Elcio Loureiro Cornelsen
Universidade Federal de Minas Gerais
Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq
Quando falamos do triunfo da seleção de futebol da Alemanha Ocidental na Copa do Mundo de 1974, logo vem um nome à mente: o craque Franz Beckenbauer (1945-2024), o “Kaiser” Franz, autêntico “imperador” que capitaneou com maestria seus companheiros contra o poderoso “Carrossel Holandês” ou a “Laranja Mecânica” de Johan Cruyff (1947-2016) e ergueu a taça em 07 de julho de 1974, no Estádio Olímpico de Munique. Provavelmente, entre leitores brasileiros, poucos se lembram de outra figura da seleção alemã daquela época, que, por assim dizer, rivalizava com o “Kaiser” em termos de renome e de qualidade técnica: Günter Netzer (1944*).
Como veremos a seguir, Netzer não passou despercebido da imprensa brasileira antes e durante a Copa de 1974. Faltando pouco mais de um mês para seu início, o craque irreverente ganhou a atenção do Jornal dos Sports, que publicou a matéria “Netzer – Arte e talento que só têm uma ambição: Ser livre”, assinada por José Medeiros. O jornalista centra seu foco nesse jogador que se destacava por sua habilidade com a bola nos pés, mas também por uma vida agitada fora de campo. Assim resume o cabeçalho da matéria, escrito em caixa alta:
HABILIDOSO, ELEGANTE E TEMPERAMENTAL. ASSIM É O APOIADOR QUE HELMUT SCHOEN CONSIDERA O CÉREBRO DA MÁQUINA COM QUE PRETENDE CONQUISTAR A COPA. TODA A EUROPA O ADMIRA, MAS ELE NÃO TEM UM SÓ AMIGO (Jornal dos Sports, ed. 13.363, 12 maio 1974, p. 4).
Publicada na edição nº 13.363, de 12 de maio de 1974, no caderno “Segundo Tempo”, que estampa uma fotografia de grandes proporções de Netzer (Figura 1), a matéria indica nos títulos das seções a figura controversa desse jogador: “Em 70, uma briga com Schoen roubou-lhe a chance da glória. Agora, é indispensável”; “O Real [Madrid] gastou milhões com o seu passe. Mas já quer devolvê-lo”; “Para Overath, ele é intratável, mas perfeito com a bola nos pés” (Jornal dos Sports, ed. 13.363, 12 maio 1974, p. 4). Aliás, quem lê essas frases se surpreende com a imagem de Günter Netzer, décadas depois, atuando como comentarista esportivo na TV alemã, um dos melhores de sua geração, ou também como gerente de futebol do Hamburgo (Hamburger Sport-Verein, HSV) no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, período em que o clube conquistou seus principais títulos: campeão da Bundesliga – o Campeonato Alemão – em 1979, 1982 e 1983, e campeão da Copa dos Campeões da UEFA (posteriormente, Champions League) em 1983 (STOLPE, 2013, p. 110).
