Movimento de Torcedores Autistas no Rio de Janeiro

É senso comum que o futebol no Brasil é fator de reconhecimento do país e representação do “ser brasileiro”. Entendendo que são variadas as temáticas envolvidas na dinâmica social do contexto do futebol, este breve texto é parte de pesquisa que investiga a organização das torcidas e movimentos autistas dos clubes do Rio de Janeiro, Flamengo, Botafogo, Vasco e Fluminense. O objetivo é apresentar como se deu a mobilização dos torcedores, a formação das torcidas e como os clubes têm adequado seus estádios para receber os torcedores com TEA, segundo regulamentação municipal. 

Vários acontecimentos marcaram a dimensão do futebol como esporte de massas no Brasil, desde sua chegada até a segunda década do século XXI, modificando a forma de torcer. Assim refletimos a paixão que o futebol mobiliza e o que está implicado quando se propõe debates contemporâneos sobre inclusão em movimentos sociais coletivos do futebol. (LOPES; BUARQUE, 2018). 

Posto isto, discutimos um fenômeno que tem se destacado nas arquibancadas de torcidas de futebol pelo país: a inclusão de pessoas neuroatípicas nos estádios, especialmente no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Salas e espaços sensoriais já podem ser encontrados em vários estádios e arenas do país. Olhamos de forma mais específica para  o movimento de torcedores (LOPES; BUARQUE, 2008) dos clubes do Rio de Janeiro (Botafogo de Futebol e Regatas, Clube de Regatas do Flamengo, Fluminense Football Club e Club de Regatas Vasco da Gama) e nos debruçamos no assunto apoiados no direito à arquibancada e na influência do futebol para a promoção de debates que movimentam a sociedade. 

De acordo com o Ministério da Saúde, o TEA é um distúrbio do neurodesenvolvimento que afeta a capacidade de comunicação, interação social e comportamento dos indivíduos1.

O TEA é um distúrbio caracterizado pela alteração das funções do neurodesenvolvimento, que podem englobar alterações qualitativas e quantitativas da comunicação, seja na linguagem verbal ou não verbal, na interação social e do comportamento, como: ações repetitivas, hiperfoco para objetos específicos e restrição de interesses. Dentro do espectro são identificados graus que podem ser leves e com total independência, apresentando discretas dificuldades de adaptação, até níveis de total dependência para atividades cotidianas ao longo de toda a vida2.

A maioria dos estímulos presentes nos estádios de futebol pode gerar incômodo às pessoas TEA e, por isso, é importante a disponibilização de salas sensoriais nos estádios com a redução significativa dos ruídos, luz adaptada, um ambiente mais confortável. Contudo, notamos que a inclusão dos torcedores TEA ainda está longe de ser a adequada.

No Brasil, atualmente, há mais de 20 torcidas TEA e 10 estádios brasileiros com sala sensorial3. No Rio de Janeiro, desde 2023, vigora a lei Arthur Colecto de Nº 7.9734 que dispõem sobre a exigência de espaços adaptados em estádios e arenas do município com capacidade de 5 mil pessoas ou mais. No Rio, o cumprimento da legislação e a instalação dos espaços sensoriais no Estádio Nilton Santos e no Maracanã, além do camarote adaptado em São Januário, abertos com mais de 1 ano de atraso, são resultados da mobilização de torcedores nas arquibancadas e na internet. 

Historicamente, as primeiras torcidas organizadas surgiram na década de 1940, quando o futebol já era “paixão nacional”, massificado no país. A criação de competições interestaduais e de novos estádios contribuíram para a massificação e nacionalização do futebol. Logo, os locais das partidas passaram a ser alvo de interesse por torcedores que demandavam mais espaços. Estádios privados cederam espaço a estádios públicos, e a magnitude desses locais levou as massas torcedoras para acompanhar seus times e fortalecer os rendimentos financeiros dos clubes. (Teixeira; Hollanda, 2016). 

Com a popularização e nacionalização do futebol, muitos movimentos de torcedores surgiram nas arquibancadas, mobilizados pelas mais diversas características, afinidades e reconhecimentos na forma do torcer. Causas pautadas pelo associativismo torcedor, laços de solidariedade, passaram a ter mais visibilidade nos estádios e a reivindicação por espaço na arquibancada, clubes e federações esportivas ficou mais evidente na busca pelo acolhimento e inclusão de todos os torcedores. 

Mobilização e conquistas

Em 2024, realizamos entrevistas com fundadores e lideranças das torcidas e movimentos autistas5 para compreender o surgimento do fenômeno na arquibancada. Assim, identificamos que a mobilização inicial no Rio de Janeiro aconteceu com a torcida do Flamengo, quando Eduardo Colecto, pai de Arthur Colecto de 9 anos, diagnosticado no espectro autista, viu seu filho ter uma “crise” no Maracanã. Em 2019, Colecto enviou proposta de lei ao mandado do vereador William Siri, do Psol, reivindicando espaço a pessoas com TEA nos estádios.

