A fé bate um bolão na Copa do Mundo

Escrever texto jornalístico ou acadêmico em tempos de Copa do Mundo e deixar de lado o futebol é uma missão bastante complexa. Ainda mais pra quem acompanha o esporte e espera quatro anos para conferir o desempenho dos convocados da seleção brasileira no Campeonato Mundial de Futebol da FIFA. Inicialmente, pensei em explorar caminhos diferentes. As novas regras implementadas na Copa do Mundo e que em breve serão adotadas também em outros torneios eram uma opção. O Mundial altamente atrelado às bets acompanhando o aquecimento do mercado de apostas online com envolvimento de jogadores e endividamento da população brasileira também me pareceu um tema relevante a ser abordado. Mas, por fim, acabei optando por escrever sobre a ligação da fé com a Copa.

Tudo após escutar um discurso em que o orador ressaltou a visão humanista do idealizador da Copa do Mundo, Jules Rimet. Marcado pela doutrina social religiosa, Rimet acreditava que a competição internacional poderia funcionar como instrumento de aproximação entre os povos e de educação moral da juventude. Portanto, diferentemente do megaevento esportivo de hoje que envolve interesses sociais, políticos, econômicos e midiáticos, o objetivo declarado da primeira Copa do Mundo realizada em 1930, não era apenas o de determinar a melhor seleção nacional do planeta, mas promover a integração humana e a paz entre as nações envolvidas.

Os ideais de solidariedade, união e fraternidade foram muitas vezes atendidos ao longo da história da competição. Na Copa de 1998, na França, por exemplo, as tensões entre Estados Unidos e Irã não impediram que jogadores e dirigentes usassem  a diplomacia esportiva para disputar o jogo da paz, que acabou com a vitória dos iranianos por 2×1.

Embora frequentemente a classificação para a Copa do Mundo sirva de alento para países com graves problemas sociais, como é o caso do Haiti, nem sempre os gramados conseguem tréguas no campo geopolítico. As tensões globais inclusive motivaram a FIFA a intensificar campanhas institucionais para promover o desenvolvimento social através do futebol. O programa “Football Unites the World” objetiva estimular a conscientização em relação à importância da inclusão e do respeito a todos. No entanto, apesar de o nacionalismo esportivo fortalecer identidades coletivas positivas, ele também pode alimentar rivalidades e xenofobia. As queixas de hostilidades, algumas vezes partem, inclusive,  dos anfitriões. E esta Copa, que com 48 seleções é a maior já realizada, está sendo disputada em três países: Estados Unidos, Canadá e México.

O árbitro da Somália, Omar Artan, considerado o melhor da África no ano passado, teve sua entrada nos Estados Unidos negada. Durante uma entrevista no último dia 10, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse estar trabalhando para que as pessoas certas entrem no país, o que de uma certa forma vai de encontro ao ideal de fraternidade da Copa do Mundo. Jules Rimet defendia que a competição fortaleceria a percepção de pertencimento a uma comunidade global, formada por povos com tradições, idiomas e costumes diversos. 

Voltando à fé e à crença, Jesus foi exemplo de enfrentamento às barreiras culturais e religiosas do seu tempo. Colocava o amor à frente de qualquer origem social, nacionalidade e religião. O meio-campo alemão Felix Nmecha soube reverenciar o rei dos reis. Após marcar o primeiro dos sete gols da Alemanha contra Curaçau, ajoelhou e apontou para o céu em um gesto de louvor a Jesus Cristo. Logo após a vitória da Alemanha por 7 a 1, que remete aos brasileiros lembranças tristes da Copa de 2014, Felix Nmecha, Jonathan Tah e jogadores adversários fizeram uma roda de oração no meio do campo. 

Em declaração à imprensa, Nmecha explicou o momento: “Durante o jogo somos adversários, mas depois todos somos cristãos e irmãos. Por isso fizemos uma pequena oração, porque estamos muito gratos.” A declaração do jogador alemão corrobora o pensamento do papa Francisco, que acreditava no poder de união do futebol.

“Um âmbito privilegiado ao redor do qual as pessoas se encontram sem distinções de raça, sexo, religião ou ideologia, e onde podemos experimentar a alegria de competir para alcançar uma meta juntos, participando de um grupo no qual o sucesso ou a derrota são compartilhados e superados”.

Também inspirado nos valores cristãos, coube ao papa norte-americano Leão XIV em visita a Espanha destacar a importância do trabalho “em equipe” e comparar o futebol à vida.

“O futebol também nos ajuda a lembrar algo muito importante: que a vida não é uma corrida para ser vivida de forma solitária. É algo que se joga em equipe, e é preciso aprender a correr juntos”, disse o papa durante visita a Espanha.

Em meio às contradições sociais, políticas, econômicas e identitárias presentes na sociedade, o projeto moral de Jules Rimet segue em expansão, ainda que parcialmente. Para quem está acompanhando a 23ª edição do torneio masculino de futebol, fica a reflexão e, também, a sugestão de um exercício de fé nos valores morais e sociais positivos idealizados por Rimet e, por quê não? No hexa. Sem sofrimento. E aí, vale a dica dos pessimistas de plantão que estão fazendo circular essa mensagem nos grupos de WhatsApp. 

“O Brasil será hexa de qualquer jeito: Se ganhar, será a sexta vez. Se perder, será a sexta Copa sem ganhar. Então, sofra com moderação, porque o hexa já é nosso de qualquer jeito!”

Referências:

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/06/10/a-um-dia-da-copa-do-mundo-papa-leao-xiv-diz-que-vida-e-futebol-se-jogam-em-equipe.ghtml
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/06/10/a-um-dia-da-copa-do-mundo-papa-leao-xiv-diz-que-vida-e-futebol-se-jogam-em-equipe.ghtml
https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2020/01/08/hoje-sob-tensao-e-ataques-eua-e-ira-fizeram-jogo-da-paz-em-copa-do-mundo.htm
https://www.estadao.com.br/pulsa/mente-e-cerebro/bets-e-copa-do-mundo-combinacao-pode-aumentar-o-risco-de-dependencia
https://inside.fifa.com/campaigns/football-unites-the-world
https://www.a12.com/redacaoa12/mundo/como-a-fe-e-capaz-de-fazer-parte-da-copa-do-mundo

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