Figura 1 – Günter Netzer
(Jornal dos Sports, ed. 13.363, 12 maio 1974, p. 4)
Alguns dos adjetivos atribuídos a Netzer na matéria de José Medeiros são “incorrigível”, “intratável” e “explosivo”, que cultiva “seu vedetismo insuportável”, mas que era, naquele momento, “indispensável”, “perfeito” e “imprescindível no time” (Jornal dos Sports, ed. 13.363, 12 maio 1974, p. 4). De refinamento técnico indiscutível, seu espírito irreverente fazia com que o craque fosse amado por uns e odiado por outros. O seguinte trecho da matéria dá bem a dimensão de seu comportamento:
[…] Seu gênio explosivo tem sido, na verdade, o único impecilho (sic) para que ele se torne o maior ídolo do futebol alemão. Beckenbauer é solícito, amado pela torcida. Netzer, ao contrário, encerra seu compromisso com o futebol quando o juiz termina o jogo e ele deixa o campo. Aí transforma-se em um homem comum que não se considera obrigado a dar obediência de sua vida particular a ninguém, nem a dirigentes nem a torcedores. (Jornal dos Sports, ed. 13.363, 12 maio 1974, p. 4)
Essa passagem do texto da matéria marca bem a oposição entre Beckenbauer e Netzer em termos de comportamento, mas não de desempenho técnico. Além disso, suas atividades extracampo rendiam-lhe fama e, ao mesmo tempo, aos olhos de seus críticos, prejudicavam-no na carreira, uma vez que Netzer dedicava boa parte de seu tempo aos negócios, ao lazer e à diversão noturna:
Possui dois cabarés e a eles dedica suas noites livres. Muitas vezes viaja de Madri a Moenchengladbach especialmente para isso. Ninguém o prende, quando sua empresa de seguros ou sua agência de publicidade necessitam de sua assistência. No ano passado, a Alemanha ia jogar com a Argentina, em Munique. Netzer estava contundido e precisava fazer treinamento intensivo para se recuperar, mas ao invés de cumprir as ordens dos médicos mandou-se para uma ilha do Caribe, em companhia de várias funcionárias dos seus cabarés. A imprensa alemã criticou-o duramente, pois culpou a sua ausência pela derrota de 3 a 2. (Jornal dos Sports, ed. 13.363, 12 maio 1974, p. 4)
Não há indicação na matéria sobre a possível fonte ou material de agência estrangeira na qual José Medeiros se baseou para escrevê-la, o que impede a aferição das informações como as dessa passagem do texto. Certo é que, desde 1971, Netzer era proprietário de uma boate, “lovers’ lane”, em Mönchengladbach, como indica o texto da exposição de fotos dedicadas ao jogador no acervo do Museu do Borussia:
A porta é completamente escura, assim como a fachada do número 55 da Rua Waldhausener, e inicialmente está trancada. Não há janelas. Quem quiser entrar precisa tocar a campainha e ser inspecionado pelo porteiro através de um olho mágico.
Você não deve estar bêbado, e certamente não deve usar uma camisa de time ou ter uma aparência desleixada. O ideal é ser um frequentador assíduo, ou alguém atraente, famoso ou interessante. Se conseguir passar pelo porteiro rigoroso, você estará dentro de uma das boates mais empolgantes.
O astuto empresário Netzer, que não recebia exatamente um salário principesco no Borussia, buscava uma fonte de renda. E com sua boate, ele também estava revitalizando o centro histórico de Mönchengladbach. A lovers’ lane tornou-se um sucesso estrondoso.
Claro, o fator decisivo é o próprio Netzer. Afinal, ele é um frequentador assíduo de sua própria boate. Entre os convidados ilustres estão jogadores do Borussia Mönchengladbach, como Rainer Bonhof e Jupp Heynckes, e a atriz Elke Sommer e o cantor pop Udo Jürgens também aparecem de vez em quando. [1](GÜNTER NETZER, 2019)
Entretanto, para além de sua figura polêmica fora das quatro linhas, muito por conta de suas noitadas em sua boate na cidade de Mönchengladbach, mesmo quando já estava atuando pelo Real Madrid, e de circular em alta velocidade com sua “Ferrari Daytona de 12 cilindros”, essa matéria de cunho biográfico contextualiza o nascimento do futuro craque em um momento trágico para o país:
A Segunda Guerra Mundial devastava a Alemanha quando Ghunter (sic) Netzer nasceu, na cidade industrial de Moenchengladbach, na região da Renânia-Westfália. Era o dia 14 de setembro de 1944. Neste dia, sua família mal poderia admitir que estava ali um menino que seria um dos maiores jogadores de futebol do país. Desejava apenas que ele fosse um jovem a mais para ajudar a reconstruir a Alemanha, arrazada (sic). (Jornal dos Sports, ed. 13.363, 12 maio 1974, p. 4)