Eu me inspirei e tive muita ajuda do pessoal do Corinthians, que na época era o único time que o estádio tinha local adaptado para receber autistas. Assim que soube das  torcidas de autistas do Rio, fiz questão de incluir os representantes de cada uma no assunto. (Colecto, 2024).

A torcida AutistaFlu também surgiu a partir da mesma iniciativa. Monike Lourinho é mãe de Frederico, de 7 anos, com TEA nível de suporte 2 e hipersensibilidade auditiva, apaixonado pelo Fluminense. Monique conseguiu mobilizar a torcida tricolor e hoje conta com apoio do clube.

A mobilização foi iniciada por mim pós-pandemia, meu filho queria muito ir aos jogos. Acabou que eu me encontrei com as Torcidas atípicas do Corinthians e São Paulo, hoje temos um grande grupo que se ajuda. Já ouvi um pai dizer para mim que estamos dando coragem para as famílias irem aos jogos. (Lourinho, 2024).

O grupo Torcedores Autistas Botafoguenses começou a mobilização com Ruan Seabra, quando em 2023 quis levar seus filhos, Miguel com 10 anos e Renan com 5, ambos com TEA, suporte 1 e 2 respectivamente, ao Estádio Nilton Santos. Ruan, com 34 anos e diagnóstico de TEA de suporte 2, se organizou com amigos para frequentar os jogos de forma assídua.

A iniciativa começou com o sonho de levar meu filho ao estádio. Com isso, surgiu a ideia de montar um perfil no Instagram para incentivar pais que, como eu, tinham essa necessidade de se informar sobre os melhores setores para ir. Hoje, nós temos 150 pessoas que vão ao estádio com a gente. (Seabra, 2024).

O Vasco da Gama inaugurou no início de 2024 uma sala sensorial provisória para 12 torcedores, totalizando autistas e acompanhantes, assistirem aos jogos em São Januário. A conquista foi organizada pela advogada Vanessa Barroso, mãe de Miguel e fundadora da torcida Autistas da Colina. Junto dela, Bruna Tostes, mãe de Miguel e Gabriel, buscou o clube para a inclusão de crianças com TEA, como seus filhos. 

A Vanessa começou a iniciativa exatamente por sentir falta de um espaço em que as crianças se identificassem, que as famílias conseguissem ir, curtir e aproveitar. O movimento começou via rede social, a Vanessa criou o Instagram “autistas_da_colina”, onde ela sempre divulga as ações que acontecem voltadas para o Vasco. (Tostes, 2024).

Bruna reforça o comprometimento do clube com atividades para as crianças com TEA. A torcida Autistas da Colina completou 2 anos em 2025 e conta com ações realizadas pelo clube, como jogos amistosos exclusivos e o Tour da Colina Inclusivo. Uma sala sensorial mais ampla está prevista na reforma do estádio6.

Durante o desenvolvimento desta pesquisa, o Botafogo de Futebol e Regatas inaugurou, em novembro de 2024, o Aconchego Glorioso, a primeira sala sensorial em um estádio carioca, em parceria com o projeto Recriare Terapia Comportamental. A ampla sala apresenta variados recursos e profissionais capacitados para auxiliar torcedores e seus acompanhantes que precisam de acolhimento durante os jogos do Botafogo. Próximo ao local, destaca-se um espaço reservado com algumas cadeiras da arquibancada sinalizadas com o símbolo do autismo. Se antes a torcida Botafoguenses Autistas ficava espalhada no estádio com faixas e bandeiras, agora procura ficar nas cadeiras reservadas a fim de dar mais visibilidade à causa, acolher torcedores que não conhecem o grupo e recorrer ao espaço quando necessário.

O Maracanã foi o último estádio do Rio de Janeiro a cumprir a regulamentação municipal. Em setembro de 2025, a gestão Fla-Flu inaugurou duas salas sensoriais no estádio, cada uma  com capacidade para 18 torcedores, não somente autistas, como também para pessoas com baixa estatura e deficiência visual. O espaço conta com o suporte de dois funcionários capacitados para acolher as pessoas.

A partir dessa dinâmica de organização do movimento autista pelo direito à arquibancada, é fundamental apontar que toda a mobilização pela conquista desses espaços para torcedores TEA nos clubes do Rio de Janeiro se dão, preferencialmente, pela internet, via redes sociais e aplicativos de mensagens. Lopes, Dias e Penteado (2022) destacam que as redes têm funcionado como suporte a movimentos sociais e coletivos de torcidas, reformulando conceitos de participação e espaço democrático. “(…) enquanto outras, como o WhatsApp, para trocar informações e estabelecer diálogos entre seus integrantes. Nossa hipótese é que, em uma escala imaginária de adesão ao coletivo, o WhatsApp ocupa uma posição intermediária entre as outras redes sociais digitais e a rua. (Lopes; Dias; Penteado, 2022, p. 9). 

