A FIFA já confirmou que a Copa do Mundo de 1930 será a primeira com três sedes: Espanha, Portugal e Marrocos. Dos três países, apenas um deles é uma sede que recebe a competição de novo: a Espanha, que foi palco do mundial de 1982. Embora esteja recebendo de novo o torneio, é quase como se a Espanha fosse sede pela primeira vez. Isso porque, contrariando as expectativas, a Copa do Mundo de 1982 é relativamente pouco valorizada pelo país.
Ainda assim, é inegável que a expectativa de uma nova Copa do Mundo costuma trazer à superfície a memória das outras edições disputadas no país. Como é a primeira vez que Portugal e Marrocos recebem a maior competição do futebol mundial – a experiência prévia sendo torneios continentais, como a Eurocopa e a Copa Africana de Nações. Dessa forma, sobra a Espanha para relembrar a última vez que recebeu a Copa do Mundo – e imaginar como será a relação com uma nova competição.
A Copa “esquecida”
A Espanha foi escolhida como sede para o mundial ainda na década de 1960, com Stanley Rous na presidência da FIFA e Francisco Franco no comando da ditadura espanhola. Assim, foi um dos países que mais teve tempo para organizar a competição, mas na realidade o planejamento só começou após o falecimento de Franco, em 1975. Em um primeiro momento, foi criado o primeiro comitê organizador da competição, que apresentou os avanços na Copa do Mundo de 1978.
Na época, a Copa foi apresentada como uma possibilidade de melhorar a imagem do país internacionalmente, além de uma oportunidade econômica, que visava geração de empregos e aumento do turismo. É preciso compreender que durante o franquismo, a Espanha enfrentou períodos de imenso isolamento na comunidade internacional, e embora a abertura tenha se iniciado durante a última década franquista, o país ainda tinha relações tensas com o resto da Europa e os EUA.
Mas organizar um evento do tamanho de uma Copa do Mundo – que inclusive expandia o número de participantes para 24 times naquela edição – durante um período de instabilidade gerado pela transição política não era tarefa fácil. O país passou por diversas tensões durante o processo de transição, incluindo uma tentativa de golpe militar um ano antes da Copa, em fevereiro de 1981 (“23-F”).
Além disso, as décadas de 1970-1980 foram o auge dos grupos ligados a movimentos separatistas, como o ETA (Euskadi Ta Askatasuna), ligado ao País Basco. Em eventos esportivos, já existia o precedente de ataques terroristas às Olimpíadas de Munique, em 1976, o que elevava ainda mais os ânimos nacionais e internacionais.
Internamente, o descontentamento com a crise econômica e os gastos com reformas para a Copa atingiram especialmente os clubes e o futebol espanhol, que viveriam uma longa crise que duraria até a década seguinte. Mesmo que a Copa do Mundo de 1982 tenha batido recordes de arrecadação para época, e tenha elevado a publicidade de um mundial a um nível jamais visto, esse lucro não foi revertido ao futebol espanhol.
A própria performance da seleção espanhola em casa foi muito aquém do esperado. A “Fúria” foi eliminada no triangular, após passar em segundo no seu grupo com apenas uma vitória e perder todas as partidas da segunda fase. Sem embalar a torcida no futebol, e com uma organização da Copa marcada por polêmicas, o mundial foi considerado um fracasso para a população.
A Copa do Mundo que o governo havia tentado destacar como uma oportunidade de mostrar uma “nova” Espanha, um país democrático, moderno e aberto, acabou esquecida no imaginário espanhol. E apenas dez anos depois, com as Olimpíadas de Barcelona em 1992, é que a população espanhola considerou ter realizado o grande evento símbolo da unidade do país.
De volta a 2030
Em 2030, por enquanto, o cenário se desenha bem diferente. Do ponto de vista do esporte, o futebol espanhol vive talvez seu melhor momento, e a seleção masculina chegará como atual campeã da Copa do Mundo (ambos os títulos conquistados no século XXI, em 2010 e 2026). Ainda em 2026, pela primeira vez na história, um país combina os títulos mundiais de futebol na categoria masculina e feminina: a Espanha.
Mesmo dividindo a sede com outros dois países, agora a Copa conta ainda mais participantes: 48 seleções. Serão 11 estádios espanhóis recebendo jogos, incluindo os tradicionais Camp Nou (Barcelona) e Santiago Bernabéu (Madrid), que em 1982 receberam a partida de abertura e a final do mundial, respectivamente.
A oportunidade de receber uma nova Copa do Mundo, em um momento completamente diferente, pode representar uma importante retomada da memória da primeira vez que o país recebeu o principal torneio do futebol mundial. Partindo do princípio de que a memória é construída e disputada, é uma chance de a Espanha reencontrar a memória de 1982 – e criar uma nova com a Copa que virá. Assim, talvez a pergunta não seja exatamente por que pouco se lembra da Copa de 1982 no país, mas o que esse esquecimento, tem a nos dizer sobre a Espanha que saía de uma ditadura e recebia o mundo todo.
Referências
Rodríguez, Ignacio Sánchez-Cuenca. “La violencia terrorista en la transición española a la democracia.” Historia del presente 14 (2009): 9-24.
Simón, Juan Antonio, and Carlos García-Martí. “1982 FIFA World Cup: from Spain’s struggle for democratic legitimacy to Italy’s rediscovery of football nationalism.” Soccer & Society 20.7-8 (2019): 948-959.
Nora, Pierre. Entre história e memória: a problemática dos lugares. Revista Projeto História. São Paulo, v. 10, p. 7-28, 1993.
