O Brasil continua sendo uma potência na produção de jogadores, mas deixou de ser o centro simbólico, técnico e institucional do futebol mundial. O epíteto “país do futebol” descreve melhor o século XX do que a realidade do século XXI.
A “Pátria de Chuteiras” morreu há alguns anos. O uso oportunista de um dos símbolos mais sagrados do chamado “ópio do povo” pela política inescrupulosa apenas lançou a pá de cal definitiva sobre um conceito que muitos, por nostalgia, ainda se recusam a sepultar. Nos últimos anos, símbolos como a camisa amarela da Seleção passaram a ser associados por parte da população a determinados movimentos políticos. Independentemente da posição de cada um, essa associação reduziu o caráter unificador que esses símbolos tiveram durante décadas.
O mesmo acontece com a ideia de que o Brasil continua sendo o “país do futebol”. Na verdade, poucos ainda acreditam nisso. O obituário desta expressão começou a ser escrito há mais de vinte anos e recebe uma nova edição a cada quatro anos, ao fim de cada Copa do Mundo. Acrescentam-se velhos argumentos reciclados, suficientes para manter viva a esperança, mas incapazes de esconder ou transformar a realidade.
Nas décadas de 1950 a 2002, a Seleção Brasileira era um poderoso símbolo de identidade nacional. Hoje, esse vínculo é muito mais frágil. A equipe joga poucas vezes no Brasil, muitos atletas têm carreiras construídas quase integralmente no exterior e parte da população já não se identifica com ela como antes.
Até os anos 1980, o Brasil possuía uma vantagem técnica muito grande. Hoje, conhecimento, preparação física, análise de desempenho, ciência do esporte e tecnologia estão disponíveis para praticamente todas as seleções. A distância diminuiu enormemente. Durante décadas, o país influenciava a forma de jogar futebol. Hoje, quem dita tendências são clubes europeus como os da Premier League, La Liga e outros grandes centros europeus.
Alguns motivos poderiam ser elencados para essa mudança, entre eles a formação de atletas: Antes, o futebol de rua, das praias e dos campinhos produzia jogadores criativos. Hoje, a formação é muito mais padronizada, orientada para o mercado internacional e para atender às necessidades dos clubes compradores.
Os melhores jogadores brasileiros deixam o país muito cedo e o Campeonato Brasileiro deixou de ser o destino final dos grandes craques e passou a ser uma etapa de formação para os clubes europeus.
Nas últimas oito Copas do Mundo, o domínio europeu é facilmente perceptível, apesar de sempre ter mais participantes que outros continentes (UEFA com média de 13 vagas ou 40,6% dos participantes e CONMEBOL com média de 5 ou 6 vagas correspondentes a 12,5%–15,6% dos participantes) transforma essa vantagem em desempenho esportivo: Europa ocupou 22 dos 32 semifinalistas e América do Sul oito dos 32.
Nos últimos 30 anos, aproximadamente sete em cada dez semifinalistas foram europeus, evidenciando a concentração do poder técnico, econômico e organizacional do futebol mundial no continente europeu.
| 1998 | 2002 | 2006 | 2010 | 2014 | 2018 | 2022 | 2026 |
| França | Brasil | Itália | Espanha | Alemanha | França | Argentina | Argentina |
| Brasil | Alemanha | França | Holanda | Argentina | Croácia | França | Espanha |
| Croácia | Turquia | Alemanha | Alemanha | Holanda | Bélgica | Croácia | França |
| Holanda | Coreia Sul | Portugal | Uruguay | Brasil | Inglaterra | Marrocos | Inglaterra |
O epíteto “país do futebol” sobrevive, essencialmente, apoiado em um único argumento: as cinco estrelas conquistadas pela seleção brasileira. No dia em que outra seleção alcançar esse mesmo número de títulos mundiais, desaparecerá o último sustentáculo desse discurso. Talvez por isso tantos brasileiros na véspera da final torcem contra a Argentina -única Seleção Sul-Americana a estar presente em 3 das últimas 4 finais de Copas do Mundo- e comemoraram a não classificação da Itália e a eliminação precoce da Alemanha em diferentes Copas, únicos países que ameaçam essa “superioridade numérica”
O futebol não é apenas um esporte; é, antes de tudo, um jogo coletivo. Exige organização, comprometimento, disciplina tática e vontade de vencer. Grandes equipes podem ser lideradas por gênios, mas esses líderes não são fabricados por campanhas de marketing nem construídos pela mídia. Eles surgem naturalmente, pelo talento, pelo exemplo e pela capacidade de transformar o desempenho coletivo.
Parte do jornalismo esportivo brasileiro continua fiel a um papel que, há muito, deixou de ser o de informar com independência e apego aos fatos. Não por acaso, hoje muitos veículos preferem assumir explicitamente a condição de entretenimento. Mas essa é outra discussão.
