Deus, Pátria e Futebol: a misoginia nos púlpitos dos gramados

Soraya Barreto Januário

Universidade Federal de Pernambuco – PPGCOM/UFPE

Carolina Cavalcanti Falcão 

Universidade Federal Rural de Pernambuco – PPGCOM/UFPE

Nos meses que antecedem uma Copa do Mundo, algo se intensifica nas timelines de milhões de brasileiros. Temos notado mais evidentemente como a dinâmica dos influenciadores digitais vai se hibridizando com certas estratégias e narrativas comuns no universo futebolístico. Assim, um fenômeno já reconhecido no campo, a junção entre futebol e fé, tem se acentuado. Jogadores de futebol ajoelhados, mãos elevadas ao céu, olhos fechados, a camisa da seleção em meio a versículos bíblicos legendados nos stories do Instagram. O futebol, desde sempre entrelaçado à identidade nacional,  como nos demonstra o clássico livro “Futebol ao sol e à sombra” de Eduardo Galeano (2004), torna-se, às vésperas da Copa, um dos palcos mais potentes da articulação entre fé cristã, patriotismo e valores conservadores.

O que se observa não é um mero testemunho religioso, mas um fenômeno político-cultural, no qual jogadores com milhões de seguidores como Neymar, Lucas Paquetá, Gabriel Jesus, entre outros,  utilizam suas plataformas digitais para veicular discursos que associam o sucesso esportivo à bênção divina. Craque e ungidos, reverberando a ideia teológica de predestinação. É no mínimo curioso notar que, na dinâmica de visibilidade desses jogadores, há pouco espaço para questões também muito caras ao Evangelho, como o cuidado com os pobres, com o estrangeiro, com os mais fracos.  A pergunta que se coloca é: que religião é essa que marcha ao lado da bola?

Esse mês, em pleno Estádio Metropolitano, do Atlético de Madri, na Espanha, um homem de 42 anos, ex-lateral da Seleção Brasileira, com voz firme e olhos marejados, prega para um estádio cheio de fiéis. “Fiz um pacto com Deus”, diz ele. “No meio da tempestade, sempre há um mensageiro. Esse mensageiro me mostrou o caminho.” “Cristo me libertou”. Lemos perplexas essas notícias, que exaltavam a presença de Daniel Alves, durante o “The Change”, evento cristão transnacional que contou com um público estimado em 40 mil pessoas, segundo a organização. A imagem correu o mundo e, com ela, um incômodo se instalou. Afinal, como um homem inicialmente condenado por estupro, cuja condenação foi anulada em audiência posterior (apesar das provas contundentes de violência), se torna pregador? 

Condenado em fevereiro de 2024 a 4 anos e 6 meses de prisão por agressão sexual, tipificação que, no direito espanhol, corresponde ao estupro brasileiro, Alves cumpriu 14 meses de pena. Uma fiança de 1 milhão de euros (aproximadamente R$ 6 milhões), paga pelo pai do jogador Neymar, garantiu sua liberdade condicional. Numa reviravolta infelizmente pouco surpreendente, ele teve sua condenação anulada pelo Tribunal Superior da Catalunha, em março de 2025. A decisão, que causou indignação em organizações feministas de ambos os lados do Atlântico, alegou “inconsistências e contradições” no depoimento da vítima. Argumento que, como denunciou a advogada Marina Ganzarolli (Schwambach, 2026), representa um retrocesso no tratamento jurídico dos crimes sexuais.

Mas naquele momento de pregação de Alves, o Estádio Metropolitano deixa de ser o templo do futebol para dar lugar a um outro fenômeno, o do homem que conta sua história de revelação (o pacto com Deus) apagando as violências que cometeu no caminho. Não se trata, vale ressaltar, da narrativa exemplar do arrependimento que subjaz a uma ideia de conversão, mas do homem injustiçado, que apaga a história da vítima. O crime vira provação divina superada e o agressor se inscreve como herói de fé. Cada peça dessa engrenagem de impunidade e descredibilização da vítima produz violência simbólica contra as mulheres que denunciam abusos sexuais. Além disso, é também uma violência religiosa perceber como uma das lições mais valiosas do cristianismo, a premissa de que todos nós encontramos em Cristo o verdadeiro amor, habilita performances masculinas que exaltam superioridade e excepcionalidade. Ver Daniel Alves pregando num estádio com milhares de pessoas nos revela como esse mecanismo social violenta insistentemente as mesmas vítimas, em nome de um tipo de fé que parece não reconhecer a humanidade das mulheres (Candiotto, 2021). Rita Segato (2005) observa que o estupro não é um ato sexual, é um ato de poder, dominação e comunicação. Quando o agressor é reabilitado de maneira tão contundente por uma comunidade religiosa global como a que o The Change representa, a mensagem que fica é a de que o sofrimento da vítima importa menos que o arrependimento performático do agressor. 