Destruição e reconstrução seriam, pois, períodos vivenciados por Netzer e vários jogadores de sua geração, enquanto crianças que nasceram nos anos da guerra ou logo no início do pós-guerra, entre eles, Franz Beckenbauer (1945-2024), Wolfgang Overath (1943*), Berti Vogts (1946*) e o goleiro Sepp Maier (1944*). Tratava-se, pois, de uma geração distinta daquelas do técnico Sepp Herberger (1897-1977) e, respectivamente, dos irmãos Ottmar (1924-2013) e Fritz Walter (1920-2002), campeões de 1954, que também conheceram os anos de escombros e de reconstrução da Alemanha Ocidental, mas que haviam atuado na seleção alemã ainda no período nazista e durante os primeiros anos da guerra, sendo que, em 1943, Ottmar ingressou na Marinha, onde foi gravemente ferido na perna, e Fritz juntou-se ao Corpo de Paraquedistas (KASZA, 2004, p. 40). Décadas mais tarde, o próprio Netzer tratou de registrar em sua autobiografia, intitulada Aus der Tiefe des Raumes. Mein Leben (2003; Bem de lá de trás. Minha vida) aquele contexto em que nascera:
Na verdade, não começou bem. Quando eu tinha cinco dias de vida – assim foi o que me contaram mais tarde – as parturientes da maternidade do Hospital Maria Auxiliadora tiveram que descer ao porão porque bombas estavam caindo sobre Mönchengladbach. Era 19 de setembro de 1944, e quando as jovens mães, incluindo minha mãe comigo nos braços, voltaram para o andar de cima, grande parte de Mönchengladbach não passava de um amontoado de pedras, entulho e cinzas. [2](NETZER, 2003, p. 7)
Por sua vez, o jornal O Globo também dedicou atenção à figura polêmica de Günter Netzer na cobertura da seleção alemã ocidental durante a Copa. Uma nota publicada na edição nº. 14.862, de 08 de junho 1974, e tendo por autoria a equipe especial de O Globo, noticiou mais um capítulo envolvendo o craque do Real Madrid e da seleção anfitriã:
Franz Beckenbauer saiu vitorioso da sua discussão com Gunther (sic) Netzer, num programa de televisão. O técnico alemão Helmut Schoen anunciou ontem o time que jogará contra o Chile, na estréia da Alemanha na Copa, e Netzer ficou na reserva. Schoen alegou que Netzer está muito tempo fora da Alemanha (ele joga no Real Madrid) e não se adaptou bem ao ritmo de jogo.
O ex-técnico alemão Sepp Herberger apoiou a decisão de Shoen (sic), afirmando que Netzer não está em boas condições físicas para fazer o trabalho de vaivém, no meio de campo. “Ele poderá ser um bom reserva, se for usado apenas meio tempo”. (O Globo, ed. 14.862, 08 jun. 1974, p. 21)
A referida nota deixa entrever que a seleção da Alemanha Ocidental, às portas de iniciar sua jornada no Mundial, não possuía um clima de harmonia, algo que ficaria ainda mais evidente no transcorrer do torneio, sobretudo após a derrota para a seleção “coirmã” da Alemanha Oriental em 22 de junho de 1974, em Hamburgo. Todavia, na edição nº 14.863, de 09 de junho de 1974, uma nova nota tratou de estender a “novela” sobre Günter Netzer e sua condição de provável reserva na seleção comandada por Helmut Schoen, mesmo tento a fama de craque digno de envergar a camisa 10:
A seleção da Alemanha Ocidental está concentrada em Malente, perto de Hamburgo, e guardada a sete chaves pelo técnico Helmut Schoen. Treinamentos a portas fechadas, para evitar espiões. E não se sabe se é por despistamento ou por esquematização tática que Schoen insiste em negar a escalação de Gunter (sic) Netzer – uma das estrelas do conjunto – como titular.
Na lista da Alemanha Ocidental para a Copa, o tão falado armador do Real Madrid aparece com o 10, número cabalístico em especial para os torcedores brasileiros, sempre dispostos a ver nele um sinônimo de jogador fora-de-série. Mas muitos aqui apostam que no lugar de Netzer entrará mesmo o veterano e temperamental Wolfgang Overath, que na listagem oficial ganhou um modestíssimo número 12. (O Globo, ed. 14.863, 09 jun. 1974, p. 35)
Como podemos constatar, embora integre aspectos futebolísticos no tratamento da notícia sobre Günter Netzer, a nota em questão chega às raias do pitoresco e do banal, digna da “imprensa de bulevar”:
Quem conhece Netzer e sua vocação de prima-dona sabe que ele não está nada satisfeito com essas especulações. Mas sempre responde secamente aos jornalistas, ao bom estilo do futebol brasileiro:
O técnico sabe o que faz. Ele manda, eu obedeço.
