“O FIM DO FUTEBOL BRASILEIRO”
Foi essa a frase que estampou o post de quinze dos vinte clubes da série A do Campeonato Brasileiro. O texto veio assim mesmo, em letras garrafais, como se estivesse gritando com o torcedor. Enquanto isso, no silêncio típico do uso dos celulares, as apostas seguem fazendo barulho em famílias que são destruídas pelo vício.
A revolta nas redes sociais denuncia algo que já não é uma novidade, a desconexão do futebol com a realidade brasileira. Alguns defendem que o lucro foi o agente principal dessa manifestação, mas um levantamento feito pelo jornal O’Globo indicou que, em média, apenas 7% das receitas dos clubes da série A provém das casas de apostas.
Nos momentos cruciais da temporada, os clubes comumente recorrem aos torcedores para pedir apoio, mas quando estes são os que precisam de ajuda, o que prevalece é o interesse que corrobora com a lógica do mercado.
É curioso pensar como a lógica dos afetos é rapidamente colocada em segundo plano em um dos fazeres mais afetivos que existem. Na década de 70, o então treinador do Celtics, Jock Stein proferiu uma frase que se tornou um símbolo do futebol inglês, e que é aplicável ao futebol mundial: “Football without fans is nothing [O futebol sem os torcedores não é nada]”.
Seguindo esse princípio, o fim do futebol não está relacionado ao fim das bets, mas sim ao fim dos torcedores que, paradoxalmente, pode estar relacionado com a presença das bets. Naturalizar a presença das casas de apostas esportivas é retribuir o afeto genuíno dos torcedores com pequenas doses de veneno.
Nos anos 90, Patrick Murphy, John Williams e Eric Dunning escreveram o famoso livro “O futebol no banco dos réus”, trazendo uma análise histórica, social e psicológica da violência no esporte. Talvez seja necessário colocar o futebol novamente no banco dos réus, desta vez para investigar o rumo mercadológico que tomou o esporte, e que contrapõe o vínculo afetivo.
Um ditado popular brasileiro nos recorda que “a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco”. Mas desde quando, nessa relação, os torcedores se tornaram o lado mais fraco? Se o futebol sem a torcida não é nada, é plausível de se pensar que ainda é na lógica dos afetos que reside a força.
No cinema, amor e dinheiro nunca foram bons companheiros. Hollywood insiste em nos dizer que, no final, quem ganha é o amor. Seria possível, nessa dualidade, a vida real imitar a arte? Não tenho respostas. Apenas perguntas. Guardadas para quando decidirmos colocar o futebol no banco dos réus novamente.
