Uma operação policial realizada na terça-feira (28) no Rio de Janeiro provocou a morte de pelo menos 121 pessoas moradoras dos complexos do Alemão e da Penha. População negra, pobre e periférica que foi assassinada a tiros por policiais militares fortemente armados com fuzis e que, segundo relato dos moradores das referidas comunidades, cometeram uma série de execuções durante a ação.
Para piorar o cenário de terror provocado pelos tiros e pela ação criminosa dos policiais, a tal operação contou com o apoio do Ministério Público do Rio de Janeiro, que referendou a violência desmedida sob o argumento de “combate ao crime organizado”.
Rapidamente, o governador fluminense Cláudio Castro comemorou o desfecho da operação e a classificou como um “sucesso”, argumentando sem provas e sem evidências que todos os mortos eram “criminosos” (1). Uma postura injustificável. Até porque, o eventual cometimento de crimes não pode jamais ser justificativa para assassinatos praticados por um estado em que a pena de morte não é legalizada. Principalmente quando essas ações ocorrem sem o legítimo processo legal e sem o direito à ampla defesa.
Para refutar essa análise do governador, eu me apego à arte, sempre transgressora. Eu me apego a uma das tirinhas da sempre cirúrgica e assertiva Mafalda, a personagem do intrépido cartunista argentino Quino que dizia que, ao matar todos os bandidos, não sobrariam os bons, mas apenas os assassinos. Ademais, é comprovadamente óbvio que em meio a tantos tiros disparados indistintamente em áreas urbanas densamente populosas, muitas pessoas inocentes seriam mortas, também virariam estatísticas funestas, números que vão se somando a partir de operações sempre muito articuladas e que têm um alvo específico e recorrente.
As estatísticas estão aí para provar. Segundo o Atlas da Violência 2025, que é produzido anualmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) do Governo Federal, uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra.
De todos os assassinatos registrados no país em 2023, ano de referência do estudo mais recente já publicado, 35.213 vítimas eram negras e 9.908 eram não negras (brancas, amarelas ou indígenas, segundo a classificação étnica utilizada pelo Ipea). Isso indica que 78% dos homicídios registrados no país naquele ano tiveram como alvo pessoas negras (2).
Dito tudo isso, eu queria registrar que desde 2017, entre o decurso do mestrado e do doutorado, já se vão vários anos de pesquisas intensas realizadas por mim ao lado de torcedores organizados, e no caso das torcidas organizadas de minha cidade, João Pessoa, as principais delas são formadas majoritariamente por pessoas negras, pobres e periféricas. Igualmente criminalizadas, igualmente vítimas de violência policial, igualmente transformadas em alvos preferenciais da Polícia Militar e do Ministério Público da Paraíba.
É claro que as microviolências cotidianas – não tão micro assim, mas jamais comparadas ao que se viu na chacina ocorrida no Rio de Janeiro – nem sempre são tão perceptíveis, porque obviamente não provocam a comoção que as execuções em massa provocam. Ainda assim, o meu ponto aqui é tentar demonstrar como a dinâmica do futebol e dos atos de torcer em toda a sua multiplicidade ajudam, de alguma forma, a escancarar o problema da violência policial como algo endêmico.
A polícia, antes de começar a matar irrefreavelmente, precisa primeiro “naturalizar” as distinções, o racismo institucional, precisa se convencer de forma absolutamente arbitrária de que diferentes perfis de pessoas podem e devem ser tratadas diferentes.
O baculejo, a truculência, o uso de armamento não letal e das famigeradas balas de borracha, a revista policial mais incisiva, as agressões físicas e verbais, as ameaças, os revólveres sendo mirados na cabeça dos torcedores, tudo isso eu pude testemunhar no contexto do Estádio Almeidão, por exemplo, principal praça esportiva da capital paraibana.
Postura essa, é sempre importante repetir e salientar, em regra executada contra os torcedores negros, pobres e periféricos. No setor do estádio, a Arquibancada Sol, destinada a esses torcedores mais vulneráveis do ponto de vista jurídico e social. Muito raramente na Arquibancada Sombra, ocupada pela classe média branca; jamais, em hipótese alguma, no Setor de Cadeiras, ocupado pela classe alta igualmente branca.
É o que que Mbembe (2018, p. 39) vai chamar de “necropoder”, uma política de estado que vai promover a “instituição de direitos diferentes, para diferentes categorias de pessoas” (Mbembe, 2018, p. 39), e que vai dar a esse mesmo estado autoritário “a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é ‘descartável’ e quem não é” (Mbembe, 2018, p. 41). Vai levar, enfim, ao surgimento de “espaços de violência” (Mbembe, 2018, p. 46) em que a repressão estatal ganha ares de legalidade e passa a ser mais aceita do que em outros espaços. Em palavras mais diretas, pois, os estados soberanos, com suas polícias, com seus ministérios públicos, com suas “elites” racistas e pouco preocupadas com as camadas subalternas da população, passam a exercer um certo poder decisório sobre “quem pode viver e quem deve morrer” (Mbembe, 2018, p. 5).
Eu bem sei que os conceitos de Mbembe (2018) não são novidades e já se tornaram clássicos. Teria uma série de outros autores e autoras que eu poderia citar para tratar da questão. Por exemplo, Tsoukala (2014), que ao adentrar especificamente no mundo do futebol denuncia a existência de forças policiais que definem uma ideia altamente subjetiva de “torcedor de risco”. Um tipo de torcedor que passa a sofrer com uma lógica antecipatória, e que à revelia de qualquer ordenamento jurídico torna-se culpado e passível de sofrer coerções, rígidos controles, violências de todo o tipo, graves discriminações antes mesmo de qualquer cometimento de crime.
Como eu registrei, minha intenção não é comparar contextos, sofrimentos, gravidades. Mas, para mim, é sintomático demais perceber inquietantes semelhanças nas condutas dos policiais militares Brasil afora. Seja nas arquibancadas, seja na cidade em sua dimensão mais ampla. Em comum, o mesmo perfil como alvo. A diferença, e essa não é pequena, é que na favela a bala não é de borracha.
Notas
(1) Gama, Rafaela. “Castro classifica como ‘sucesso’ operação com mais de 120 mortos: ‘de vítimas lá só tivemos os policiais’”. O Globo, Rio de Janeiro, 29 out. 2025. Disponível em: <https://tinyurl.com/3p68864t>. Acesso em: 30 out. 2025.
(2) IPEA. Atlas da Violência 2025. Brasília, 2025. Disponível em: <https://tinyurl.com/yvtnv5pv>. Acesso em: 30 out. 2025.
Referências
MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Trad. Renata Santini. São Paulo: N-1 Edições, 2018.
TSOUKALA, Anastassia. “Administrar a Violência nos Estádios da Europa: quais racionalidades?”. In: HOLLANDA, Bernardo Buarque de; REIS, Heloísa Helena Baldy dos (orgs.). Hooliganismo e Copa de 2014. Rio de Janeiro: 7Letras, pp. 21-35, 2014.
