A camisa rosa, a malandragem e o descompasso entre prática e discurso

Por Soraya Damasio Bertoncello e Marcelo Resende

Na noite de 30 de novembro, em meio a uma crise que ameaça empurrar o Internacional para a Série B, Abel Braga foi apresentado como novo técnico do clube. Faltando duas rodadas para o fim do campeonato, a situação do Colorado é tensa, mas isso não impediu o novo treinador de fazer uma “brincadeira” (muitas aspas aqui) que mostra que o futebol brasileiro, de modo geral, precisa evoluir muito (e nem estamos falando apenas de qualidade técnica). Na primeira resposta da coletiva, ao comentar as primeiras horas de seu retorno ao clube de Porto Alegre, Abel declarou que havia dito a Andrés D’Alessandro, ídolo e atual diretor esportivo colorado: “não quero mais a porra do meu time treinando de camisa rosa, parece time de viado”.

Foto: Ricardo Duarte/Divulgação Inter

A ideia não é nova (quem não lembra da ministra do “meninos vestem azul, meninas vestem rosa”?), não é rara e não é um descuido. Ela é um sintoma de um ambiente esportivo que ainda opera sob códigos de masculinidade hegemônica (Connell, 2005; Connell e Messerschmitt, 2015), em que o “rosa” e o “viado” continuam funcionando como marcadores de desvio, fraqueza ou inadequação. E o mais grave: o silêncio ao redor: foram nove repórteres (inclusive uma mulher) que seguiram em suas perguntas como se nada tivesse sido dito, o que mostra que o problema segue estrutural. Abel não inventou nada, apenas repetiu – em novembro de 2025 – aquilo que o futebol ainda autoriza que se repita.

Antes de fazer a sua pergunta, o décimo primeiro repórter a falar, o veterano Luiz Carlos Reche, comentou que “as coisas mudaram, a gente às vezes fala de improviso e tropeça (…) hoje você tropeçou numa frase quando foi falado do rosa”, ao qual Abel Braga respondeu “tentei relaxar meu grupo hoje, vou querer os caras fortes, entendeu a malandragem?”

Não, não entendemos.

Esse episódio diz muito sobre o futebol brasileiro de hoje (e de sempre): um espaço que, mesmo pressionado por debates públicos sobre diversidade, inclusão e responsabilidade institucional, continua permitindo que a homofobia apareça como piada aceitável, como relaxamento de grupo, como malandragem.

Os clubes, de uma maneira geral, vivem uma contradição: campanhas de marketing pela diversidade, hashtags bem-intencionadas em datas simbólicas, ações pontuais de conscientização convivem com práticas concretas que reproduzem masculinidades excludentes. Recentemente, o ex-treinador (também do Internacional) Ramón Díaz declarou que “futebol é lugar de homem”. Agora, Abel Braga reforça a lógica pela via da piada. Entre uma fala e outra, desenha-se um clube que comunica inclusão, “o clube do povo do Rio Grande do Sul”, mas é palco para discursos que reiteram o contrário.

Esse conjunto de gestos, silêncios e justificativas permite observar como a homofobia funciona como uma tecnologia de masculinidade, mantendo o esporte como território hostil às dissidências de gênero e sexualidade. Quando Abel chama de “viado” o time que treina de rosa, não está descrevendo uma realidade, mas delimitando quem pode ou não integrar aquele espaço. O “viado” é a figura que deve ser expulsa do vestiário, do grupo, da identidade coletiva.

Connell (2005) descreve: a masculinidade hegemônica depende do consentimento, inclusive daqueles que, mesmo não sendo os agentes diretos da violência simbólica, a naturalizam. Elias e Dunning (1992) reforçam que o esporte é um espaço de virilidade disciplinada, um ambiente em que o “ser homem” é constantemente testado, vigiado e reafirmado. Questionar a fala do treinador seria, ali, romper com a disciplina tácita da profissão, ser dissonante dentro de campo que valoriza lealdade, hierarquia e aceitação de “como as coisas são”.

Goellner (2016) já argumentou que o corpo esportivo é produzido sob regimes normativos de gênero, e que a dissidência, quando aparece, é tratada não como diferença, mas como ameaça. O que Abel fez, então, foi colocar uma fronteira para essa ameaça. Homens “de verdade” não treinam de rosa; times “de caras fortes” não podem parecer “de viado”. A piada cumpre o papel de alinhar corpos, comportamentos, gestos e emoções dentro de um regime específico de masculinidade, e a ausência de reação crítica garante a manutenção desse status quo.