A seleção escondida, os alemães se divertem com as enquetes. Um tanto ou quanto de sabor local, valendo pelo pitoresco. Assim ficamos sabendo que Beckenbauer, Netzer e o goleiro Maier, dividem irmãmente as preferências de estrelas de cinema, teatro, tevê, e disco na enquete sobre o jogador mais simpático da República Federal. Votaram estrelas de primeira grandeza, a maioria desconhecidas dos brasileiros, mas outras muito famosas entre nós. Citem-se Elke Sommer, fã de Beckenbauer; Marie Claude, torcedora de Netzer, e Christine Schuberth, que encabeça a votação pró-Maier. Seguem-se dezenas de votantes cuja fama ainda não atravessou o Oceano Atlântico. (O Globo, ed. 14.863, 09 jun. 1974, p. 35)
Fato é que Günter Netzer perdia espaço na seleção, enquanto Beckenbauer afirmava sua posição de liderança no time titular. Isso ficou evidente por ocasião da vitória da Alemanha Ocidental contra a seleção da Iugoslávia, que seguiu repercutindo na edição nº 14.882, de sexta-feira, 28 de junho de 1974, conforme atesta a matéria “Beckenbauer: Novo esquema aprovou e com ele podemos chegar à final”, ilustrada por uma fotografia (Figura 2) acompanhada da legenda “Depois da reunião com o técnico Helmut Schoen, Beckenbauer (E) foi bater bola com o reserva Netzer” (O Globo, ed. 14.882, 28 jun. 1974, p. 22).
Figura 2 – Franz Beckenbauer e Günter Netzer
(O Globo, ed. 14.882, 28 jun. 1974, p. 22)
Por sua vez, a edição nº 14.887 do jornal O Globo, de quarta-feira, 03 de julho de 1974, dá plena cobertura de toda a expectativa para as partidas que seriam realizadas naquela data. A matéria “Polônia precisa derrotar a Alemanha para ser finalista”, da equipe especial de O Globo, direto de Frankfurt, é ilustrada por uma fotografia, contendo a legenda “Uma multidão alegre foi receber a delegação da Alemanha Ocidental na chegada ontem a Hofheim” (O Globo, ed. 14.887, 03 jul. 1974, p. 25). Em termos estruturais, a matéria segue o padrão ao integrar duas seções, cada uma dedicada a uma das seleções no confronto: “Alemães acreditam na vitória”, dedicada à seleção alemã ocidental; “Tomazewski justifica receio”, que versa sobre a seleção da Polônia (O Globo, ed. 14.887, 03 jul. 1974, p. 25). A primeira delas noticiou sobre a chegada da delegação à nova concentração e sobre o treino, seguido de entrevista com o técnico Helmut Schön. Não houve qualquer referência a questões de segurança pelo perigo de possíveis atentados terroristas como ocorrera durante os Jogos Olímpicos de Munique em setembro de 1972, mas houve um “problema” interno que comprometeu o clima de paz entre seus comandados – mais uma vez, Netzer:
Apenas um problema quebrou a tranqüilidade da delegação: a desunião, agora evidente, entre Schoen e Netzer. Já na véspera, o técnico disse lamentar que Netzer não tivesse vez na seleção:
– Sei que ele também não morre de amores por mim nessa situação, o que é perfeitamente compreensível. Mas Overath definitivamente conquistou o lugar, Bonhof está jogando bem, Hoeness igualmente, portanto Netzer não pode querer que eu mude o time só para lhe arranjar uma vaga.
