Patrocinadores da Copa do Mundo FIFA: marketing, reputação e comunicação

Por Fausto Amaro e Júlya Braga

A Copa do Mundo FIFA é um dos maiores eventos esportivos do planeta, mobilizando bilhões de espectadores e reunindo diferentes marcas que ajudaram a construir a história dos patrocínios globais da competição. Mais do que um torneio de futebol, o evento tornou-se uma importante plataforma global de comunicação, consumo e marketing, capaz de conectar empresas a públicos de diferentes países e culturas. A relação entre as marcas e a Copa do Mundo evoluiu significativamente no decorrer do tempo, acompanhada de transformações econômicas, tecnológicas e sociais. Por meio de diferentes formatos de divulgação, como painéis nos estádios, campanhas promocionais, ativações das marcas e experiências voltadas aos torcedores, as empresas utilizam o torneio para fortalecer sua imagem, ampliar a presença ao redor do mundo e estreitar o relacionamento com os consumidores. Para compreender essas transformações, este levantamento analisa os patrocinadores globais da Copa do Mundo FIFA desde 1950, identificando quais empresas participaram de cada edição, os períodos de permanência, as marcas que seguem vinculadas ao evento até os dias atuais, seus setores de atuação e países de origem. Além disso, o levantamento revela mudanças no perfil dos patrocinadores nas décadas pesquisadas, refletindo tendências de mercado e as transformações culturais, sociais  e econômicas que marcaram cada período da história do torneio.

  • Os patrocinadores históricos da Copa do Mundo FIFA

Ao longo das décadas, a Copa do Mundo FIFA se tornou muito mais do que uma competição esportiva. Sua capacidade de mobilizar audiência transformou o torneio em uma das mais valiosas vitrines de comunicação para marcas de diferentes segmentos. As empresas patrocinadoras perceberam que o evento oferece a oportunidade de alcançar não apenas os apaixonados por futebol, mas também milhões de pessoas que acompanham a competição motivadas pelo sentimento de pertencimento e pela torcida por suas nações. 

Mais do que uma ação pontual de marketing, muitas organizações passaram a enxergar o patrocínio da Copa como uma estratégia de longo prazo. Marcas como Coca-Cola e Adidas atravessaram diferentes gerações de torcedores e edições do torneio, consolidando-se como empresas fortemente associadas à identidade do evento. Essa permanência demonstra como a ligação com o futebol pode funcionar como um poderoso instrumento de construção de reputação, reconhecimento de marca e conexão emocional com consumidores em escala mundial. 

Figura 1 – Linha do tempo dos patrocinadores globais da Copa do Mundo FIFA (clique na imagem para vê-la em tamanho ampliado)

Fonte: Elaborado pela autora.

A partir da pesquisa para este levantamento, verificamos que a Coca-Cola, empresa originária dos Estados Unidos, é a marca com a trajetória mais longeva na história dos patrocinadores da Copa do Mundo FIFA. Sua primeira aparição ocorreu em 1950, durante a Copa realizada no Brasil, por meio de uma placa estática no estádio. No entanto, a relação oficial entre a marca e a FIFA foi formalizada apenas em 1978, na Argentina. Desde então, a empresa esteve presente em todas as edições, consolidando-se como uma das principais patrocinadoras e desenvolvendo ações que se tornaram parte da memória afetiva de diferentes gerações de torcedores. Um dos exemplos marcantes foi o “Tecobol”, jogo que utilizava tampinhas de garrafas com imagens dos jogadores como peças. Além disso, iniciativas como os “Minicraques”, coleção de copos temáticos, latas comemorativas, espaço reservado no álbum oficial de figurinhas e minigarrafinhas colecionáveis, ficaram conhecidas entre os consumidores. 

Já a Adidas, empresa alemã de materiais esportivos, fundada há mais de 70 anos e reconhecida pelo desenvolvimento de tecnologias aplicadas à chuteiras, bolas e vestuário esportivo, é reconhecida como a fornecedora oficial dos torneios de futebol mais importantes do mundo, como a própria Copa do Mundo da FIFA, o Campeonato Europeu da UEFA, a Liga dos Campeões da UEFA e a Major League Soccer. Além de ser fornecedora de alguns dos principais clubes do mundo como Real Madrid, Arsenal e Juventus, por exemplo, patrocina importantes federações como Alemanha, Argentina e Itália e grandes atletas do meio esportivo. 