  A Copa do Mundo tem um poder catalisador. Durante o torneio, o patriotismo/nacionalismo, já intrínseco ao futebol, se hibridiza a diversas formas de conservadorismo, o religioso é só um deles. É preciso estarmos atentas à correlação dessas forças e colocarmos no seu devido lugar as violências e o que se deve fazer para combatê-las. Isso não se refere “apenas” às questões de violência contra as mulheres. Não devemos nos esquecer de que ainda são raros os posicionamentos públicos contra as diversas violências que se dão no futebol, como o racismo ou a homofobia, por exemplo. Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2026) indicam que em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, o maior número da série histórica desde a sanção da Lei do Feminicídio (FBSP, 2026), o que significa que uma mulher foi assassinada a cada 5 horas por razão de gênero. Na perspectiva de raça, as mulheres pretas representam 63,6% das vítimas, confirmando a interseção entre racismo e misoginia como vetor estrutural da violência. No mesmo ano, foram contabilizados 83 mil estupros (um a cada seis minutos), dos quais 57 mil foram estupros de vulnerável, alta de 10,6% em relação a 2024, com sete em cada dez vítimas sendo crianças menores de 14 anos. Ainda segundo o FBSP, 49% das mulheres brasileiras maiores de 16 anos sofreram assédio em 2025. Nesse cenário, reforçamos o quanto o futebol e a religião precisam ser chamados a agir em defesa das mulheres.

É preciso deixar claro que o problema nunca será a fé de nenhuma pessoa ou jogador. O problema é como estruturas religiosas e seculares são mobilizadas para reproduzir e perpetuar violência e silenciamento. Nesse sentido, religião e futebol ressoam questões muito similares sobre a maneira desigual com que homens e mulheres agem e são avaliados, sobre o protagonismo que ocupam, o trabalho que desenvolvem e o reconhecimento que lhes é devido. Nas Igrejas, as mulheres são maioria nos trabalhos voluntários, na obra cotidiana da fé, mas são os homens que ocupam a  maior parte dos púlpitos e das posições de liderança. No futebol, a cena também se repete. Os contratos milionários, a visibilidade e o prestígio estão destinados aos homens, enquanto que ao futebol de mulheres ainda cabe a pecha de amador, iniciante ou de pouca qualidade, mesmo quando temos nomes incontornáveis como Marta, única atleta do esporte a deter seis bolas de ouro. 

Quando entramos no âmbito das violências sexuais contra mulheres, o quadro também se repete. Afinal, não podemos nos esquecer da recente comoção que a pregação da pastora Helena Raquel, da Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADVP), causou na Internet algumas semanas atrás. Numa fala até então inédita para um espaço tão amplo, ela conclamou as mulheres a pararem de orar por seus maridos violentos e a denunciá-los. O pedido enfrenta uma realidade cuidadosamente estruturada (e protegida) no silenciamento de violências contra mulheres em ambientes religiosos. Mesmo vinculada a uma denominação reconhecidamente alinhada aos enclaves mais conservadores do campo evangélico, a fala de Helena Raquel se junta a uma demanda que muitas mulheres de fé já vêm construindo no debate público. Uma demanda multi-denominacional do cristianismo reformado e católico, e mesmo fora dele, reivindica que é possível, sim, ser cristã e lutar pelo direito das mulheres (Falcão, 2022).  

No gramado dos estudos acadêmicos, trabalhos substanciais vêm demonstrando como a história das mulheres no esporte precisa e está sendo  recontada. A presença das mulheres no futebol, bem como o futebol de mulheres em si, foi historicamente marcado por episódios de proibições, concessões, subversões, lutas e conquistas, ainda que as mulheres tenham estado presentes em inúmeras etapas da gênese e da sedimentação da modalidade no Brasil e no mundo (Bomfim, 2019; Goellner, 2003). Pesquisadoras como Silvana Goellner (2003; 2021) vêm há anos dedicando-se à invisibilidade do futebol de mulheres; em seus trabalhos mais recentes, Goellner publicou com Juliana Cabral (2022) uma pesquisa sobre as pioneiras da seleção brasileira, um potente resgate histórico das mulheres que foram apagadas da história do futebol nacional. Aira Bonfim (2019) também apresenta um resgate histórico do futebol de mulheres desde os anos 1920. Além disso, no âmbito do Obmídia/UFPE e do Fegeccap, temos desenvolvido pesquisas com observação da cobertura midiática das Copas do Mundo (Barreto Januário, 2023; 2026).