Depois dessa declaração de Schoen, as coisas pioraram. Netzer está praticamente desligado do time e não estará mais no banco durante os próximos jogos da Copa. (O Globo, ed. 14.887, 03 jul. 1974, p. 25)
Na seção Legenden auf dem Rasen (Lendas no gramado), do livro comemorativo dos 50 anos de criação da Bundesliga, não faltou uma página inteira dedicada a Netzer, “o popstar” (der Popstar), ao lado de outros craques do futebol alemão, entre eles, Wolfgang Overath, “o primeiro bailarino” (der Primoballerino), Franz Beckenbauer, “o luminoso” (die Lichtgestalt), Gerd Müller, “o ‘bombardeiro da nação’” (der ‘Bomder der Nation’), e Paul Breitner, “o imprevisível” (der Unberechenbare). O parágrafo inicial em destaque reafirma aspectos da carreira e do temperamento de Günter Netzer, que haviam sido mencionados, quase trinta anos antes, nas matérias e notas do Jornal dos Sports e, respectivamente, do jornal O Globo por ocasião da Copa de 1974:
Ele usava cabelo comprido, dirigia uma Ferrari, também era dono de uma boate – e como jogador de futebol, ele veio “bem de lá de trás”: Com a estética de seu jogo, Günter Netzer tirou o futebol do bairro proletário no início da década de 1970 e o tornou interessante também para o folhetim. [3](STOLPE, 2013, p. 91)
Independente de ter sido preterido por Helmut Schön e, por assim dizer, ter contribuído para que o treinador e seus companheiros de seleção preferissem tê-lo na reserva ou mesmo longe do banco, Günter Netzer permanece como um dos principais nomes do futebol alemão. Se muitos já se esqueceram de que ele integrou aquela seleção campeã mundial de 1974, suas conquistas em clubes no período falam por si: Campeão Alemão em 1970 e 1971, Campeão da Copa da Alemanha em 1973, com seu único clube na Bundesliga, o VFL 1900 Borussia Mönchengladbach, de 1963 a 1973, Campeão Europeu com a seleção da Alemanha Ocidental em 1972, e Campeão do Mundo em 1974. Além disso, foi eleito o Jogador do Ano em 1972 e conquistou dois títulos do Campeonato Espanhol, em 1975 e 1976, e dois títulos da Copa do Rei, em 1974 e 1975, com o Real Madrid, onde atuou de 1973 a 1976 [4](STOLPE, 2013, p. 91).
Desde os anos 1990, Netzer se tornou um dos grandes comentaristas esportivos na imprensa e na TV, como assinala Daniel Stolpe, o antigo “rebelde” com a bola e fora das quatro linhas tornou-se “um expert onipresente com o status de instância moral do futebol alemão” (STOLPE, 2013, p. 91). Recentemente, outros dois livros saudaram-lhe homenagens: Die Biografie über Günter Netzer: Eine Fußball-Legende wird 80 (2024; A Biografia sobre Günter Netzer: Uma lenda do futebol fará 80 anos), de Dana Fuchs, e Günter Netzer: Die Siebzigerjahre (2025; Günter Netzer: Os Anos 70), de Manuel Neukirchner. Enquanto tais obras retratam o antigo craque do ‘Gladbach, do Real e da seleção da Alemanha Ocidental como uma “lenda”, as matérias e notas do Jornal dos Sports e do jornal O Globo no contexto da Copa de 1974 documentam um breve momento específico de sua carreira, quando sua fama de “popstar” já o marcava e era construída pela imprensa, assim como seu desgaste com o treinador Helmut Schön e os companheiros de seleção, não obstante se tratar de alguém que vinha “bem de lá de trás” (aus der Tiefe des Raumes), como sua autobiografia anuncia.