Figura 2 – Trio Dunga, Ronaldo e Romário como “Minicraques” da Coca-Cola

Fonte – Museu da Copa (Publicado em 2016)

Além de sua participação como fornecedora oficial, a marca acumula mais de cinco décadas de associação à Copa do Mundo FIFA. Entre os modelos mais emblemáticos estão a Telstar, utilizada na Copa do Mundo no México em 1970 e considerada um marco por seu design inovador em preto e branco, e a Jabulani, lançada para a Copa do Mundo da África do Sul em 2010, que se destacou por suas características tecnológicas e discussões que gerou entre os jogadores e especialistas sobre seu comportamento em jogo. 

Figura 3 – Bola oficial (Adidas) da Copa do Mundo da África do Sul em 2010

Fonte – Museu da Copa (Publicado em 2015)

  • A evolução dos setores econômicos 

A evolução dos patrocinadores da Copa do Mundo demonstra como o torneio acompanhou as transformações da economia global. A partir dos dados coletados é possível observar mudanças significativas nos setores econômicos representados pelas empresas patrocinadoras, refletindo avanços tecnológicos, alterações nos hábitos de consumo e ascensão de novos mercados. Entre 1950 e 1990, os patrocínios estavam concentrados principalmente em setores industriais e de bens de consumo. Além da presença contínua da Coca-Cola, representando o segmento de bebidas não-alcoólicas, e da Adidas, vinculada ao fornecimento de materiais esportivos e da bola oficial do torneio, destacam-se empresas dos ramos de equipamentos fotográficos, lâminas de barbear, indústria automotiva, relógios, bebidas alcoólicas e chocolates. Nesse período, houve o predomínio de empresas originárias dos Estados Unidos, Alemanha, Itália, Holanda e Japão, países que exerciam grande influência econômica e tecnológica no cenário internacional. 

Nas Copas de 1994 e 1998, observou-se o desaparecimento da categoria de relógios e cronometragem, ao mesmo tempo em que surgiram novos segmentos relacionados às transformações econômicas e tecnológicas da década de 1990. Destaca-se a entrada dos serviços financeiros, das pilhas e baterias, presentes especialmente na Copa de 1994, além do fortalecimento dos setores de cuidados pessoais e fast food, representado pela entrada do McDonald’s como patrocinador do torneio. Entre 2002 e 2010, os patrocínios passaram por uma nova reconfiguração. Categorias tradicionais, como materiais fotográficos e pilhas e baterias, perderam espaço, enquanto ganharam relevância setores ligados às telecomunicações, internet e pneus. Em 2010, surgiu a categoria de energia renovável, refletindo a crescente preocupação global com questões ambientais. Nesse período, ampliou-se a diversidade geográfica das empresas patrocinadoras, com a inclusão de marcas originárias da Coreia do Sul, Índia, Inglaterra e Emirados Árabes Unidos. 

Por fim, entre 2014 e 2016, a composição dos patrocínios se diversificou ainda mais. Foram anexados segmentos como produtos farmacêuticos e higiene, companhias aéreas, energia, gás e petróleo, criptoativos e finanças digitais, além dos setores de laticínios e smartphones. De forma paralela, observou-se uma ampliação de empresas oriundas de países em ascensão econômica, como Catar, China, Rússia e Singapura, enquanto países tradicionalmente presentes nos patrocínios, como Holanda, Alemanha e Japão, passaram a ter participação menor ou zero dentre todos os países. Dessa forma, a evolução dos patrocinadores da Copa do Mundo evidencia não apenas as mudanças nas estratégias de marketing esportivo, mas também as transformações da economia global, acompanhando o surgimento de novos setores e tecnologias. 

  • Associação com consumo e relações públicas 

Em todas as edições da Copa do Mundo FIFA, a expectativa em torno da audiência global é enorme, envolvendo não apenas os telespectadores em suas casas, mas também o público presente nos países-sede e nos estádios. Os números expressivos, registrados em diferentes plataformas e canais, colocam o Mundial como uma das maiores oportunidades de marketing da atualidade. Como exemplo, uma matéria do portal CNN destacou que a Copa do Mundo de 2026 já se tornou a edição com maior público da história do torneio, superando o recorde estabelecido em 1994, quando quase 3,6 milhões de espectadores acompanharam a competição. A informação foi divulgada pela FIFA. O público total da Copa deste ano pode chegar a quase dobrar esse recorde, em um contexto no qual o torneio conta com um número maior de partidas. Além disso, os estádios vêm registrando  ocupação média superior a 99%, conforme o portal CBN Globo. 

