Durante diferentes momentos e sobre distintas temáticas, somos levados a nos perguntar como eram nossas vidas antes das redes sociais — ao menos como as conhecemos hoje. Muitas das experiências cotidianas que atualmente são amplamente compartilhadas permaneciam, até pouco tempo atrás, restritas ao anonimato ou a círculos muito próximos. Se alguém passava meses viajando, apenas familiares e amigos sabiam ao certo o que estava acontecendo. Do mesmo modo, a prática de exercícios físicos raramente ultrapassava o espaço privado: treinar em uma academia, por exemplo, tornava-se visível apenas em conversas presenciais ou, com o tempo, nas transformações do próprio corpo.
Essa lógica também atravessava a corrida. Recordo que, quando mais novo, no início dos anos 2000, vivendo em uma cidade da região metropolitana de Alagoas, algumas pessoas da minha família já praticavam a modalidade. Ainda assim, observar alguém sair para correr, ou encarar a corrida de rua como uma forma de lazer, era algo que ora causava estranhamento, ora passava despercebido — mas dificilmente era levado muito a sério.
Com o passar do tempo, esse cenário se transforma. O esporte possui um grande poder de penetração social e simbólica (Bourdieu, 2014) e, em algum momento, não seria surpreendente que a corrida se difundisse como uma das práticas corporais mais populares do mundo. O que chama atenção, entretanto, não é apenas o crescimento do número de praticantes, mas o novo lugar que a corrida passa a ocupar na vida social. Ela deixa de ser apenas um exercício físico e passa a compor estilos de vida, discursos e identidades.
Esse deslocamento pode ser observado na própria história das grandes maratonas. A Maratona de Nova York, realizada desde 1970 pelo New York Road Runners, começou de forma modesta: na primeira edição, apenas 127 corredores largaram e cerca de 55 concluíram a prova (Webrun, 2006). Ao longo das décadas, o evento se consolidou como um dos mais emblemáticos do mundo, reunindo, regularmente, mais de 50 mil participantes por edição.
Em 2025, a prova bateu o recorde mundial de finalizantes, com mais de 59 mil corredores completando os 42,195 km (TCS New York City Marathon, 2026). O interesse global pela maratona é tão elevado que a maior parte das vagas é disputada por meio de sorteio: naquele mesmo ano, mais de 200 mil pessoas se inscreveram na loteria de vagas, das quais apenas uma pequena parcela foi selecionada. Esses dados evidenciam que a corrida, especialmente em seu formato de grandes eventos, ultrapassou o campo da prática corporal e se tornou um fenômeno social de larga escala.
Figura 1: Maratona de Nova York
Imagem: TCS New York City Marathon
O que explica esse desejo coletivo por uma experiência fisicamente exigente, financeiramente custosa e altamente concorrida? A resposta parece estar menos na corrida em si e mais no que ela passou a representar. Participar de determinados eventos, sustentar certas rotinas e ocupar esse espaço simbólico passa a funcionar como um marcador de pertencimento. Em diálogo com Pierre Bourdieu (2014) é possível compreender a corrida como um campo no qual se acumulam e se disputam formas específicas de capital — sobretudo o capital simbólico. Correr, nesse contexto, não diz respeito apenas ao ato de correr, mas ao significado social atribuído a esse ato.
Esse processo se intensifica com a expansão das mídias digitais. Hoje, a corrida ocupa de maneira constante os espaços virtuais. No TikTok, no Instagram, nos aplicativos e nas telas de relógios inteligentes, correr é registrado, monitorado e compartilhado. Dispositivos como Garmin, Polar ou Apple Watch deixaram de ser apenas ferramentas de controle fisiológico e passaram a compor a estética e a narrativa do corredor. As roupas de corrida, antes estritamente funcionais, também se transformaram em elementos de estilo. Correr já não acontece apenas na rua, mas também na imagem, no dado e no feed.
Antes de plataformas como o Strava, correr era, em grande medida, uma prática observada de fora. Para muitos, a figura simbólica do corredor se aproximava de personagens como Forrest Gump. No filme, ao ser questionado por jornalistas sobre o motivo de correr, Forrest responde de forma simples e desarmada: ele corre porque tem vontade. Não há metas, métricas ou explicações elaboradas — apenas o desejo de correr. Essa resposta, quase ingênua, ajuda a lembrar que a corrida nem sempre precisou de justificativas extraordinárias para existir.
Figura 2: Cena do filme Forrest Gump
Imagem: Forrest Gump: O Contador de Histórias
Nos anos 2000, um novo boom da corrida se consolida. Ainda fortemente associada à saúde, a prática passa a ser organizada em objetivos progressivos: 5 km, 10 km, meia maratona ou maratona. Planilhas de treino, monitores de frequência cardíaca e metas semanais passam a estruturar a experiência. Paralelamente, eventos como o circuito World Marathon Majors transformam-se em referências globais, ampliando o imaginário em torno da corrida e fortalecendo seu valor simbólico.
Esse movimento também se reflete no mercado esportivo. Grandes marcas passaram a investir de forma consistente no segmento de corrida, sobretudo no público amador. Relatórios da indústria indicam que o mercado global de running segue em crescimento, com destaque para o setor de calçados, que se tornou um dos principais motores econômicos das empresas esportivas. A corrida, portanto, passa a articular corpo, consumo, experiência e identidade.
Durante a pandemia de COVID-19, esse processo se intensifica. Diante da necessidade de movimento e das restrições à socialização, correr se apresenta como uma das práticas mais acessíveis para manter o corpo ativo. Estudos passam a associar a corrida à redução de sintomas de ansiedade e depressão, reforçando seu papel no cuidado com a saúde mental. Ao mesmo tempo, as redes sociais amplificam esse movimento, contribuindo para a consolidação de uma estética da vida fitness e da corrida. Até mesmo grupos tradicionalmente ligados à musculação passam a incorporar a prática, difundindo a ideia do “atleta híbrido”.
Diferentemente de outras modalidades, a corrida encontra no Strava um espaço virtual próprio. O aplicativo funciona simultaneamente como diário, ferramenta de monitoramento e rede social. A partir dele, surgem clubes de corrida que operam como novos espaços de sociabilidade, conectando pessoas por meio do movimento, da rotina e da experiência compartilhada.
Figura 3: Strava como um ambiente compartilhado de corredores
Imagem: Strava
Diante desse cenário, talvez valha retomar a simplicidade da resposta de Forrest Gump. Em meio a métricas, rankings, eventos globais e narrativas de performance, lembrar que correr também pode ser apenas vontade — prazer, encontro consigo e com o outro — ajuda a preservar sentidos fundamentais da prática. A corrida cresce, se transforma e se complexifica, mas continua sendo, antes de tudo, um gesto humano simples: colocar um pé à frente do outro e seguir em movimento.
Referências
BOURDIEU, Pierre. A Distinção: Crítica Social do Julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2014.
Webrun. Conheça a história Maratona de Nova York. Webrun, 28 fev. 2006. Disponível em: https://webrun.com.br/conheca-a-historia-maratona-de-nova-york/. Acesso em: 23 jan. 2026.
New York Road Runners. TCS New York City Marathon. NYRR. Disponível em: https://www.nyrr.org/tcsnycmarathon. Acesso em: 23 jan. 2026.