Aliás, cabe aqui uma observação final: Essa expressão em Alemão – aus der Tiefe des Raumes – é de difícil tradução. Literalmente, significa “da profundeza do espaço”. Netzer foi o motivo da criação dessa expressão, que passou a integrar o jargão futebolístico em seu país. Não é por acaso que o próprio craque tenha designado sua autobiografia Aus der Tiefe des Raumes (2003), o mesmo acontecendo com a exposição no Museu do Borussia (2019-2020) em sua homenagem. A impressão que se tem é a de que tal expressão enfeixa diversos aspectos: Por um lado, aquele que veio do ambiente proletário para jogar futebol da mais alta qualidade técnica, mas também aquele que, enquanto figura mítica, viria da “profundeza do espaço” do campo para realizar suas proezas com a bola nos pés. Um dicionário alemão de futebol assim define o verbete Aus der Tiefe: “das profundezas: não do chão, mas (em uso metafórico): do próprio meio-campo (imaginado como um espaço com extensão vertical) em direção ao gol do adversário”. [5](BURKHARDT, 2006, p. 302) E foi justamente um lance que deu origem a tal expressão nas quartas de final da Copa Europa de Seleções de 1972, em pleno Estádio Wembley, contra a seleção da Inglaterra, quando o chefe da redação do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), Karl Heinz Bohrer (1932-2021), supostamente teria enunciado a seguinte frase: “Netzer veio das profundezas do espaço” (Netzer kam aus der Tiefe des Raumes), veio “bem de lá de trás”, avançou e sofreu o pênalti, cobrado por ele mesmo, assinalando o 2º gol da seleção na vitória de 3×1. Em um breve artigo sobre essa expressão, intitulado Der Mythos von Wembley: Kam Netzer aus der Tiefe des Raumes? (2012; O mito de Wembley: Netzer veio das profundezas do espaço?), o jornalista Peter Unfried ressalta que ela surgiu por conta de uma matéria publicada por Karl Heinz Bohrer no FAZ em 27 de outubro de 1973, quando já havia se passado mais de um ano daquela partida em Londres, realizada em 29 de abril de 1972. Mas o que surpreende é que a frase da qual a expressão foi extraída é a seguinte: “Netzer, que de repente avançou, vindo das profundezas do espaço, foi emocionante” (Der aus der Tiefe des Raumes plötzlich vorstoßende Netzer hatte ,thrill‘) (UNFRIED, 2012). Fato é que, como observa Peter Unfried, um campo de futebol não possui “profundeza” ou “profundidade”, mas largura e comprimento. Por isso, “espaço” (Raum) passou a ser pensado também como o espaço do próprio campo de jogo, no caso, da metade do campo daquela equipe que ataca em direção ao gol adversário.
Feita esta digressão final acerca da expressão que marcou para sempre a carreira de Günter Netzer, é importante, mais uma vez, frisar o significado das matérias e notas do Jornal dos Sports e do jornal O Globo em torno dessa figura irreverente do futebol alemão, pois noticiam a “quebra de braço” entre ele, seu técnico e seus companheiros durante a Copa de 1974. Na final, Netzer sequer ficou no banco de reservas, assistiu à partida das tribunas do Estádio Olímpico. Não houve espaço para o “Rei de Bökelberg” (König vom Bökelberg)[6] onde imperava o “Kaiser”. Mais tarde, Netzer declararia não se sentir campeão do mundo com aquela seleção (MEINHARDT, 2024).
Referências bibliográficas
BURKHARDT, Armin. Aus der Tiefe (verbete). In: BURKHARDT, Armin. Wörterbuch der FuBballsprache. Göttingen: Die Werkstatt, 2006, p. 302.
GÜNTER NETZER. Aus der Tiefe des Raumes. Sonderausstellung zum 75. Geburtstag der Vereinslegende Günter Netzer. Vereinsmuseum von Borussia VFL 1900 Möhnchengladbach. de 05. set. 2019 a 15 mar. 2020. Disponível em: https://artsandculture.google.com/story/g%C3%BCnter-netzer-aus-der-tiefe-des-raumes/SQUB6qLyy34fEg?hl=de. Acesso em: 19 nov. 2025.
Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, ed. 13.363, p. 4, 12 maio 1974.
KASZA, Peter. Das Wunder von Bern 1954. Fußball spielt Geschichte. Berlin: be.bra Verlag, 2004.
