Da área destinada à imprensa na Arena Pantanal, algumas cenas ficaram mais vivas na memória do que qualquer resultado. Vi Isa Haas, hoje no América do México e com passagens por Cruzeiro e Internacional, tirar a própria meia e entregar para um torcedor eufórico. Evelin, do Santos, e Tainá Maranhão, do Palmeiras, ainda estavam no campo quando quase não havia mais luz, insistindo em fotos, vídeos, autógrafos e conversas rápidas, mesmo quando os refletores já davam o aviso silencioso de que a noite tinha acabado. E Arthur Elias, já no caminho do ônibus, voltou alguns passos só para atender crianças que gritavam seu nome, como se aquele último gesto também fizesse parte do jogo.
Mesmo sem ter conquistado a Copa do Mundo até o momento, a Seleção Feminina representa uma memória afetiva para milhões de brasileiros. Os mais velhos lembram das narrações de Luciano do Valle, enquanto os mais novos podem ter conhecido alguma atleta nas transmissões por streaming, TV aberta ou mesmo no TikTok. E isso tem um enorme valor.
A escolha de Cuiabá
Essas cenas ajudam a explicar o que Cuiabá viveu ao longo da semana. A cidade foi escolhida para receber a primeira Fifa Series feminina da história, dentro da segunda Data Fifa do ano, mesmo fora da lista final das sedes da Copa do Mundo de 2027. Durante oito dias, acompanhou de perto a Seleção Brasileira em treinos, jogos e um contato constante. Os resultados vieram, com vitórias sobre Coreia do Sul, Zâmbia e Canadá, além do título, mas a sensação geral claramente não ficou presa a isso.
Novas formas de idolatria
Há um ponto que atravessa tudo isso. A relação entre ídolos e torcida no esporte costuma ser construída a partir de distância, de uma figura quase inacessível que se projeta mais como símbolo do que como pessoa – um bom exemplo é a descrição de Maradona feita por Eduardo Galeano: “o mais humano dos deuses”. A Seleção Feminina tem encurtado esse caminho de forma natural, seja na interação virtual ou, principalmente, depois dos jogos, como aquelas cenas iniciais.
Presença nas arquibancadas
Nas arquibancadas, os números oscilaram. Foram pouco mais de 6.700 pessoas na estreia, uma queda no meio da semana e, depois, quase 13 mil presentes no jogo contra o Canadá. Não é o mesmo volume visto em algumas partidas em São Paulo, por exemplo, mas isso também não conta a história inteira. O que chamou atenção foi o comportamento de quem estava ali, uma torcida participativa, próxima, que acolheu não só as jogadoras, mas também comissão e até a própria dinâmica do evento.
Como defendem os professores Ronaldo Helal, Hugo Lovisolo e Antônio Jorge Gonçalves Soares no livro “Futebol, jornalismo e ciências sociais: interações”, “o futebol, e de modo geral o esporte, tornou-se espaço de formação de identidades e de expressão do nacional ou do regional, de participação e pertencimento, de emoção e prazer, de recreação, criação e imaginação”.
Essa percepção aparece também no relato de Aline Gomes, que falou sobre essa relação direta com o público. “O público estar presente, torcendo, gritando o nosso nome, faz muita diferença para nós. Às vezes nem sabe quem é, mas está ali apoiando, e isso muda o jogo”, disse a atacante.
Ela mesma descreveu o que acontece depois do apito final, quando o jogo continua de outra forma. “Depois do jogo, eles querem foto, querem conversar. Teve uma torcedora comentando enquanto eu assinava uma camisa, e você vai ouvindo aquilo (uma palavra de incentivo). É muito legal estar perto, faz diferença para a gente dentro de campo”, contou, sobre o impacto na performance esportiva da equipe.
Imprensa
Outro ponto que ajuda a dimensionar o que foi a semana em Cuiabá é a presença da imprensa. Havia um número considerável de profissionais de diferentes plataformas do país, como Grupo Globo, SporTV, ESPN, CazéTV, Record TV, TV Brasil, Lance! e GOAT, além de veículos de mídia independente como Fut das Minas, Donas FC e Planeta Futebol Feminino, entre outros.
Mais do que quantidade, chamava atenção a presença de jornalistas especializados na cobertura da modalidade, gente que acompanha o futebol feminino no dia a dia e que leva esse repertório para coletivas e entrevistas exclusivas. Isso eleva o nível das perguntas, aprofunda o debate e, aos poucos, também ajuda a qualificar a forma como o futebol feminino é contado e entendido.
Futebol feminino é um nicho?
Quando se junta tudo isso, o cenário contrasta com a ideia ainda repetida de que o futebol feminino é um nicho. Dados recentes da FIFA mostram crescimento de público e interesse, e levantamentos da Nielsen reforçam que existe uma base de fãs engajada. Ainda não é uma realidade de estádios cheios em todos os jogos no Brasil, mas também está longe de ser um cenário de desinteresse, apesar da tentativa de alguns de sustentar essa narrativa.
Em outros países, esse processo já avançou mais, com ligas fortes e presença regular de público. Ainda assim, Cuiabá mostrou que o Brasil está construindo esse caminho com características próprias.
Referências
HELAL, Ronaldo; LOVISOLO, Hugo; SOARES, Antonio Jorge. Futebol, jornalismo e ciências sociais. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009. (HELAL; LOVISOLO; SOARES, 2009, p. 14)
LANCE! Aline Gomes destaca apoio da torcida em jogos no Brasil. Lance!, 2024. Disponível em: https://www.lance.com.br/futebol-feminino/aline-gomes-destaca-apoio-torcida-jogos-no-brasil.html. Acesso em: 20 abr. 2026.
GALEANO, Eduardo. O mais humano dos deuses. Jacobin Brasil, 2020. Disponível em: https://jacobin.com.br/2020/11/o-mais-humano-dos-deuses/. Acesso em: 19 abr. 2026.
FIFA (relatório de desenvolvimento do futebol feminino):
FIFA. Women’s Football: Member Associations Survey Report 2023. Zurique: Fédération Internationale de Football Association, 2023. Disponível em: https://inside.fifa.com/en/womens-football/news/en/news/fifa-releases-global-womens-football-landscape-survey-report. Acesso em: 21 abr. 2026.
Nielsen (crescimento global do público do futebol feminino):
NIELSEN. Women’s football set to enter global top 5 sports by 2030 with over 800M fans. Londres: Nielsen Sports, 2025. Disponível em: https://www.nielsen.com/news-center/2025/womens-football-set-to-enter-global-top-5-sports-by-2030-with-over-800m-fans-nielsen-sports-and-pepsico-report-reveals-untapped-opportunity-for-brands/. Acesso em: 21 abr. 2026.