Há outro elemento que torna o episódio ainda mais grave: o futebol brasileiro já possui mecanismos formais para punir exatamente esse tipo de conduta. Desde 2023, a CBF incluiu no Regulamento Geral de Competições a previsão explícita de punições para casos de LGBTfobia em torneios organizados pela entidade,  incluindo advertência, multa e até perda de pontos.

À época, Onã Rudá, do coletivo Canarinhos LGBTQ+, celebrou a decisão afirmando que se tratava de “um grande passo para o combate efetivo às diversas formas de discriminação no futebol”, destacando justamente que muitos atletas ainda escondem sua sexualidade por medo de violência e exclusão (ESPN, 2003). Também reforçou que o presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, vinha construindo “um novo ambiente no futebol brasileiro”, no qual não haveria mais espaço para omissão diante desses crimes.

Ou seja: a norma existe, o entendimento institucional existe, a previsão de sanção existe. O que falta é caráter. Se o jornalismo esportivo brasileiro tivesse um pouquinho mais de vergonha na cara, o debate, hoje, deveria estar mobilizando o próprio regulamento que o futebol diz possuir, mas nunca é acionado quando o alvo é alguém com prestígio ou sobrenome de técnico histórico.

Apesar de certos avanços, as redações jornalísticas, sobretudo as esportivas, ainda seguem um padrão único de profissionais: homens, brancos e cisheteronormativos. Isso é um dificultador para a pluralidade de ideias e pautas jornalísticas que promovam o combate à homofobia no futebol para impedir que casos como o de Abel Braga ainda ocorram. Quem acompanha os jogos do Internacional no Campeonato Brasileiro sabe muito bem os problemas estruturais do time até então comandado por Ramón Diaz. Time sem consistência defensiva e ofensiva, sem solidez tática, queda brusca de rendimento no segundo tempo, como aconteceu nos últimos dois jogos contra Santos e Vasco. É nítida uma fragilidade no estilo de jogo que explica a equipe do Inter ter apenas duas vitórias nos últimos 10 jogos do Brasileirão. Desempenho que deixa claro os motivos que culminaram na vexatória derrota para o Vasco por 5 a 1, em São Januário, no último sábado (29), goleada que levou à demissão de Diaz. Abel Braga poderia ter feito uma análise mais cuidadosa em vez de atribuir a fragilidade técnica e tática do Colorado ao que socialmente se pensa sobre “viados”. Hombridade não possui gênero tampouco sexualidade. Desviar os verdadeiros motivos para bodes expiatórios já é a largada para o fracasso.

A homofobia, assim como o machismo,  funciona para reafirmar fronteiras internas e externas. Internas, porque disciplina atletas, comissões e funcionários em torno de um padrão de masculinidade que precisa ser constantemente reiterado. Externas, porque diz ao público (sobretudo aos torcedores LGBTQIAPN+) que aquele espaço não lhes pertence completamente, ou só lhes pertence sob certas condições de silêncio, prudência e mascaramento.

E é justamente por isso que episódios como o de Abel Braga deveriam ser mais analisados à luz da contradição entre norma e prática, entre discurso marketeiro e ações efetivas. O regulamento da CBF prevê punição para “quaisquer atos de discriminação de orientação sexual, de sexo, de gênero, etnia, procedência nacional ou religião”. Se isso vale para torcedores, para clubes e para atletas, por que não valeria para um treinador que, em rede nacional, usa a homofobia como instrumento disciplinador? O futebol não precisa de mais campanhas coloridas, precisa de coragem, pois enquanto a punição existir apenas no papel e a homofobia for malandragem, o discurso da diversidade seguirá sendo só discurso.

Referências

CBF estabelece punição também em casos de LGBTfobia no Brasileiro. ESPN.com.br, 15 fev. 2023. Disponível em: https://www.espn.com.br/futebol/brasileirao/artigo/_/id/11628549/cbf-estabelece-punicao-casos-lgbtfobia-brasileiro. Acesso em: 01 dez. 2025.

CONNEL, R.W.. Masculinities 2nd ed,. Berkeley, University of California Press, 2005

CONNELL, R. W.; MESSERSCHMIDT, J. W. Masculinidade hegemônica: repensando o conceito. Revista Estudos Feministas, v. 21, n. 01, p. 241-282, 2013. – https://www.scielo.br/j/ref/a/cPBKdXV63LVw75GrVvH39NC/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 01 dez. 2025.

ELIAS, N.,  DUNNING, E. A Busca da Excitação: Esportes e Lazer no Processo Civilizador. Lisboa: Difel, 1992.

GOELLNER, S. V.  Jogos Olímpicos: a generificação de corpos performantes. Revista USP, São Paulo, n. 108, p. 29–38, 2016. DOI: 10.11606/issn.2316-9036.v0i108p29-38

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