As marcas patrocinadoras, neste caso, não buscam apenas exposição publicitária. Seu objetivo envolve também a construção de valores simbólicos, o fortalecimento da reputação perante o grande público, a consequente conexão emocional e a identificação com os consumidores. Com a indústria aquecida, o mercado publicitário, especialmente o que envolve mídias, eventos e ativações, ganha protagonismo, no contexto atual das mídias digitais. Nesse ambiente, o consumo não se limita à compra de produtos, mas se relaciona diretamente com os interesses. Ao observar a evolução dos patrocinadores da Copa do Mundo FIFA entre 1950 e 1990, nota-se o predomínio de empresas ligadas às economias industriais que lideraram o cenário pós-guerra. Com o passar das décadas, os patrocínios passaram a refletir as mudanças nas necessidades do público e na própria dinâmica global, incorporando setores como tecnologia, serviços financeiros, companhias aéreas e meios de pagamento. 

Atualmente, os patrocínios assumem um papel ainda mais estratégico, influenciando o comportamento dos consumidores por meio das tendências promovidas pelas marcas. Em entrevista ao portal norte-americano The Athletic, Odinga Nimako, gerente de produtos da Nike, explicou que a alta demanda dos atletas por cores vibrantes levou a empresa a adotar, neste ano, o rosa-choque nas chuteiras como tendência. Segundo o gerente, os atletas associam cores mais intensas a maior confiança em campo. Por isso, essa tendência também impactou o varejo no Brasil, com o aumento nas vendas de chuteiras rosas, evidenciando a relação entre performance esportiva e moda, conforme divulgado pelo portal Meio & Mensagem. Assim, as empresas presentes em cada edição da Copa do Mundo revelam não apenas quais setores lideram a economia global em determinado período, mas também quais regiões ampliam sua influência e quais marcas buscam construir relevância internacional. Analisar os patrocinadores da Copa é uma forma de compreender não apenas o futebol, mas também as transformações econômicas, culturais e comunicacionais que marcam o mundo contemporâneo. 

Referências

LANCE. Patrocínio na Copa do Mundo: entenda a divisão das cotas e conheça as empresas parceiras da FIFA. Lance Negócios, 6 nov. 2022. Disponível em: https://www.lance.com.br/lance-negocios/patrocinio-na-copa-do-mundo-entenda-a-divisao-das-cotas-e-conheca-as-empresas-parceiras-da-fifa.html. Acesso em: 30 jun. 2026.

FIFA. adidas. FIFA Inside. Disponível em: https://inside.fifa.com/tournament-organisation/partners/adidas. Acesso em: 30 jun. 2026.

CONTADO, Valeria. Como a Copa tem definido as preferências de consumo. Meio & Mensagem, 17 jun. 2026. Disponível em: https://www.meioemensagem.com.br/marketing/como-a-copa-tem-definido-as-preferencias-de-consumo. Acesso em: 30 jun. 2026.

CBN. Média de ocupação dos estádios da Copa do Mundo é de mais de 99%, indica levantamento. CBN, 24 jun. 2026. Disponível em: https://cbn.globo.com/coberturas/copa-do-mundo/noticia/2026/06/24/media-de-ocupacao-dos-estadios-da-copa-do-mundo-e-de-mais-de-99percent-indica-levantamento.ghtml. Acesso em: 30 jun. 2026.

CNN. Copa do Mundo 2026 bate recorde de público e supera marca de 1994. CNN Brasil, 25 jun. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/copa-do-mundo/copa-do-mundo-2026-bate-recorde-de-publico-e-supera-marca-de-1994/. Acesso em: 02 jul. 2026.

THE ATHLETIC. Por que tantos jogadores estão usando chuteiras rosa na Copa do Mundo? The Athletic, 13 jun. 2026. Disponível em: https://www.nytimes.com/athletic/7355780/2026/06/13/pink-cleats-boots-world-cup-nike-adidas-puma/. Acesso em: 03 jul. 2026.

VEJA. O rosa é o novo pretinho básico. A primeira grande e onipresente tendência da Copa: as chuteiras luminosas. VEJA, 14 jun. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/esporte/o-rosa-e-o-novo-pretinho-basico/. Acesso em: 02 jul. 2026.

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