MEINHARDT, Gunnar. „Ich lehne es ab, als Weltmeister bezeichnet zu werden“. Welt. 21 jun. 2024. Disponível em: https://www.welt.de/iconist/plus252100498/Guenter-Netzer-und-Gerd-Kische-zum-50-Jahrestag-des-WM-Spiels-BRD-gegen-DDR.html. Acesso em: 19 nov. 2025.
NETZER, Günter. Aus der Tiefe des Raumes. Mein Leben. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt, 2003.
O Globo. Rio de Janeiro, ed. 14.862, p. 21, 08 jun. 1974.
O Globo. Rio de Janeiro, ed. 14.863, p. 35, 09 jun. 1974.
O Globo. Rio de Janeiro, ed. 14.882, p. 22, 28 jun. 1974.
O Globo. Rio de Janeiro, ed. 14.887, p. 25, 03 jul. 1974.
STOLPE, Daniel. 50 Jahre Bundesliga: Die Geschichte – Die Legenden – Die Bilder. Stuttgart: Verlag pietsch, 2013.
UNFRIED, Peter. Der Mythos von Wembley: Kam Netzer aus der Tiefe des Raumes? taz. Berlin, 20 abr. 2012. Disponível em: https://taz.de/Der-Mythos-von-Wembley/!5095764/. Acesso em: 19 nov. 2025.
Notas
[1] Todas as traduções do Alemão para o Português são de minha autoria. No original:
Pechschwarz ist die Tür, so wie die Fassade an der Waldhausener Straße 55, und zunächst
einam verschlossen. Fenser gibt es keine. Und wer rein will, muss klingeln und sich durch einen
Sehschlitz vom Türsteher begutachten lassen.
Angetrunken sollte man nicht sein ein Trikot tragen oder ungepflegt aussehen schon gar nicht.
Idealerweise ist man Stammgast, sonst irgedwie schön, prominent oder interessant. Wenn man
am strengen Türsteher vorbeikommt, ist man drin in einer der aufregendsten Diskotheken.
Der geschäftstüchtige und bei Borussia eben nicht fürstlich entlohnte Netzer ist auf der Suche
nach einer Einnahmequelle. Und mit seiner Diskothek haucht er ganz nebenbei der
Möhchengladbachener Altstadt Leben ein. Das lovers’ lane wird zum vollen Erfolg.
Natürlich ist der entscheidende Faktor Netzer selbst. Denn er ist Stammgast in seinem eigenen
Laden. Zu den prominenten Gästen gehören VFL-Profis wie Rainer Bonhof oder Jupp
Heynckes, und auch Schauspielerin Elke Sommer oder Schlagersänger Udo Jürgens schauen ab
und an vorbei.
[2] No original:
Eigentlich fing es nicht gut an. Als ich fünf Tage alt war – so wurde später erzählt –, mussten
die Wöcherinnen des Maria-Hilf-Krankenhauses in den Keller, weil oben über
Mönchengladbach die Bomben fielen. Es war der 19. September 1944, und als die jungen
Mütter, darunter meine Mutter mit mir im Arm, wieder hochkamen, war Mönchengladbach zu
großen Teilen nur noch ein Haufen Steine, Schutt und Asche.
[3] No original:
Er trug die Haare lang, er fuhr Ferrari, er betrieb nebenher eine Diskothek – und er kam als
Fußballer „aus der Tiefe des Raumes“: Mit der Ästhetik seines Spiels hat Günter Netzer den
Fußball zu Beginn der 70er-Jahre aus der Proletenecke hervorgeholt und auch für das
Feuilleton interessant gemacht.
[4] No original:
[…] omnipräsenter Experte den Status als moralische Instanz des deutschen Fußballs.
[5] No original:
aus de Tiefe: nicht: aus dem Erdboden, sondern (in metaphorischer Verwendung): aus dem (als
Raum mit vertikaler Ausdehnung) vorgestellten eigenen -> Halbfeld in Richtung gegnerisches
Tor.
[6] Assim era chamado Netzer pelos torcedores do Borussia e pela imprensa nos anos 1960 e
início dos anos 1970: “König vom Bökelberg”, em referência ao nome do Bökelbergstadion, em
Mönchengladbach.


