco mais de indícios eu achava que ganharíamos a Copa e faltou pouco. Nunca saberemos o que aconteceria na semifinal entre Brasil e Argentina que só não aconteceu porque o boca aberta do meu volante estava lá no ataque quando tínhamos o jogo nas mãos. A Croácia chutou uma vez no gol do Alisson… Foi muito legal ver a coroação do Messi, o jogador mais vencedor deste século (só para criar uma polêmica desnecessária, o Ronaldinho Gaúcho jogou mais do que ele, aqui não se está falando das Copas do Mundo). Apesar disso, não parei para assistir nem mesmo aos jogos do Brasil. A derrota não me causou nada. O importante era o Grêmio voltar para a série A. A única conexão mais forte com o torneio, além da final, foram as camisetas de “minha primeira copa do mundo com o papai – com a mamãe” que comprei pro meu filho Martin!

Enquanto escrevo, a Copa de 2026 ainda não acabou. Para o Brasil, sim, perdemos tomando gol daquele centroavante, que dizem os entendidos é ruim, só sabe fazer gol… Eu nem sabia que estava torcendo para a seleção até o Casemiro nem passar e nem chutar a nossa chance de empate em que eu xinguei algumas gerações anteriores e todas as posteriores de nosso primeiro volante… E, talvez, com o passar dos anos tive medo que tenha sido o último jogo do Brasil que assisti com meu pai. Espero que não tenha sido, mas envelhecer dá essa perspectiva. Foi a primeira vez que vislumbrei essa possibilidade.

Mas vocês precisam me desculpar por isso. O envolvimento com a Copa é diferente. Ele não segue uma coerência. Montamos esquemas geopolíticos para escolher para quem torcer, mas quando eu olho estou torcendo para a seleção vestida de azul ou contra a que usa uniforme vermelho. O Messi cumprimentou o Trump, eu sei, mas enquanto ele está jogando isso, definitivamente, não me importa. Não é possível ser coerente. Quando o jogo acontece, mesmo que agora em quatro e não mais em dois tempos, vale a frase do homenageado no texto do Saccheri, la pelota no se mancha.

Agora é aproveitar os últimos momentos e voltar para o nosso ordinário cotidiano. Porque a Copa ainda tem mais essa função, ela é as férias do torcedor. E tal qual as férias dos trabalhadores, é o momento mais divertido. Na Copa podemos fugir da dieta, gastamos mais dinheiro do que no período ordinário. Agora voltará o tempo do trabalho dos torcedores e nós só queremos 45 pontos para permanecermos na primeira divisão. Vamos esperar melhorar um pouquinho para o ano que vem esperando a Copa do Mundo de 2030 e nossas novas férias, não temos ideia de quem seremos e onde estaremos, mas estaremos esperando por ela. E com todos os problemas que ela trará, vocês terão que me desculpar, eu voltarei a gozar essas férias e, tomara, que por muitos anos com as pessoas queridas próximas de mim.

  1. Disponível em: https://perio.unlp.edu.ar/catedras/wp-content/uploads/sites/179/2024/08/ME-VAN-A-TENER-QUE-DISCULPAR-EDUARDO-SACHERI.pdf. Acesso em 10/07/2026.
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