Sobre Palmeiras, Flamengo, Libertadores e outras ideias

Outro dia, em um momento de rolagem descontraída pelo Twitter, me deparei com uma lembrança, compartilhada por algum internauta: o icônico comercial da Amanco. Talvez os mais novos não se lembrem, mas com o recente domínio brasileiro na Libertadores, algumas pessoas recuperaram a propaganda que marcou época em 2009.

Tweet com o comercial da Amanco.

O anúncio da empresa de tubos e conexões afirmava que a Amanco era líder no ramo na América Latina, e então os trabalhadores do Brasil gritavam pelo tubo a palavra “pentacampeão”, como uma provocação que chegava até os argentinos que, por sua vez, respondiam com: “22 Libertadores”. Naquele momento os nossos vizinhos tinham uma grande vantagem sobre nós e detinham 22 títulos contra 13 de equipes brasileiras na competição.

A recordação do comercial 16 anos depois de ter sido lançado acontece porque, em 2025, o Brasil vai igualar a Argentina em número de títulos. A final entre Palmeiras e Flamengo vai marcar o 25º título para o país, mesmo número de taças que já levantaram os argentinos. Se o recorte temporal largo mostra um empate no placar, a história recente traduz um domínio brasileiro na competição, especialmente protagonizado por duas equipes: Palmeiras e Flamengo.

Final da Libertadores 2025: Palmeiras x Flamengo.

E, por mais uma oportunidade, essas duas equipes vão disputar a taça, a Glória Eterna, e o título de primeiro tetracampeão brasileiro na competição. O destino futebolístico das duas equipes foi sendo entrelaçado nos últimos anos, com uma rivalidade acirrada em quase todas as competições disputadas. Na própria Libertadores, em 2021, o Palmeiras sagrou-se campeão em cima do Flamengo. No Brasileirão, ano sim, ano também, os dois times disputam (e conquistam) o título. 

Mas falar do poderio econômico, da competência técnica e do plantel milionário recai em pautas exploradas exaustivamente e, ainda que relevantes, acabam se esgotando em si mesmas ao longo do tempo. Assim, apesar de ter começado esse texto falando sobre a Libertadores, o convite aqui é o de expandir a reflexão sobre esses dois times, afinal, Palmeiras e Flamengo não se resumem a 22 homens e 2 técnicos. 

No futebol feminino os dois times são os atuais campeões de seus estados (com a ressalva de que o Paulistão Feminino de 2025 ainda não terminou), mas a postura dos clubes com relação à modalidade não é a mesma. Enquanto o Palmeiras projeta a construção de um Centro de Treinamento exclusivo para o futebol feminino, no Flamengo, a jornalista Renata Mendonça expôs as condições precárias que o clube oferece para suas atletas. 

Essa realidade nos leva a olhar a fotografia dos clubes de maneira mais ampla e, assim, chegamos à diretoria dos clubes. Tanto o presidente Luiz Eduardo Baptista (Bap) quanto o diretor técnico José Boto não parecem ter ideias de valorização do futebol feminino no Flamengo. Ainda assim, o clube tem um domínio massivo no contexto estadual, tendo conquistado seu nono título Carioca em 2025. Com a maior torcida do país, não impulsionar a modalidade demonstra, acima de tudo, um pouco entendimento de uma realidade que está se modificando, principalmente no que tange a adesão das mulheres dentro e fora de campo – algo que os clubes paulistas, especialmente o Corinthians, tiveram há muitos anos.  

De uns tempos para cá, o Palmeiras, sobretudo com a presidência de Leila Pereira, passou a investir mais no futebol feminino e valorizar a modalidade não apenas em termos estruturais, mas reafirmando em entrevistas a importância da ocupação desses espaços pelas mulheres. Mas é interessante como a postura de Leila Pereira, tão afirmativa e talvez até feminista, não se sustenta completamente, e se contradiz dentro de seu próprio clube. 

Abel Ferreira, por mais de uma oportunidade, proferiu frases machistas em entrevistas coletivas, e Leila Pereira não teceu um comentário sobre a situação. Essa postura ambígua da presidente deixa uma incógnita na sua valorização do papel das mulheres no esporte. Se por um lado ela faz história ao convocar uma entrevista coletiva apenas para jornalistas mulheres, por outro ela repete o padrão normativo de silenciamento frente a opiniões ultrapassadas e preconceituosas.  

O entrelaçamento de Flamengo e Palmeiras ganhará mais um novo capítulo no próximo dia 29 de novembro, em Lima, quando, enfim, o Brasil igualará a Argentina em números de título na Libertadores. O que mais, entretanto, existe por trás de cada clube? 

Se o comercial da Amanco fosse feito atualmente, que histórias poderíamos contar pelos tubos que conectam a América Latina?

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