Nos grupos das torcidas autistas no Whatsapp (somente a torcida AutistaFlu não tem grupo de mensagens e se organiza pela rede social Instagram), a dinâmica de interação é de torcida que apoia, incondicionalmente, seu time, ao mesmo tempo em que se busca a possibilidade de que todos os torcedores e torcedoras, crianças e adultos com TEA, frequentem o estádio. Os sentimentos de pertencimento e reconhecimento são constantes e a interação acontece de forma espontânea, com agradecimento público pelo acolhimento nesses grupos. Nesse sentido, continuar acompanhando esses grupos no Whatsapp é parte fundamental para dar seguimento à pesquisa e compreender como é a dinâmica  para a organização do movimento nessas torcidas. 

Políticas de acessibilidade e a implementação das salas sensoriais nos estádios são fundamentais para a inclusão de torcedores, principalmente para aqueles que estão no espectro autista. Mais uma vez, destacamos que movimentos realizados por esses movimentos e torcidas autistas refletem uma outra perspectiva sobre o entendimento de torcida organizada que se é experimentado hoje no país. Para Teixeira e Hollanda (2016), o contexto que antecedeu a realização dos megaeventos esportivos no Brasil, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 modificou as formas de torcer na contemporaneidade. 

Esses espaços sinalizam como estes formatos de torcida organizada movimentam pautas importantes e podem, juntos, alcançar conquistas relevantes para torcedores e toda a sociedade civil. Pensar políticas públicas para a acessibilidade e a implementação das salas sensoriais nos estádios são fundamentais para a inclusão de torcedores do espectro autista. Compreendemos com estas primeiras conquistas que passos importantes já foram encaminhados. Contudo, as ações ainda estão distantes de uma inclusão efetiva. 

Referências

COLECTO, Eduardo. [Entrevista]. WhatsApp: [conta pessoal]. 10 de maio de 2024. 5 mensagens WhatsApp Texto.

LOPES, Felipe; BUARQUE, Bernardo. Podem as torcidas de futebol ser movimentos sociais? versão de Ódio eterno ao futebol moderno: poder, dominação e resistência nas arquibancadas dos estádios da cidade de São Paulo. Revista Tempo. Niterói, vol. 24, n. 2, maio/agosto de 2018. 

LOPES, Felipe; DIAS, Camila; PENTEADO, Cláudio. Torcedores de Futebol e Ativismo Esportivo: Uma análise da Agenda Política e das formas de atuação do Bloco Tricolor Antifa. Recorde, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 1-23, jul./dez. 2022. 

LOURINHO, Monike. [Entrevista]. WhatsApp: [conta pessoal]. 10 de maio de 2024. 1 mensagem WhatsApp Audio.

SEABRA, Ruan. [Entrevista]. WhatsApp: [conta pessoal]. 10 de maio de 2024. 10 mensagens WhatsApp Audio.

TOSTES, Bruna. [Entrevista]. WhatsApp: [conta pessoal]. 10 de maio de 2024. 6 mensagens WhatsApp Audio.

  1. GOVERNO FEDERAL. Ministério da Saúde. TEA: saiba o que é o Transtorno do Espectro Autista e como o SUS tem dado assistência a pacientes e familiares. Disponível em https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/abril/tea-saiba-o-que-e-o-transtorno-do-espectro-autista-e-com o-o-sus-tem-dado-assistencia-a-pacientes-e-familiares. Acesso em 22 de dezembro de 2024.  ↩︎
  2. Idem. ↩︎
  3. O GLOBO. Grupo de torcedores autistas e salas sensoriais nos estádios avançam pela inclusão no futebol. Disponível em https://oglobo.globo.com/esportes/noticia/2023/11/19/grupos-de-torcedores-autistas-e-salas-sensoriais-em -estadios-avancam-pela-inclusao-no-futebol.ghtml. Acesso em 22 de dezembro de 2024.  ↩︎
  4. Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Lei 7973/2023. Disponível em https://aplicnt.camara.rj.gov.br/APL/Legislativos/contlei.nsf/7cb7d306c2b748cb0325796000610ad8/9a91c41e46cc68032589e2004d65c4?OpenDocument#. Acesso em 29 de abril de 2024.  ↩︎
  5. As entrevistas estão publicadas por completo em artigos do 47º e 48º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (https://portalintercom.org.br/). A publicação dos trabalhos tem a autorização dos entrevistados. ↩︎
  6. Ge. Vasco inaugura espaço exclusivo para torcedores autistas em São Januário. Disponível em https://ge.globo.com/futebol/times/vasco/noticia/2024/04/17/vasco-inaugura-espaco-exclusivo-para-torcedores-autistas-em-sao-januario.ghtml. ↩︎

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