Durante as transmissões da final da Copa do Mundo masculina pela Globo e pela CazéTV, não foram poucas as menções à Copa do Mundo Feminina de 2027, a primeira no Brasil e na América do Sul. Como acontece com todos os grandes eventos realizados no Brasil, teremos uma cobertura massiva da imprensa no próximo ano. E isso é uma ótima notícia.
Como alguém que, há pouco mais de um ano, tem o privilégio de se dedicar exclusivamente ao futebol feminino, me permito compartilhar algumas observações para quem pretende se aproximar da modalidade neste ciclo de Copa do Mundo.
Primeiro, é importante contextualizar o momento da modalidade. O futebol feminino cresce em todo o mundo, com aumento de público, investimentos, profissionalização e expansão das competições. No Brasil, tivemos avanços significativos nos últimos anos, e hoje contamos com três divisões nacionais, um calendário relativamente estável, competições de base e um número cada vez maior de clubes estruturando seus departamentos femininos. Ainda há desafios importantes, sobretudo quando observamos as desigualdades entre estados e regiões e as diferentes realidades de investimento e infraestrutura. Mas é impossível falar do futebol feminino brasileiro em 2027 como se estivéssemos tratando de um projeto embrionário e ele deve ser compreendido dentro da sua complexidade.
O futebol feminino é futebol profissional. Não é uma equipe B do masculino, não é categoria de base e não deve ser tratado como um apêndice do futebol praticado pelos homens. As atletas são profissionais e precisam ser tratadas como tal. O tempo do estereótipo das “guerreiras” como principal narrativa já passou, embora seja fundamental reconhecer as desigualdades estruturais e as dificuldades que ainda existem.
Na hora de analisar uma atleta, evite compará-la com jogadores do futebol masculino. Não é justo e tampouco contribui para o debate, uma vez que cada modalidade possui suas próprias características técnicas, físicas e táticas, e o futebol feminino merece ser analisado a partir dos seus próprios parâmetros. Sim, é revolucionário ver mulheres jogando futebol profissionalmente e treinadoras comandando equipes. Mas isso não precisa ser sempre o único assunto. Há muito mais para se falar sobre elas: desempenho, estratégia, liderança, formação, gestão e resultados esportivos. Acima de tudo, respeitem as atletas e todos os profissionais que trabalham no futebol feminino.
Cobertura da imprensa
Recentemente, o jornalista David Menayo, do jornal espanhol Marca, me perguntou como eu descreveria a cobertura da mídia sobre o futebol feminino no Brasil e se sediar uma Copa do Mundo aumentaria ou melhoraria essa cobertura. Respondi que a pergunta era maravilhosa justamente porque me permitia destacar o trabalho das mídias independentes, que há muitos anos cobrem a modalidade e ajudaram a construir uma comunidade apaixonada pelo futebol feminino no país.
Também destaquei que houveram avanços importantes na cobertura da modalidade. A Band, lá atrás, foi uma das emissoras que apostou no futebol feminino. Hoje, vemos um número maior de jornalistas em entrevistas coletivas e grandes grupos de comunicação investindo no acompanhamento das competições. O Grupo Globo possui direitos de transmissão de torneios de clubes e da Seleção Brasileira Feminina, enquanto a CazéTV vem ampliando sua presença no segmento, além da ESPN e da TNT. Goat, NSports, XSports, Lance! e outras plataformas também desempenham um papel importante na difusão da modalidade e hoje é possível assistir ligas de fora do país, como a holandesa, norte-americana, espanhola e inglesa, para citar algumas. Há, portanto, um ecossistema cada vez mais robusto de cobertura e transmissão.
Mas, é preciso ser justo, quem está na cobertura há muito tempo é a imprensa independente e a imprensa setorizada, aquela que acompanha clubes específicos e cobre o dia a dia do futebol feminino. São profissionais obstinados que, muitas vezes, conciliam outras atividades profissionais para sustentar um trabalho feito por paixão e compromisso com a modalidade. Eles são fonte de informação, memória e contexto, e também precisam de retorno financeiro. Fica aqui, inclusive, uma dica para as marcas que desejam investir no futebol feminino: olhem para quem construiu essa cobertura quando ela ainda não despertava tanto interesse comercial.
Há comunicadores espalhados por todo o país fazendo um trabalho admirável, de Goiânia à Bahia, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, do Ceará ao Rio de Janeiro. Reconheçam, sigam, compartilhem e apoiem esses jornalistas e criadores de conteúdo. Ainda assim, sinto falta de mais profissionais acompanhando o cotidiano do futebol feminino. Precisamos de mais informações sobre lesões, mercado da bola, aspectos táticos, bastidores e reportagens especiais. Foi justamente essa busca por uma cobertura mais aprofundada que me levou, quando cheguei ao Lance!, em abril de 2025, a recorrer ao próprio Marca como referência. Há excelentes profissionais no Brasil e temos total capacidade de elevar ainda mais o nível dessa cobertura.
A Copa do Mundo de 2027 certamente ampliará a visibilidade do futebol feminino no Brasil, mas ela também nos apresenta uma oportunidade de amadurecer o jornalismo esportivo dedicado à modalidade. Sei que muita gente deseja a oportunidade de cobrir uma Copa do Mundo, e isso é natural e absolutamente legítimo. Grandes eventos costumam despertar novas paixões e abrir portas para novos profissionais. Que todos sejam bem-vindos. Que ela seja também um marco para uma cobertura mais qualificada, diversa e comprometida com a modalidade durante os outros três anos que existem entre uma Copa e outra.