Compreender o contexto do futebol de mulheres no Brasil carrega um legado pautado em relações de poder de ordem política, paternalista e patriarcal. Com efeito, a sociedade brasileira segue demarcada por relações sociais hierarquizadas e por privilégios que corroboram com as questões interseccionais (Crenshaw, 2017; Auad; Corsino, 2018) que envolvem gênero, classe e raça enquanto fatores de afastamento e silenciamento de grupos sociais. Todo o histórico de proibições acerca do futebol de mulheres reverberam até hoje na (in) visibilidade do FM no Brasil e no mundo.

A chegada da Copa do Mundo não deveria ser apenas uma celebração do esporte ou do orgulho de carregarmos cinco estrelas no brasão da nossa seleção, mas uma oportunidade para conversar mais honestamente sobre como o futebol canaliza expressões muito próprias da nossa sociabilidade. Essa expressão é tão constitutiva de quem nós somos, que ressoa também em outros campos da nossa subjetividade e o campo religioso é um exemplo disso. Que possamos então estarmos atentas aos gramados e aos púlpitos, para celebrar o talento e reconhecer a fé junto (e não em detrimento) dos valores que celebramos ao lado da bola.

Referências:

BARRETO JANUÁRIO, Soraya Maria Bernardino. A mídia esportiva e as Copas do Mundo do Futebol de Mulheres: da invisibilidade à visibilidade. ILUMINURAS, v. 26, n. 72/2, p. 36-72, 2026.

BARRETO  JANUÁRIO, Soraya Maria Bernardino Barreto. Copa do Mundo e Futebol das Mulheres: a cobertura midiática nas edições de 2015 e 2019, numa perspectiva de gênero. Revista Mosaico, v. 14, n. 1, p. 02-13, 2023.

CANDIOTTO, Jaci de Fátima Souza. A despatriarcalização de Deus na teologia feminista. Revista Estudos Feministas, v. 29, p. e73607, 2021.

Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Retrato dos feminicídios no Brasil: nota técnica – Dia Internacional da Mulher 2026]. São Paulo: FBSP; 2026 [citado 2026 maio 18]. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf  Acesso 12 mai. 2026

FALCÃO, Carolina . Nem todo evangélico, nem todo cristão: entendendo o protagonismo religioso no Brasil. 1. ed. São Paulo: Editora Annablume, 2022. 

Galeano, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Porto Alegre: Editora L&PM, 2004

GEBARA, Ivone.Rompendo o silêncio:uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis: Vozes, 2000.

GOELLNER, Silvana Vilodre. Bela, maternal e feminina: imagens da mulher na Revista Educação Physica. Ijuí: Editora UNIJUÍ, 2003.


GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: descontinuidades, resistências e resiliências. Movimento, v. 27, 2021.

GOELLNER, Silvana Vilodre; CABRAL, Juliana Ribeiro. As pioneiras do futebol pedem passagem: conhecer para reconhecer. 2022.

SEGATO, Rita Laura. Território, soberania e crimes de segundo Estado: a escritura nos corpos das mulheres de Ciudad Juarez. Revista Estudos Feministas, v. 13, n. 02, p. 265-285, 2005.

Schwambach, Cris. Daniel Alves participa de evento religioso para 35 mil pessoas na Espanha. CNN Brasil, 4 de maio de 2026. Disponível em:

https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/futebol-internacional/daniel-alves-participa-de-evento-religioso-para-35-mil-pessoas-na-espanha/. Acesso 12 maio 2026

Minibio:

Soraya: Pós-doutorado na McGill University, Institute of Gender,Sexuality and Feminisms (IGSF), Montreal, Canadá. Doutora em Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, Portugal. Publicitária e professora do Departamento de Comunicação da UFPE. Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFPE). Pesquisadora em temáticas ligadas aos Estudos de Gênero, Feminismos, Esportes e Mídia. Coordenadora dos GPs CNPq Obmidia/UFPE: Observatório de Mídia: gênero, democracia e direitos humanos da UFPE e do Fegeccap – Núcleo de Estudos Críticos de Feminismos, Gênero, Consumo e Capitalismo.Pesquisadora da Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte (ReNEme). Presidenta da Rede de Mulheres Pesquisadoras de Futebol (CNPq). Bolsista Produtividade CNPq – C.

Carolina: Professora Adjunta da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), atuando no Departamento de Ciências do Consumo e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da UFPE. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, Brasil), instituição onde desenvolveu pesquisa de pós-doutorado em Direitos Humanos, com conclusão da pesquisa na Universidade de Seattle , financiada pelo SUSI Fellowship do Departamento de Estado Americano. Vice-líder do GP Fegeccap/UFPE Autora do livro “Nem todo evangélico, nem todo cristão: entendendo o protagonismo religioso no Brasil”, Ed. Annablume, 2022.

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